Introdução

Ronaldo, uma vida

Quem é realmente Cristiano Ronaldo?

Esta é uma questão que nem deveria ser feita.

Desde o início da sua carreira profissional, em 2002, Cristiano Ronaldo é o único desportista de alto nível que se tornou simultaneamente uma marca, produtor de conteúdos e talvez até um conceito.

Tudo isto sob o olhar de um mundo globalizado que parece saber tanto sobre ele.

Quem é que, no mundo, não sabe o que significa a sigla CR7? Que pessoa minimamente informada, em qualquer parte do planeta, não sabe que comemorar um golo com um «Siuuu» é uma forma de homenagem a ele?

A carreira do terceiro português a conquistar uma Bola de Ouro vai muito além dos múltiplos recordes e da colossal fortuna acumulada ao longo de duas décadas e meia. No entanto, quem é afinal este intrigante campeão que se estabeleceu no mais alto nível do futebol há mais de 20 anos, que esmerilou a sua imagem de trabalhador incansável e assumiu sempre a sua ambição desmedida, mas que publica fotografias de pijama na noite de Natal ou assume a sua fragilidade numa noite de desaire?

Cristiano Ronaldo é, antes de mais, a pessoa que mudou o futebol.

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia. Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar a leitura e a discussão à volta dos livros.

Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Ao longo da história do nosso clube, já tivemos o privilégio de contar nomes como Teolinda Gersão, Afonso Cruz, Tânia Ganho, Filipe Melo e Juan Cavia, Kalaf Epalanga, Maria do Rosário Pedreira, Inês Maria Meneses, José Luís Peixoto, João Tordo e Álvaro Laborinho Lúcio, que falaram sobre as suas ou outras obras.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 2500 membros, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

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Antes dele, nenhum outro jogador fizera uma transição tão assumida. Driblador incansável desde criança e até aos primeiros feitos europeus, Cristiano Ronaldo transformou-se num goleador obsessivo, compulsivo e voraz como nenhum outro. É provável que não consiga 14 cristiano ronaldo chegar aos, segundo um cálculo mais ou menos preciso, 1283 golos de Pelé. Até porque o seu desporto não é propriamente o mesmo que era na altura do «rei». Edson Arantes do Nascimento, a primeira estrela com aura planetária, o primeiro embaixador do futebol a ir a todos os continentes para disputar mais jogos amigáveis do que oficiais.

Não se sabe exactamente quantos golos Pelé marcou e, na verdade, pouco importa se a soma é exacta ou não, se a diferença será mínima. Na época, os registos eram menos rigorosos, nem sempre havia imagens para atestar a veracidade dos relatos. O que fez do menino do Santos uma lenda absoluta, insuperável, foi o seu carisma em campo, os três Mundiais conquistados em quatro edições que consagraram o Brasil como o país do futebol e a Selecção de 1970, a versão final, que parecia dançar samba à sua volta enquanto ganhava, sob os olhares atónitos de um mundo que descobria a televisão a cores.

O que faz de Cristiano Ronaldo um dos seus herdeiros é o sentimento comum de que o futebol entrou com ele num novo universo.

Tal como Pelé engrandeceu o futebol e Michael Jordan a NBA no final do século XX, CR7 personifica o poderio da Liga dos Campeões, que se tornou, nos últimos 20 anos, a competição de clubes que tudo domina. Tudo, excepto a Premier League, o campeonato que revelou o português em 2003 e que o acolheu no seu ocaso profissional até 2022.

O menino da Madeira viveu os melhores anos da sua carreira no Real Madrid. Chegou ao clube em 2009, para lá enfrentar, semana após semana, o FC Barcelona de Lionel Messi, o rival com quem disputou, durante mais de uma década, o palmarés da Bola de Ouro. No entanto, o seu apogeu alimentou-se sobretudo do prestígio que ganhou nas competições europeias, em especial na mais importante, com o clube da capital espanhola. O português brilhou no Real Madrid como algo incontestável. A história do encontro entre duas lendas que se cruzam para alcançar o topo e com um resultado excepcional: CR7 ganhou a Liga dos Campeões quase uma vez a cada dois anos (quatro vezes em nove épocas) com o clube merengue. Todavia, deixou o proclamado maior clube do mundo em 2018 – visto que queria mais, sempre mais.

Livro: "Cristiano Ronaldo, 25 Anos no Topo do Futebol"

Autor: Régis Dupont

Editora: Guerra & Paz

Data de lançamento: 16 de junho de 2026

Preço: € 16,00

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Porquê?

Como?

É um dos mistérios desta figura intrigante.

O magricela dos primeiros dribles no Andorinha* , clube autóctone situado ao pé da falésia, é hoje um ícone da moda esculpido pelo trabalho diário de musculação. Com mais de 40 anos, Cristiano Ronaldo já não é um avançado de altíssimo nível, pelo menos não um avançado capaz de atingir o mais alto nível todas as semanas, nem de duas em duas quanto mais uma.

Relegado ao papel de superembaixador da Arábia Saudita, Cristiano Ronaldo sacia o seu apetite de glória por meio de rendimentos colossais que lhe continuam a valer o título de futebolista mais bem pago da história. É precisamente para continuar a fazer parte da história dos grandes que se mantém como capitão incontestado da sua Selecção Nacional, a Selecção que conquistou títulos pela primeira vez sob o seu comando e, com a qual, Cristiano Ronaldo também colecciona recordes: golos marcados, número de participações em fases finais – CR7, sendo o glutão que sempre foi, devora tudo.

A sua história é a extraordinária história de um rapaz rejeitado que pega nas suas fragilidades pessoais e intrínsecas e as sublima. Mais do que qualquer outra criança, Cristiano Ronaldo quer ser o mais bonito aos olhos da mãe; cresce com a esperança de conseguir ajudar o pai a deixar o vício, tornando-se no melhor jogador de futebol. No início, CR7 era só um miúdo como os outros, que confunde o amor incondicional dos pais com o orgulho que os invade do outro lado da grade do campo.

Por mais forte que fosse, não conseguiu fazer milagres. O seu pai faleceu demasiado cedo devido ao abuso do álcool. No entanto, Cristiano Ronaldo conseguiu que a família não tivesse o destino miserável que a esperava. É um modelo que vai além de Santo António, a sua freguesia, da Madeira, a sua ilha, e até de Portugal, o seu país. Quem tem 20 anos não viu futebol sem que se falasse de Cristiano Ronaldo – a sua primeira fase final foi no Euro 2004.

O Mundial de 2026 no Canadá, México e Estados Unidos da América é a sua 12.ª grande competição internacional com a camisola de um país que, antes dele, só se qualificara para três Europeus de Futebol (1984, 1996 e 2000) e três Mundiais (1966, 1986 e 2002). Começou por ser o desestabilizador da Selecção, sob a protecção de Luís Figo. Depois, passou a usar a braçadeira de capitão de vez em quando, acabando por se tornar no mestre absoluto no momento exacto em que conquistou a Liga dos Campeões com o Real Madrid. Por fim, recuou para uma função híbrida, o eterno capitão, mas menos dominante no jogo, passando o testemunho (não o posto) a Bernardo Silva ou a Bruno Fernandes. Porém, continua na Selecção. Uns dias é considerado um estorvo, mas apenas para, no dia seguinte, ser exaltado como a solução intemporal.

Cristiano Ronaldo corre, incansável, atrás do sonho supremo de ser o melhor jogador de todos os tempos.

* Clube de Futebol Andorinha de Santo António, conhecido por ter sido o clube no qual Cristiano Ronaldo iniciou a sua carreira, antes de se juntar ao Clube Desportivo Nacional, também na Madeira. (N. de T.)

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