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“Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.”

A segunda estrofe de “Mar Português”, poema de Fernando Pessoa integrado na obra Mensagem, fala do sacrifício e do custo em vidas durante a epopeia dos Descobrimentos portugueses.

A frase de Pessoa batizava a nona etapa da Volta a Portugal em Bicicleta Jogos Santa Casa, penúltimo dia de competição da 87.ª edição da maior prova do ciclismo nacional. Um dia que, à partida, estava destinado a entrar na história da corrida pela dupla subida ao Monte Farinha, em Mondim de Basto.

Contudo, os acontecimentos da véspera — o acidente trágico que vitimou o galês Finlay Tarling, de 19 anos, no percurso entre Melgaço e Fafe — haveriam de acompanhar, em tom de homenagem, os 136,6 quilómetros de estrada e os quase seis quilómetros de terra batida no Alto dos Carvalhais, na primeira incursão à Senhora da Graça, num total de 142,6 quilómetros.

Da etapa suspensa, a oitava, e da decisão de manter inalterada a classificação geral, passou-se à máxima que imperou durante o dia: “a corrida (e a vida) continua”.

A Volta prosseguiu numa jornada particularmente difícil para os ciclistas, marcada desde antes da partida pela saída da NSN Development Team da competição. A formação hispano-suíça, com estatuto Continental, prescindiu das duas últimas etapas da Volta a Portugal na sequência do acidente que vitimou, na véspera, o corredor da equipa de formação que integra a NSN Cycling Team, conjunto da primeira divisão mundial da UCI e que tem como acionista o antigo futebolista Andrés Iniesta.

O silêncio do pelotão na partida simbólica, junto ao Mosteiro de Vilela, em Paredes, contrastou com a subida ruidosa e a chegada aplaudida ao Alto da Nossa Senhora da Graça, numa etapa assinalada pelas homenagens das restantes equipas ao ciclista galês.

E foi também a tarde em que a camisola amarela em tons de negro, partiu vestida no corpo de Alexis Guérin, da Anicolor-Campicarn, mas terminaria pintada de amarelo no seu esplendor, no alto do Monte Farinha.

O triunfo teve uma dedicatória especial. Na estreia na Volta a Portugal, o corredor francês alcançou a segunda vitória em etapas — depois do triunfo na Torre — e reforçou a liderança da classificação geral. Ganhou nove segundos ao colega de equipa Artem Nych, vencedor das duas últimas edições.

E ganhou ainda mais tempo a segundo perseguidor. O azar bateu à porta de Adrià Pericas, terceiro classificado antes da etapa. O espanhol furou na terra batida durante a primeira ascensão ao Monte Farinha, a cerca de 50 quilómetros da meta. Perdeu um minuto e 30 segundos, caiu para o quinto lugar da geral e cedeu a última posição do pódio a Pedro Silva.

O português da Feira dos Sofás-Boavista subiu ao terceiro lugar, a quatro minutos e 30 segundos do camisola amarela.

“Benzi-me por ele”

“Hoje, o mais importante é lembrar o miúdo que perdeu a vida ontem. Benzi-me por ele”, afirmou Alexis Guérin, que completou a etapa em 3h44m45s, à RTP, depois da jornada que ligou Paredes ao Alto da Senhora da Graça, em Mondim de Basto.

“Não é a falta da polícia, nem a falta das pessoas que trabalham na estrada. A estrada tem muita segurança e muitas coisas perfeitas para o corredor. Mas falta uma pessoa que respeite aquilo que a polícia diz. Acho que perder cinco minutos num dia não justifica a vida de uma pessoa”, afirmou, emocionado.

A camisola preta, com tons amarelos, ganhou tempo na classificação geral antes da última etapa da Grandíssima, entre Vila Nova de Gaia e o Porto. Ainda assim, Guérin recusou dar a 87.ª edição por encerrada.

“A Volta ainda não acabou”, salientou.

O francês explicou o ataque lançado a 700 metros da meta, que lhe permitiu ganhar três segundos a José Neves, da GI Group, e nove a Artem Nych, com quem formou o trio que comandou a vertiginosa subida final.

“Trabalhei para o Artem vencer, mas ele disse-me que não tinha pernas. Decidi ganhar por ele e pelo menino”, justificou.

“No rádio, o meu diretor desportivo disse-me que o Artem estava sem pernas e que seria eu a ganhar. O meu patrão é o Nico Campicarn e o Ruben Pereira. E, se o patrão me diz para ganhar, eu ganho”, concluiu.

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