Introdução
Ronaldo, uma vida
Quem é realmente Cristiano Ronaldo?
Esta é uma questão que nem deveria ser feita.
Desde o início da sua carreira profissional, em 2002, Cristiano Ronaldo é o único desportista de alto nível que se tornou simultaneamente uma marca, produtor de conteúdos e talvez até um conceito.
Tudo isto sob o olhar de um mundo globalizado que parece saber tanto sobre ele.
Quem é que, no mundo, não sabe o que significa a sigla CR7? Que pessoa minimamente informada, em qualquer parte do planeta, não sabe que comemorar um golo com um «Siuuu» é uma forma de homenagem a ele?
A carreira do terceiro português a conquistar uma Bola de Ouro vai muito além dos múltiplos recordes e da colossal fortuna acumulada ao longo de duas décadas e meia. No entanto, quem é afinal este intrigante campeão que se estabeleceu no mais alto nível do futebol há mais de 20 anos, que esmerilou a sua imagem de trabalhador incansável e assumiu sempre a sua ambição desmedida, mas que publica fotografias de pijama na noite de Natal ou assume a sua fragilidade numa noite de desaire?
Cristiano Ronaldo é, antes de mais, a pessoa que mudou o futebol.
Antes dele, nenhum outro jogador fizera uma transição tão assumida. Driblador incansável desde criança e até aos primeiros feitos europeus, Cristiano Ronaldo transformou-se num goleador obsessivo, compulsivo e voraz como nenhum outro. É provável que não consiga 14 cristiano ronaldo chegar aos, segundo um cálculo mais ou menos preciso, 1283 golos de Pelé. Até porque o seu desporto não é propriamente o mesmo que era na altura do «rei». Edson Arantes do Nascimento, a primeira estrela com aura planetária, o primeiro embaixador do futebol a ir a todos os continentes para disputar mais jogos amigáveis do que oficiais.
Não se sabe exactamente quantos golos Pelé marcou e, na verdade, pouco importa se a soma é exacta ou não, se a diferença será mínima. Na época, os registos eram menos rigorosos, nem sempre havia imagens para atestar a veracidade dos relatos. O que fez do menino do Santos uma lenda absoluta, insuperável, foi o seu carisma em campo, os três Mundiais conquistados em quatro edições que consagraram o Brasil como o país do futebol e a Selecção de 1970, a versão final, que parecia dançar samba à sua volta enquanto ganhava, sob os olhares atónitos de um mundo que descobria a televisão a cores.
O que faz de Cristiano Ronaldo um dos seus herdeiros é o sentimento comum de que o futebol entrou com ele num novo universo.
Tal como Pelé engrandeceu o futebol e Michael Jordan a NBA no final do século XX, CR7 personifica o poderio da Liga dos Campeões, que se tornou, nos últimos 20 anos, a competição de clubes que tudo domina. Tudo, excepto a Premier League, o campeonato que revelou o português em 2003 e que o acolheu no seu ocaso profissional até 2022.
O menino da Madeira viveu os melhores anos da sua carreira no Real Madrid. Chegou ao clube em 2009, para lá enfrentar, semana após semana, o FC Barcelona de Lionel Messi, o rival com quem disputou, durante mais de uma década, o palmarés da Bola de Ouro. No entanto, o seu apogeu alimentou-se sobretudo do prestígio que ganhou nas competições europeias, em especial na mais importante, com o clube da capital espanhola. O português brilhou no Real Madrid como algo incontestável. A história do encontro entre duas lendas que se cruzam para alcançar o topo e com um resultado excepcional: CR7 ganhou a Liga dos Campeões quase uma vez a cada dois anos (quatro vezes em nove épocas) com o clube merengue. Todavia, deixou o proclamado maior clube do mundo em 2018 – visto que queria mais, sempre mais.
Porquê?
Como?
É um dos mistérios desta figura intrigante.
O magricela dos primeiros dribles no Andorinha* , clube autóctone situado ao pé da falésia, é hoje um ícone da moda esculpido pelo trabalho diário de musculação. Com mais de 40 anos, Cristiano Ronaldo já não é um avançado de altíssimo nível, pelo menos não um avançado capaz de atingir o mais alto nível todas as semanas, nem de duas em duas quanto mais uma.
Relegado ao papel de superembaixador da Arábia Saudita, Cristiano Ronaldo sacia o seu apetite de glória por meio de rendimentos colossais que lhe continuam a valer o título de futebolista mais bem pago da história. É precisamente para continuar a fazer parte da história dos grandes que se mantém como capitão incontestado da sua Selecção Nacional, a Selecção que conquistou títulos pela primeira vez sob o seu comando e, com a qual, Cristiano Ronaldo também colecciona recordes: golos marcados, número de participações em fases finais – CR7, sendo o glutão que sempre foi, devora tudo.
A sua história é a extraordinária história de um rapaz rejeitado que pega nas suas fragilidades pessoais e intrínsecas e as sublima. Mais do que qualquer outra criança, Cristiano Ronaldo quer ser o mais bonito aos olhos da mãe; cresce com a esperança de conseguir ajudar o pai a deixar o vício, tornando-se no melhor jogador de futebol. No início, CR7 era só um miúdo como os outros, que confunde o amor incondicional dos pais com o orgulho que os invade do outro lado da grade do campo.
Por mais forte que fosse, não conseguiu fazer milagres. O seu pai faleceu demasiado cedo devido ao abuso do álcool. No entanto, Cristiano Ronaldo conseguiu que a família não tivesse o destino miserável que a esperava. É um modelo que vai além de Santo António, a sua freguesia, da Madeira, a sua ilha, e até de Portugal, o seu país. Quem tem 20 anos não viu futebol sem que se falasse de Cristiano Ronaldo – a sua primeira fase final foi no Euro 2004.
O Mundial de 2026 no Canadá, México e Estados Unidos da América é a sua 12.ª grande competição internacional com a camisola de um país que, antes dele, só se qualificara para três Europeus de Futebol (1984, 1996 e 2000) e três Mundiais (1966, 1986 e 2002). Começou por ser o desestabilizador da Selecção, sob a protecção de Luís Figo. Depois, passou a usar a braçadeira de capitão de vez em quando, acabando por se tornar no mestre absoluto no momento exacto em que conquistou a Liga dos Campeões com o Real Madrid. Por fim, recuou para uma função híbrida, o eterno capitão, mas menos dominante no jogo, passando o testemunho (não o posto) a Bernardo Silva ou a Bruno Fernandes. Porém, continua na Selecção. Uns dias é considerado um estorvo, mas apenas para, no dia seguinte, ser exaltado como a solução intemporal.
Cristiano Ronaldo corre, incansável, atrás do sonho supremo de ser o melhor jogador de todos os tempos.
* Clube de Futebol Andorinha de Santo António, conhecido por ter sido o clube no qual Cristiano Ronaldo iniciou a sua carreira, antes de se juntar ao Clube Desportivo Nacional, também na Madeira. (N. de T.)
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