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“Acabei de fazer uma coisa fantástica. Quando fazemos coisas boas, ficamos ainda mais bem-dispostos”. A garantia foi dada por Carlos Barroca, candidato à Presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB) para o quadriénio 2026-2030.
O antigo comentador televisivo (RTP e SportTV) atendeu a chamada telefónica do 24notícias inebriado pela apresentação da Cidade do Basquetebol, projeto apresentado no Montijo, na passada sexta-feira, parte integrante das suas propostas.
“É uma coisa de legacy. Que se cria para o futuro. E gosto muito de pensar que a nossa vida é mais do que aquilo que fazemos no imediato. É o que perdura como a nossa imagem para o futuro”, assegura Carlos Barroca, candidato da Lista C às eleições a realizar sábado, 25 de abril, referindo-se à infraestrutura desportiva cujas obras, caso seja eleito, deverão arrancar em 2028.
O processo eleitoral da FPB decorre em duas fases. No passado dia 21 de fevereiro foram eleitos 37 delegados, representantes de jogadores, treinadores, clubes e árbitros. Juntam-se a 24 delegados por inerência e formam o Colégio Eleitoral reunido sábado em Assembleia Geral para escolher o próximo presidente da Federação e respetivos Órgãos Sociais.
Concorrem Carlos Barroca (Lista C), João Carvalho (Lista A) e Valdemar Cabral (Lista B). Esta última candidatura é exclusiva ao Conselho de Arbitragem.
Ao 24notícias, Barroca e Carvalho concordam que o crescimento de praticantes passa pelo Desporto Escolar, apontam ao 3X3 como a variante que pode levar Portugal aos Jogos Olímpicos, mostram-se preocupados com os resultados financeiros e garantem ter uma equipa apta a captar mais investimentos e novos patrocínios.
“Não é uma candidatura centrada num líder”
João Carvalho, atual Secretário-Geral da direção de Manuel Fernandes, presidente cujo ciclo termina após 12 anos, sustenta que a sua mais-valia está centrada “nas pessoas” e na “equipa” apresentada, além do “conhecimento” da “modalidade e da realidade”, assinala ao 24notícias.
“Não é uma candidatura centrada num líder. Na campanha verificamos que as pessoas têm grande apreço, nomeadamente, pelo atual Diretor Técnico Nacional, Nuno Manaia, que fará parte da direção caso sejamos eleitos, e o potencial Diretor Técnico Nacional (Paulo Neta), atual Diretor Técnico Regional do Porto”, particulariza.
“Somos conhecidos no meio, somos pessoas muito credíveis. Quem está no basquetebol sabe que, quando assumo compromissos, vou cumprir. Não me comprometo com coisas que, à partida, sei que não vou conseguir alcançar e não faço promessas em vão”, dispara João Carvalho, 60 anos.
O antigo jogador pretende “mudar o modelo de governação da Federação, ter uma liderança transformacional”, onde os agentes fazem também parte desse processo de mudança de transformação e evolução da Federação”, finaliza.
Carlos Barroca destaca como mais-valia o facto da equipa que lidera saber “o que há a fazer para continuar a crescer”, certifica. “Temos que ser capazes de resolver questões relacionadas com o crescimento e a credibilidade que nos pode dar produto e financiamento”, atesta o líder da Lista C, ávido de combater as assimetrias.
“Temos que fazer da distância proximidade”, adiantou. Deu um exemplo: “Se vivo num sítio onde tenho que fazer sistematicamente mil quilómetros para jogar, os meus custos para jogar são muito maiores do que alguém que só tem de fazer 20 quilómetros. Temos de ter uma forma de ajudar a crescer”, disse o antigo treinador do Benfica, Porto, Imortal e Portugal Telecom.
“Não quero ser presidente da Federação porque os meus amigos votam em mim”
João Carvalho integra a atual direção. Esse facto, “não constitui uma vantagem direta” relativamente à outra candidatura, porque “não estou a utilizar qualquer recurso da Federação”, declarou. A vantagem poderá, sim, advir do conhecimento “mais profundo da realidade federativa”, que diz ter, em especial “ao nível das associações, clubes e das assimetrias” existentes, estatui.
Em contraponto, Carlos Barrocas, há 10 anos afastados da realidade do basquetebol português e uma longa vivência internacional, enquanto consultor da NBA na Ásia, considera esse dado uma “vantagem” na hora de se sujeitar ao escrutínio do Colégio Eleitoral responsável pela escolha do homem do leme do basquetebol português.
“Quando estamos de fora conseguimos observar as coisas desprovidos da relação de amizade e proximidade, que, muitas vezes, é o nosso pior inimigo”, afiança Barrocas.
“Não quero ser presidente da Federação porque os meus amigos votam em mim. Quero ser porque tenho um projeto que é melhor para o basquetebol”, assevera.
“Muito do meu trabalho pelo mundo fora ao serviço da NBA, já trabalhei em 44 países, era fazer diagnósticos da realidade e apontar caminhos”, lembra Barrocas.
Promete, por isso, apresentar uma “visão do mundo” para a realidade portuguesa. “É uma visão de quem tem mundo no seu basquetebol e não vou ficar limitado a uma mentalidade mais pequena”, contrapôs.
“Basquetebol is our business, our business is basquetebol”
Os resultados financeiros e desportivos de 2025, em especial o retorno da seleção masculina ao EuroBasket, 14 anos depois, entrou na conversa dos candidatos.
“Na última década, o basquetebol, do ponto de vista financeiro, teve recursos como nunca, cresceu financeiramente, mas se calhar não cresceu como devia ter feito na infraestrutura de aproveitamento dos recursos”, alerta Carlos Barroca. “Os recursos gastam-se, mas não quero gastar recursos, quero que sejam investidos”, menciona.
O Relatório e Contas de 2025 mostra menos receitas. João Carvalho debruça-se sobre alguns fatores que explicam os (maus) resultados. “A quebra nas apostas desportivas”, fator “externo” à Federação”, desde logo. A variação “depende dos apostadores e das casas de apostas”, identifica, sendo que a “repartição das apostas desportivas é especificamente da modalidade à qual a Federação está ligada”, detalha.
O “maior investimento” na preparação das seleções nacionais e o “pagamento de prémios para os objetivos alcançados” ajudam igualmente a explicar a “quebra” nos resultados financeiros. Para contrabalançar, não existiu “qualquer contrapartida adicional, ao nível de receitas, quer por parte de patrocinadores, quer por parte do próprio Estado, relativamente aos resultados alcançados”, lamenta.
Para combater o resultado negativo superior a um milhão de euros, quando se previa uma quebra de apenas 150 mil euros, a lista de João Carvalho propõe uma “política comercial mais agressiva”, inexistente neste momento. “Aliás, nunca existiu verdadeiramente na Federação”, lamenta, em jeito crítico, o atual Secretário-Geral da FPB.
Garante ter na equipa “pessoas conhecedoras do mercado” e “capacitadas para desenvolver produtos” e “tentar alcançar outro tipo de patrocinadores”, acrescenta.
A criação de um Departamento Comercial “fortíssimo”, onde diz ter “gente com experiência internacional e financeira, na Publicidade, Direitos, Patrocínios” é a receita apresentada por Carlos Barrocas, crítico da saúde financeira da FPB.
Nesta composição entram os anunciados “seis milhões para os próximos quatro anos para colmatar o tal buraco financeiro”, perspetivou, injeção “só possível, com credibilidade e capacidade que queremos acrescentar à nossa modalidade”, lista.
Se for eleito presidente, Barroca vai usar dois chapéus. “O chapéu do business e o do basquetebol”, clarifica enquanto socorre-se de uma frase usada diariamente na NBA: o basquetebol is our business, our business is basquetebol”, cita.
Preocupado com a “falência técnica ou real” e as implicações que possam ter no futuro da modalidade, Carlos Barroca pretende apresentar um “reforço financeiro, através de patrocinadores exteriores à Federação”, anuncia.
Dará prioridade ao “crescimento da modalidade e à qualificação da modalidade, em detrimento de outros aspetos, construindo todos os dias as pontes de credibilidade com parceiros que nos ajudem a crescer a modalidade”, sintetiza.
“(Neemias, Ticha e Mery) Temos de promover a imagem das estrelas”
Outra surpresa que se extrai da leitura do documento referente ao exercício de 2025 são os “menos de 500 praticantes do que em 2024”, alerta Barrocas. A diminuição afasta o basquetebol para longe da liderança das modalidades de pavilhão.
“Do ponto de vista do desportivo, em termos de número de praticantes, a quebra não é expressiva”. Exceção nos “sub-14” onde a “quebra foi maior”, contrapõe Carvalho. “Pensamos ser uma situação meramente conjuntural” interpreta, possível de reverter com o “trabalho desenvolvido, nomeadamente, ao nível das associações”, garante.
Os candidatos citam de cor ex-estrelas e atuais ídolos, Ticha Penicheiro, Mery Andrade e a superestrela dos Boston Celtics, Neemias Queta. Carvalho inclui outros que “temos o dever e o interesse em promover” como o “Ruben Pereira e a Clara Silva”, jogadora de “quase dois metros de altura, e pode ter condições para ingressar em breve na WNBA”, antecipa. “Também é preciso ter um bocadinho de sorte”, salvaguarda.
“(Os heróis e heroínas) São fundamentais para motivar os miúdos. Temos de promover a imagem dessas estrelas, fazer com que, quando estão em Portugal possam, de facto, estar mais em contacto com os nossos jovens”, dispara João Carvalho, cuja referência nos tempos de jogador foi Carlos Lisboa, base do Sporting, Benfica e seleção nacional.
No tema herói/heroína, candidato Carlos Barroca dá exemplo do trabalho do basquetebol germânico à volta do jogador Dirk Nowitzki, o melhor jogador europeu da NBA e MVP do maior campeonato do mundo, a NBA.
A nível doméstico “temos faróis (Neemias, Ticha e Mery) que podem iluminar e inspirar a sociedade basquetebolística para criar sistemas de pipeline de talento e de base sustentada maior, para que a modalidade não dependa de fogachos e não seja um acontecimento ir uma fase final do Europeu de 15 a 15 anos”, atira.
“Nem sequer é possível hoje em dia pensar em crescer, sem crescer no sítio onde está o maior número de potenciais praticantes desportivos, a Escola”
O Desporto Escolar continua a ser uma zona fértil de captação de novos jogadores. No passado, bastava uma bola, uma tabela e um professor para cativar novos praticantes.
Hoje, a realidade mostra outros números e outras preferências por parte dos jovens desportistas. Ambos os candidatos ao cargo na Rua Padre Américo, n.º 4 B – 1, em Lisboa, apontam o Desporto Escolar como via de multiplicação de praticantes.
“É uma aposta que gostaríamos, de alguma forma, ser incrementada”, cauciona João Carvalho, reconhecendo, contudo a existência de “alguma dificuldade de interação com os responsáveis do Desporto Escolar”, aliado ao “desinvestimento”, suporta.
Carlos Barroca inspira-se no modelo espanhol implementado desde a década de 70 do século passado, ainda hoje utilizado, quando discursa sobre o Desporto Escolar.
“Nem sequer é possível hoje em dia pensar em crescer, sem crescer no sítio onde está o maior número de potenciais praticantes desportivos, na escola”, afirma. “Existem instalações, professores, alunos, e existe uma coisa mais importante ainda hoje em dia, que é o tempo”, destaca Carlos Barroca.
“Se muitos alunos praticarem desporto, em ambiente escolar, os pais não têm que andar a fazer transporte de um lado para o outro, em horas impróprias, muitas vezes, e, portanto, isto é alargar a prática desportiva”, que não se confunde com rendimento desportivo, “que é para quem quer ir mais longe dentro da prática desportiva”, vinca.
Pega no crescimento “ímpar” a nível mundial, na comunidade, consumidores e praticantes e quer replicar a tendência na realidade nacional. “Nunca houve tanta gente no basquetebol como hoje. Portugal não pode ir em sentido contrário. Há trabalho para fazer nessa matéria e temos a equipa para o fazer”, promete Barroca.
“Ter um plano estratégico de desenvolvimento do 3x3”
Enquanto Secretário-Geral da Federação de Basquetebol, João Carvalho recorda o trabalho da direção presidida por Manuel Fernandes, presidente cessante.
“A nossa aposta tem sido através do programa Mini-basket 3x3 e é por essa via que queremos entrar nas escolas”, atesta.
“A escola é o ponto de partida para a prática do basquetebol federado”, assinala João Carvalho, para quem é muito importante, tanto a “presença física (recorrente) de alguém nas escolas nomeadamente nas escolas primárias” como a “oferta de material”, regista.
Para além de estender a passadeira a novos jogadores, passa pela vertente 3X3 a possibilidade de desfilar na Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos.
“Está nos nossos horizontes”, atira um “realista” João Carvalho. “Dentro da dificuldade que existe, será mais acessível ao nível do feminino do que propriamente do masculino. E, portanto, a nossa aposta relativamente aos próximos Jogos Olímpicos recairá, claramente, sobre a seleção feminina”, vinca.
“O objetivo passa por ter um plano estratégico de desenvolvimento do 3x3, criar um circuito verdadeiramente nacional, começar a disseminar o 3x3 como uma modalidade paralela ao 5x5, na qual teremos campeonatos nacionais, campeões”, anuncia.
“Achamos que essa é a via para depois conseguirmos ter jogadores especializados na prática do 3x3, porque atualmente o jogador de 5x5 joga 3x3”, aponta. “É um bocadinho como outras modalidades o Voleibol de Praia, que também inicialmente tinha jogadores de pavilhão. Depois houve a especialização”, recorda.
“O 3x3 é um mecanismo de crescimento. Desde 2020, dos Jogos Olímpicos de Tóquio, é uma modalidade olímpica”, lembra Barroca. E é por este “caminho mais curto”, seja no feminino ou masculino, que quer colocar a bandeira de Portugal na competição dos 5 Anéis, sem descurar a “ambição” de apresentar o 5x5.
“Criar o caminho às vezes muito mais importante do que uma coisa imediata que não tem sustentabilidade”, conclui Barroca, candidato à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol, cargo igualmente disputado por João Carvalho.
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