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Na noite de sexta-feira o espetáculo de luzes encadeou os céus de Milão e do Estádio San Siro para a abertura oficial da XXV edição do Jogos Olímpicos de Inverno.
O Curling, o jogo do lança a pedra e limpa o caminho de gelo, já tinha aberto a competição olímpica na passada quarta-feira, seguido do Hóquei no Gelo feminino e do Snowboard Ice Air.
Depois de declarado oficialmente os Jogos, para sábado está reservado a entrega das primeiras medalhas de ouro.
A competição reúne 93 nações. Na luta por 116 eventos de medalha dispersos por 16 desportos estão três bandeiras estreantes, todas oriundas de países sem neve.
A Guiné-Bissau, cuja representação recai nos batons do esquiador Winston Tang, guineense com ascendência em Taiwan, a viver no Utah, nos Estados Unidos da América (EUA), Benim e os Emiratos Árabes Unidos (EAU).
A igualdade do género será um marco histórico na segunda passagem dos Jogos Olímpicos, 70 anos volvidos, por Cortina D’Ampezzo, sumptuosa estância de esqui italiana.
O tema da paridade entre homem e mulher foi o ponto de partida para uma conversa com antigos atletas olímpicos nos estúdios do Eurosport, em Cortina D’Ampezzo.
A casa do desporto construída de raiz a partir de madeira, aço e materiais recicláveis de outros Jogos está inserida na “Aldeia das Nações”.
Tem uma vista privilegiada sobre as pista de esqui, centro de deslizamento (Luge, Bobsleigh e Skeleton) e o Estádio Olímpico de Curling, infraestruturas desta comuna italiana da região chique das Dolomitas, onde o Corso Itália, coração das lojas luxuosas, casa com a presença viva de museus alusivos à 1.ª Guerra Mundial (1914-1918).
“A igualdade entre homens e mulheres é fantástico”
Dos cerca de 2900 atletas qualificados para Milão-Cortina2026, 47% são mulheres, número que quase duplica em relação a Pequim2022. Há 50 competições exclusivas a mulheres, outro recorde neste evento olímpico a decorrer ao longo de 19 dias, até 22.
A aproximação do número de atletas dos dois sexos reparte-se pela distribuição de quotas iguais no Saltos de Esqui, aumento de eventos para as mulheres no Esqui Cross-Country, igual número de provas e aumento da quota feminina no Luge e Bobsleigh.
“A igualdade entre homens e mulheres é fantástico. Ter o mesmo número de oportunidades, provas e medalhas é muito positivo e representa um enorme progresso”, sublinhou Amy Williams , medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Vancouver, em 2010, na prova de Skeleton.
A mudança “terá, sem dúvida, um grande impacto no desporto feminino e também no masculino”, antecipa ao 24noticias a antiga esquiadora britânica.
“O efeito dominó será vermos mais modalidades femininas transmitidas na televisão, maior visibilidade e mais jovens raparigas a interessarem‑se pelo desporto, a olhar para verdadeiros modelos”, prevê.
“Isso é fundamental para qualquer atleta em formação, desde os escalões de base até ao nível profissional”, assevera. “É preciso ter alguém em quem se inspirar e querer ser”, considera a comentadora do Eurosport.
A exaltação da igualdade entre homens e mulheres nos Desportos de Inverno encontrou eco igualmente na conversa com a snowboarder britânica, Aimee Fuller.
“É uma grande notícia, é um momento incrível para ser mulher no desporto”, exalta.
Da explosão de mulheres no desporto resulta a emergência de novos modelos de desportistas. “A Chloe Kim, no Snowboard e Halfpipe, a Eileen Gu, no Esqui. O que adoro na Eillen é que mostra que podes ser feminina, falar bem, ter outros interesses, outras paixões e não precisas apenas de ser uma esquiadora ou snowboarder”, realça.
“Isso é muito importante para as mulheres que estão dentro do desporto, porque somos sempre mais do que o nosso desporto”, acentua.
Apesar dos avanços em matéria de igualdade, Martin Schmitt, um dos saltadores de esqui mais medalhados da história, lamenta não ter “meninas no Nordic combinado”.
Paradoxalmente, o Nordic combinado feminino será, nos JO Milão-Cortina2026, o único desporto de inverno sem uma categoria feminina no programa olímpico. Tudo porque, por decisão do Comité Olímpico Internacional (COI), os eventos femininos de combinado nórdico ficaram à porta dos JO 2026, decidindo o órgão máximo manter a disciplina como bastião exclusivamente masculino nos Jogos.
“É uma necessidade para os próximos Jogos Olímpicos”, avança o vencedor de três medalhas olímpicas em Nagano1988 (prata), Salt Lake City2002 (ouro) e Vancouver2010 (prata), numa conversa via zoom.
A ideia é reforçada por Maxime Laheurte, antigo esquiador da geração de ouro gaulesa. “Ainda não temos a igualdade o suficiente. Temos uma decisão importante no próximo verão de trazer as meninas para o Nordic nos próximos Jogos. Definirá o futuro do Nordic combinado nos Jogos Olímpicos e não só”, disse.
O herói que pode vir do Brasil
Em cada edição dos Jogos Olímpicos de Inverno (e de Verão) surge sempre um novo herói, “alguém que alcança algo extraordinário ou que tem uma história inspiradora”, salienta Amy Williams.
“No caso da Grã‑Bretanha, por exemplo, nem sequer temos uma pista de gelo para treinar e, ainda assim, conseguimos medalhas”, relembra.
Tal circunstância “mostra que, com trabalho árduo, determinação, dedicação e muitas horas de treino, muitas vezes a viajar pelo mundo no inverno, à procura das melhores condições de neve e gelo, treinar em diferentes pistas, é sempre possível alcançar o sucesso e chegar ao topo, mesmo quando as condições são difíceis”, alinha.
Tina Maze, foi mais direta.
“Estão a chegar. Os mais novos são muito divertidos. Vejo-os e penso: "meu Deus, és tão jovem, tão poderoso, tanta energia”, descreve a eslovena, quatro medalhas olímpicas no currículo, prata (2) nos Jogos de Vancouver 2010, nas categorias de Super-G e Slalom Gigante e ouro (2) nos JO Sochi2014, nas disciplinas de Downhill e Slalom Gigante.
“Gosto muito de ver o Atle Lie McGrath. É um tipo porreiro, dos mais engraçados do circuito masculino. Gosto dele, simplesmente” assume. “Traz espetáculo, alguma tradição do (Lasse) Kjus, que atirava os esquis para o ar”, revive.
O 'amigo' Lucas (Pinheiro Braathen), é outro dos referenciados. “O Brasil está a trazer uma nova nação para o esqui. É fantástico”, atira Maze, deixando antever a perspetiva do atleta naturalizado brasileiro em 2024 (norueguês de nascença) se tornar o primeiro medalhado sul-americano numa edição dos JO de Inverno.
Novas modalidades
Os Jogos Olímpicos de Verão são conhecidos por uma maior dinâmica e renovação do desportos a incluir no programa olímpico a cada ciclo. De Inverno, essa elasticidade é em grau muito menor e o tradicionalismo é a marca de água.
“Não existem tantas modalidades de Inverno como de Verão para se poderem adicionar muitas novas”, constata Amy Williams.
“E nem todos os países competem nos Jogos de Inverno, por várias razões”, lembra. Ainda assim, o crescimento faz-se dentro da modalidades tradicionais, onde é possível desenvolver “várias disciplinas diferentes”, aponta.
“No snowboard, por exemplo, há o Big Air e o Halfpipe. Temos o Luge feminino, em duplas e também provas por equipas no Skeleton (integrado o programa dos Jogos a partir da edição de 2002), juntando homens e mulheres. É um elemento extra”, acrescentou.
“Não sei quais que desportos adicionaria”, admite Aimee Fuller. “A introdução do snowboard, em 2014, foi enorme e precisávamos disso”, destaca.
O precisar encontra sinónimo na atração e renovação de novos públicos, sejam atletas ou espetadores/consumidores de conteúdos.
“Os novos desportos e disciplinas, como Freestyle e Big Air procuram atrair a geração mais jovem e é isso que precisamos fazer e os Jogos Olímpicos realmente fazem isso”, refere a snowboarder.
Voar mais alto mas sem ajuda
Tina Maze, campeã olímpica de Esqui Alpino, oriunda de uma nação (Eslovénia) de ciclistas mundialmente famosos, Tadej Pogačar e Primož Roglič (antigo esquiador e campeão mundial júnior por equipas, 2026), falou ainda de especialização.
“Gosto de pensar que o esqui é um desporto de atletas completos (all around)”, transmite a antiga esquiadora multidisciplinar.
“Mas a concorrência é tão forte que, no Slalom, por exemplo, os homens, são tão especializados que é muito difícil acompanhar o ritmo se fizeres as cinco ou quatro disciplinas”, conta. Acredita ainda que um bom esquiador, “é um esquiador completo”, característica que “é mais fácil” no feminino.
“Vejo no Circuito de Slalom masculino, eles a testarem três pares de esquis todos os dias, enquanto as mulheres acho que têm um par para a época inteira. Não complicam tanto como os homens”, sorri.
Para estar no topo, Tina Maze não foge da receita de muito campeões olímpicos: “é preciso muito trabalho, mas no fim, é trabalho com prazer. Porque se tiveres uma boa equipa, pessoas à tua volta divertidas de trabalhar e toda a gente a contribuir ... não quero tornar isso pessoal, porque se adicionares emoções aos músculos, pode ficar complicado. Por isso é melhor simplificar, porque os nossos músculos são o nosso motor”, indica. “Aliás, o coração é o nosso motor”, emenda.
Em resumo, neste menu para cozinhar o caminho para a glória “é todo o nosso corpo combinado com o material, esquis, botas, fixações e tudo isso. Quanto mais e melhor preparada estiver a tua máquina, mais o equipamento te vai dar. Por isso a preparação, o treino físico, são muito importantes”, sentencia.
Preparação de anos à parte, houve quem olhasse para eventuais mudanças no equipamento para alcançar o pódio olímpico pela via da deturpação das regras.
Não se trata do “penisgate”, história trazida pelo jornal alemão Blitz, qualificada como rumor absurdo pelo COI. Trata-se, sim, da real modificação dos fatos da seleção norueguesa (acabaria por ser punida) nos Mundiais de 2025, em Trondheim, que visou aumentar a superfície do mesmo, permitindo maior sustentação aerodinâmica (efeito balão) e, consequentemente, fazer com que o saltador voe mais longe e ganhe metros na aterragem.
A questão mereceu um breve e assertivo comentário de Martin Schmitt. Para o alemão, esta foi uma “situação difícil” a envolver o selecionado norueguês, mas depois da “decisão” e da “punição”, é “hora de continuar”, rematou.
Retira o verniz da diplomacia: “estão de volta e podem focar-se no desporto, que é, ao fim ao cabo, o objetivo dos Jogos Olímpicos”, destacou.
“O controle de equipamentos melhorou muito nos últimos anos”, reconhece. “Agora, vamos focar-nos no desporto e ver quem é o melhor nos Jogos Olímpicos”, finaliza Schmitt.
*O jornalista viajou para Cortina D’Ampezzo a convite do Eurosport HBO Max.
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