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Com a mobilização massiva dos jovens para as trincheiras, na altura da Primeira Guerra Mundial, as mulheres foram chamadas a substituir os homens nas fábricas, muitas vezes em condições perigosas, produzindo armamento e lidando com maquinaria pesada e químicos tóxicos. Para aliviar a pressão física e mental, profissionais de saúde incentivavam práticas desportivas, e rapidamente surgiram equipas de futebol feminino nas fábricas.
Destas, a mais famosa tornou-se a Dick, Kerr’s Ladies FC, fundada em 1917 na fábrica de munições Dick, Kerr & Co, em Preston. A equipa tornou-se rapidamente uma sensação, atraindo milhares de espectadores para os primeiros jogos. Os encontros serviam para angariar fundos para a guerra e para instituições de caridade, e o futebol feminino passou de apenas curiosidade a fenómeno do desporto no Reino Unido.
Entre as jogadoras, Lily Parr destacou-se pela força e habilidade. Com quase 1,80m de altura, conseguia rematar a bola com tal potência que, segundo relatos, chegou a partir o pulso de um guarda-redes masculino. Teve uma carreira marcada pelo talento e pela ousadia, tornando-se uma verdadeira celebridade da época. Parr, defesa transformada em ala, fumava muito e era abertamente homossexual, algo raro para os padrões da época.
O ponto alto desta era aconteceu no Boxing Day, 26 de dezembro, de 1920, quando 53000 espectadores lotaram Goodison Park, em Liverpool, para um campeonato nacional feminino não oficial entre Dick, Kerr’s Ladies e St. Helens Ladies. Mais de 14000 pessoas ficaram do lado de fora, incapazes de entrar, um número de espectadores superior ao da final da FA Cup do mesmo ano. Dick, Kerr venceu por 4–0, e Lily Parr, recém-transferida de... St. Helens, foi a estrela do jogo.
A popularidade do futebol feminino criou raízes profundas. Em 1918, quando a Primeira Guerra Mundial terminou, o primeiro-ministro britânico, David Lloyd-George, homenageou o papel das mulheres durante o conflito, destacando o trabalho em hospitais, fábricas de munições, agricultura e administração, muitas vezes arriscando a vida. O futebol feminino surgiu como prolongamento desse esforço coletivo, combinando trabalho, lazer e solidariedade.
No entanto, o sucesso incomodou a Football Association (FA). Em 5 de dezembro de 1921, a FA citou opiniões fortes sobre a "inadequação do futebol para mulheres" e determinou que os clubes associados se recusassem a ceder os seus campos para partidas femininas, banindo efetivamente o futebol feminino em campos oficiais e alterando o rumo do desporto para décadas.
Apesar da proibição, algumas equipas continuaram a jogar. Em 1937, a Dick, Kerr’s Ladies venceu o Edinburgh City Girls por 5–1 no Campeonato do Reino Unido. Lily Parr tornou-se uma das maiores marcadoras da história inglesa, com mais de 1000 golos em 31 anos de carreira. Porém, o futebol feminino acabou por ser eclipsado pelo regresso e crescimento do futebol masculino.
Foi apenas em 1971 que a FA levantou finalmente a proibição. No mesmo ano, a UEFA recomendou que o futebol feminino passasse a estar sob controlo das associações nacionais, marcando o início de um renascimento que se estenderia por toda a Europa e pelo mundo. O primeiro Campeonato Europeu oficial realizou-se na Suécia em 1984, e o primeiro Mundial feminino em 1991. Em 2012, a final olímpica em Wembley, entre EUA e Japão, reuniu mais de 83000 espetadores, evidenciando a crescente popularidade do desporto.
Mais de 100 anos depois, as mulheres voltam a atrair multidões e atenção equivalentes às da época dourada. As pioneiras, como Lily Parr, não só alcançaram sucesso e reconhecimento em condições quase impossíveis, mas também mudaram a mentalidade de uma nação e elevaram o futebol feminino a patamares inéditos.
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