Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Enquanto se discute a possibilidade de alteração do modelo da final da Taça de Portugal, e inerente mudança de palco, a mata do Estádio Nacional continua a justificar a razão de ali se realizar.
Porque o porco no espeto, os churrascos, as mesas postas de vésperas, a antítese do piquenique chique, as inovadoras piscinas insufláveis, as cadeiras de praia, o recosto em forma de boia, as tendas e as pulseiras de entradas nos espaços improvisados de comes e bebes ou a diversidade musical, fazem parte de um todo impossível de replicar em qualquer outro lugar.
Em 2026, antes da final entre o Sporting Clube de Portugal e o Sport Clube União Torreense, o Jamor mostrou, e continua a mostrar, porque é e o que é a ida ao Jamor.
Seja ao vivo no estádio ou nas imediações, ou vivido à distância na televisão. Ali confluíram milhares com bilhete, outros nem por isso, porque ver ao vivo e a cores os artistas nem fosse o mais importante. E houve quem soltasse cabras pelo pasto verde.
“Torres inteira está ao rubro com o jogo”
A meia centena de quilómetros de distância, Maria Salgado, surfista natural de Torres Vedras, e Luís Perloiro, que representa o clube de Alvalade, não foram ao estádio, mas viveram o jogo na televisão, num dia destinada a fazer o que mais gostam: a competir na Ericeira, 3.ª etapa da Liga MEO, circuito que apura os campeões nacionais de surf.
“Estarei 100% a apoiar o Torreense porque moro em Santa Cruz”, afirmou, ao telefone, Maria Salgado, líder do circuito nacional. “Torres inteira está ao rubro com o jogo. O Torreense vai dar luta e vai correr bem”, antecipou a jovem de 19 anos, campeã Europeia Júnior de Surf e vice-campeã europeia.
“Comecei a seguir mais o futebol, a partir de 2020 quando me liguei ao projeto do Sporting”, confessou Luís Perloiro. “Acho que já era, mas só depois de entrar no Sporting começou o bichinho, fomos campeões nesse ano e, desde aí, comecei a seguir o clube e a vibrar com os jogos”, acrescentou o alfacinha de 27 anos, quinto classificado na etapa de Ribeira de Ilhas. “Perdi na Ericeira, mas a parte boa é que posso preparar-me para ir para casa e ver o jogo na televisão”, referiu ao 24noticias.
Vender pulseiras para ir à Disney e sentir o Sporting
Lourenço e a Alice fizeram um pedido aos pais. Ir à Disneylândia, a Paris. O pai, David e a mãe, Nazaré, ambos com 40 anos, aproveitaram a final da Taça de Portugal Generali Tranquilidade para se deslocarem ao Jamor com um plano. “Vender pulseiras para ajudar à viagem”, explicou David Silva, sentado no chão, ao lado dos filhos e da mulher.
“Temos três filhos. O Lourenço, a Alice e a Carminho, que só tem um ano, ficou em casa”, esclareceu. “A ideia foi aproveitar esta oportunidade e fazer, entre aspas, negócio, ou antes, esta brincadeira com os meninos”, contou.
“Estivemos a fazer pulseiras, à noite, em casa, e trouxemos uma caixa para fazer mais, se for necessário”, afirmou a mãe, Nazaré.
A venda pura e dura não foi o mote por detrás da iniciativa familiar, acantonada do lado reservado aos adeptos leoninos. “Foi para também perceberem a importância do que é a vida, do saber partilhar e ser bondoso com o outro, como foi o caso desta senhora que ajudou e sentou-se ao nosso lado a fazer pulseiras”, registou David.
12 horas depois de ter estacionado no Jamor e um par de horas de venda, estava otimista. David seguiu o exemplo de milhares de adeptos para quem o dia da Taça começa na noite anterior. “Moramos em Alvalade, perto do estádio. Cheguei às 23h30, de Uber”, adiantou. “Fiquei cá...bom, não foi bem dormir, tivemos o calor humano. Éramos três, ficámos cá a noite, agora estamos 30 neste churrasco”, exclamou.
“Encontrámos este local, fiquei a guardar o sítio para trazer os dois meninos para cá”, vincou. O objetivo é claro e inequívoco. “Não temos bilhete, mas não viemos aqui para ir ver o jogo. Queremos que o Sporting ganhe, como é óbvio, mas queríamos que os miúdos sentissem o ambiente, que sentissem o Sporting, porque essa é a nossa obrigação, que sintam o clube como eu sinto e o Lourenço já é fanático”, confessou.
“Venho, sobretudo, pelo convívio e na expetativa de arranjar um bilhete”
Vindo da entrada Sul, descendo a enorme escadaria que liga a parte superior do Topo Sul à avenida Pierre de Coubertin, António Santos não esconde as suas motivações. “Não tenho bilhete. Vim para o Jamor para cumprir um objetivo. Estar com o meu camarada e amigo Pedro, que tem bilhete”, sublinhou este sócio do Sporting com “Gamebox 14 anos”, referiu.
“Venho, sobretudo, pelo convívio e na expetativa de arranjar um bilhete”, disse, esperançado em ocupar uma das cadeiras do Estádio Nacional.
O estádio apresentou, estranhamente, algumas clareiras. Uma fatia do topo destinado aos adeptos do Torreense apresentou-se despida até 15 minutos da primeira parte, o tempo suficiente para as forças de segurança descortinarem quem iria apoiar quem, tamanha foi a corrida a sócios do Torreense por parte da legião verde e branca.
António poderia ter feito o que muitos adeptos leoninos fizeram. Inscreverem-se como sócios do Torreense e, desta forma, adquirirem bilhete para a final da Taça. Uma estratégia usada por Rui Correia que colocou o seu nome e da mãe na ficha de sócio da formação de Torres Vedras e garantiu quatro ingressos.
“Não fui por aí. Nem me lembrei”, reconheceu. “Fala-se de dois mil novos sócios. É por uma boa razão. E para o próprio Torrense, é espetacular”, assumiu.
“O Estádio tem pouca capacidade, principalmente quando há um grande na final da Taça, todos os anos é a mesma história”, atirou Pedro. “Mas o Jamor tem aquela mística, aquela tradição, a Taça não é a Taça se não for no Jamor”, respondeu António.
“Pode ser uma época histórica”
Detentor de bilhete, vestido com as cores do emblema de Torres Vedras, indiciava que fosse natural da cidade e adepto do clube do Oeste. “Sou de Mirandela, nasci em Mirandela, moro no Concelho de Alenquer, sou do Sporting e vim com o pessoal do Torreense”, surpreendeu Paulo Carvalho, 62 anos.
“Não tenho fanatismo por nenhum”, relatou. Assegura ficar “contente, ganhe, quem ganhar”, reforçou. As duas equipas e o treinador, natural da sua terra natal. “Tenho sobrinhos que são amigos dele (Rui Borges) e conhecem essa tralha toda, mas já não é do meu tempo, saí de Mirandela há 29 anos e ele era um jovenzito”, mencionou.
A conversa é interrompida por um adepto, vestido à Sporting. Escutou a palavra Mirandela e perguntou pela localização do Núcleo da cidade transmontana. O destinatário da pergunta encolheu os ombros, bem como o adepto a seu lado.
Rodolfo, 32 anos, amigo do filho de Paulo de Carvalho e apaixonado pelo Torreense, bradou entre as copas das armas o sentimento que lhe ia na alma.
“Pode ser uma época histórica. Também podemos não ganhar nada, esperemos que seja histórica. Hoje e na próxima quinta-feira. Principalmente, quinta-feira, a subida à primeira, que é o nosso grande objetivo, hoje é desfrutar”, referiu.
É estreante no Estádio Nacional e na final da Taça. “É a primeira vez que venho aqui ao Jamor”, assumiu. “Está a ser uma experiência incrível. Este convívio é salutar entre adeptos, no nosso grupo, há muitos adeptos do Sporting que estão hoje a torcer pelo Torreense, têm carinho pelos dois clubes”, notificou Rodolfo.
Jamor a terra onde se juntaram os dois amores
Anuiu a dar o nome. O rosto, permanece incógnito. Sócio do Sporting, “há 25 anos”, José, natural da Freguesia de A-dos-Cunhados, Concelho de Torres Vedras, emigrante na Suíça “durante 37 anos” seguiu, à distância o fluir dos acontecimentos desportivos “da minha zona, a minha terra e da minha família, como o meu clube, Sporting”, afixou.
Na primeira “vez” que pisa os míticos terrenos da final da segunda competição mais importante do calendário desportivo, “tive a oportunidade de juntar os dois amores. Ou seja, o clube da minha terra e o meu clube, o meu primeiro amor, por isso, tenho o coração um pouco dividido”, esclareceu, deixando fotografar, somente, o cachecol.
Os 25 anos de associado do Sporting não lhe carimbou o passaporte para o último jogo da Prova Rainha. Valeram-lhe laços familiares.
“Tenho um sobrinho e família que joga no futsal do Torrense, são sócios, pai, mãe, filha, conseguiram arranjar três bilhetes sócios e mais três acompanhantes”, informou. “Se ganhar o Sporting, sou um homem feliz. Se for o Torreense, não fico triste”, chutou.
“Nunca tinha vindo”
A música estridente e de diversos estilos musicais, do tecno, ao popular “aperta com ela”, não dá tréguas aos corpos alimentados a bifanas, couratos ou enchidos e à cabeça regada de pouca água e muita cerveja, o mata-sede preferido da esmagadora maioria dos adeptos presentes, com ou sem bilhete.
Na zona reservada ao clube do Oeste dança-se, come-se e bebe-se. E vendem-se gaitas pelas mãos de Graça, vendedora duas vezes por ano no manto verde do Jamor. Há uma semana, na Taça Feminina (FC Porto-Benfica), ocupou a zona junto ao campo de golfe, onde estacionaram os adeptos benfiquistas. Hoje, “preferi vir para o lado do Torreense, até porque quando cheguei não me deixaram ir para o sítio da semana passada”, fundamentou. “Estou aqui um bocado e já me vou embora”, prometeu.
“Sou dos poucos adeptos só do Torreense. 80% das pessoas do Torreense são do Sporting e aqui, na nossa bancada, será um win-win para todos”, antecipou Nélson Marques, nascido e a viver em Torres Vedras.
Tendo origens localizadas na “aldeia da Nossa Senhora da Glória”, apontou. É mais um estreante em finais e no Jamor. “Nunca tinha vindo”, assinalou. “Nem sabia que era preciso chegar às três ou quatro da manhã para conseguir pôr o carro dentro do Jamor”, continuou. “É uma tradição muito interessante”, qualificou.
Marcou presença graças à ligação associativa às cores de Torres Vedras, filiação nascida “há três anos”, quando o filho, também ele sócio, começou a “jogar futsal”, especificou.
“Deu para comprar quatro bilhetes, para o meu filho, para mim, para a minha mulher e para a nossa filha”, identificou.
Menos sorte, teve um jovem adepto do emblema de Torres Vedras. Aproximou-se de uma banca de angariação de sócios onde estavam dois voluntários e perguntou se conseguiria o papel mágico para as bancadas. A resposta foi negativa, um abanão de cabeça dos voluntários que conseguiram, até às 13h30, cativar uma dúzia de adeptos.
“A final da Taça não é o jogo em si”
Nuno é do Torreense e do Sporting, cor que está em primeiro no clube das preferências. Paulo acompanha Nuno na simpatia pelo clube de Torres Vedras e desvia-se no segundo amor: é do Benfica. “Rivalidade pura e dura”, fez notar Nuno.
“Fico contente se ganhar, ou se perder. O que interessa é este espírito, este clima. A final da Taça, não é o jogo em si”, esclareceu, Nuno, visivelmente bem-disposto.
Não tem bilhete. Mas tal falha parece não perturbar o adepto que junta verde às cores do SCUT que “tem o formato de um escudo metade azul, metade grená, com um castelo de ouro, composto de duas torres torreadas unidas”, conforme se lê no artigo terceiro dos estatutos do Sport Clube União Torreense.
“Temos festa hoje, mas temos de trabalhar amanhã”
Dentro do estádio, na primeira linha a contar de cima da central, em zona onde a bancada de Media antecede a Tribuna de Honra, Luís Filipe Vieira, acompanhado por António dos Santos, o “Rei dos Frangos” que vendeu a participação de 16,38% da SAD do Benfica ao fundo norte-americano Entrepreneur Equity Partner, passaram uma primeira parte do jogo despercebidos, mas terminaram a receber alguns impropérios de adeptos vestidos às riscas verde e brancas.
Nelson Pereira, antigo guarda-redes do Sporting e do Torrense, foi também um dos convidados presentes. “Levei o troféu para o centro do relvado, por ser a figura que tem maior ligação a ambos os clubes”, explicou ao 24noticias.
Encostado à escadaria por onde subiu o clube da sua terra para receber e erguer o troféu, não escondeu alegria. Cantarolou o hino do clube e cumprimentou jogadores no sobe e desce. “Vou juntar-me a eles, na festa”, anunciou o ex-dono das balizas do Leão e do Torreense, atual membro do Conselho de Administração da Fundação FPF.
Acompanhou, ainda, com o olhar, a festa dos jogadores junto à bancada que ergueu uma tarja “109 anos de história, um futuro de glória. Viva o Torreense”.
A alegria e cumprimentos de uma bancada e topo, contrastou com o sucedido na escadaria oposta. Na altura de subir, e principalmente, de descer.
Os jogadores leoninos ouviram e sentiram a insatisfação da massa adepta, Pote e Trincão não escaparam à insatisfação e Rui Borges não se furtou a apupos à entrada para o túnel de acesso aos balneários.
“Não me apercebi, mas o descontentamento pode existir desde que haja o mínimo de respeito. Ninguém está mais triste do que nós”, relativizou, na conferência de imprensa, Rui Borges, o treinador dos leões, natural de Mirandela.
“Vou ter na memória para sempre quando marcámos o segundo golo e vejo os nossos adeptos todos aos saltos. É uma imagem que vai ficar para sempre”, perspetivou Luís Tralhão, treinador do Torreense. “Vou a Torres. Estou à espera de muita gente. É um momento importante, mas como profissional que sou, já estou a pensar no que irá acontecer na quinta-feira. Temos festa hoje, mas temos de trabalhar amanhã”, avisou.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários