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Austin MacPhee, de 46 anos, nasceu em Kirkcaldy, na Escócia e iniciou a sua ligação ao futebol como jogador, sobretudo em clubes menos mediáticos na Europa e no estrangeiro, antes de passar para funções de treinador.
Na sua trajetória como técnico passou por clubes e seleções de menor expressão, mas foi ganhando reputação como especialista em bolas paradas, área do jogo que trata com "rigor metodológico e análise detalhada", diz Unay Emery, com quem trabalha atualmente no Aston Villa, da Premier League.
Antes de chegar à seleção portuguesa, MacPhee integrou ainda a equipa técnica de equipas como a Irlanda do Norte e Escócia e teve experiências em clubes como St. Mirren, Heart of Midlothian e os dinamarqueses do FC Midtjylland, onde aprofundou técnicas e dados aplicados a lances de canto, livres e outras situações de bola parada.
Em agosto de 2021, foi contratado pelo Aston Villa, da Premier League, como treinador de bolas paradas, tornando-se uma peça importante da equipa durante as últimas épocas.
"Em termos práticos, Portugal passa a tratar cada canto ou livre lateral como uma jogada desenhada, e não como um momento espontâneo"Gianni Vio
Em fevereiro de 2025, o selecionador Roberto Martínez convidou MacPhee para integrar a equipa técnica da Seleção Nacional, em substituição do inglês Anthony Barry. O escocês aceitou o desafio mantendo simultaneamente as funções no Aston Villa, juntando-se à estrutura portuguesa sobretudo em datas FIFA e fases de preparação de grandes competições.
O trabalho e os elogios
Austin MacPhee representa uma nova geração de treinadores que tratam as bolas paradas como uma fase de jogo com metodologia própria, elevando-as de momentos aleatórios a armas tácticas bem preparadas.
Desde que se juntou ao grupo liderado por Martínez, MacPhee trouxe uma abordagem mais científica às bolas paradas da seleção. Treinos têm sido marcados pela utilização de equipamentos mecânicos, como barreiras que sobem para simular defensores, e rotinas específicas ensaiadas repetidamente, algo que não era tão visível anteriormente nas sessões.
O impacto da sua metodologia já se tornara evidente no Aston Villa antes de chegar a Portugal. Na época 2025/26, o clube marcou 18 golos a partir de bolas paradas em todas as competições (excluindo penáltis), cerca de 32% do total de golos da equipa naquele período, um número assinalável que chamou ainda mais a atenção sobre o seu trabalho.
"Cria um sistema de treino de bolas paradas que combina análise táctica, repetição prática e adaptação às características dos jogadores"
No clube inglês, aliás, os treinos de bola parada são considerados uma prioridade tática, com sessões específicas para melhorar não só a produção ofensiva mas também a organização defensiva nesses lances.
Os métodos de MacPhee têm merecido elogios de vários sectores do futebol. Técnicos, jogadores e analistas destacam a sua atenção obsessiva aos detalhes, a capacidade de criar rotinas imprevisíveis e o impacto direto nas performances das equipas onde trabalha. Ex-colegas e treinadores com quem colaborou no passado sublinham que o seu papel foi essencial para desenvolver uma cultura em que a bola parada deixa de ser um elemento secundário e passa a ser encarada como uma arma tática decisiva em jogos de alto rendimento.
No Aston Villa, o treinador Unai Emery destacou publicamente o papel do escocês na evolução ofensiva da equipa, afirmando que “temos de ser criativos e Austin é muito criativo no trabalho de bolas paradas”, elogiando a sua capacidade de introduzir "soluções inesperadas" em momentos-chave do jogo.
Também dentro da seleção escocesa, onde trabalhou durante vários anos, o selecionador Steve Clarke foi igualmente claro na valorização do seu contributo. Clarke referiu que MacPhee tinha uma “obsessão pelo detalhe” e uma capacidade rara de preparar a equipa para situações específicas do jogo, acrescentando que o seu trabalho em lances de bola parada “fez uma diferença real” na campanha de qualificação para o Euro 2016, onde a Escócia beneficiou diretamente de várias jogadas estudadas ao pormenor.
Mais recentemente, após uma das vitórias europeias do clube, o avançado Ollie Watkins destacou a exigência do processo de treino, admitindo que “não é a parte mais excitante do treino e pode ser um pouco aborrecida”, mas sublinhando que "a repetição e o detalhe acabam por fazer a diferença em jogo", sobretudo nos momentos em que a equipa consegue desbloquear resultados através de lances estudados.
Também o capitão John McGinn já reconheceu publicamente a importância do trabalho desenvolvido na preparação dos lances de bola parada, explicando após uma vitória decisiva que a equipa tentou “enganar um pouco com o livre e o canto”, destacando a forma como as rotinas são trabalhadas ao detalhe até estarem totalmente automatizadas. McGinn acrescentou ainda que estas soluções são fruto de "um processo longo de treino".
Em suma, para quem trabalha com ele, MacPhee não ensina apenas jogadas, "cria um sistema de treino de bolas paradas que combina análise táctica, repetição prática e adaptação às características dos jogadores", ajudando a equipa a tirar maior vantagem dos lances fixos.
Já durante este Mundial, dois dos golos frente ao Uzbequistão surgiram de um canto preparado, com a bola a terminar no primeiro poste após trabalho coletivo, e outro de livre direto. Um outro lance correu mundo quando Cristiano Ronaldo pareceu não querer marcar uma bola parada e escapou pela barreira, com Bruno Fernandes a assistir o capitão com um 'balão', algo que surpreendeu a defesa contrária, mas Ronaldo falhou a baliza no remate.
"Em vez de posições fixas genéricas, cada jogador recebe funções muito específicas: quem bloqueia, quem ataca primeiro poste, quem faz distração, quem aparece em segunda vaga, quem puxa marcas"Gianni Vio
Os métodos aplicados em treino
A principal mudança nos treinos da seleção, na preparação das bolas paradas,, está na segmentação do jogo em blocos muito mais especializados. Antes, as bolas paradas eram muitas vezes tratadas como extensão do treino geral. Com MacPhee tudo mudou.
"Com ele, alguém que conhece o processo, passam a ter lógica própria, com sessões dedicadas, rotinas repetidas até à automatização e cenários ensaiados com múltiplas variações para o mesmo tipo de lance. Isto inclui cantos ofensivos com movimentos coordenados por zonas, bloqueios legais, rotas de ataque cruzadas e variações de tempo de execução para quebrar marcações em zona. Em termos práticos, Portugal passa a tratar cada canto ou livre lateral como uma jogada desenhada, e não como um momento espontâneo", diz ao 24notícias Gianni Vio, treinador italiano também ele especialista em bolas paradas, salientando que "outra mudança relevante é a individualização extrema dos papéis".
"Em vez de posições fixas genéricas, cada jogador recebe funções muito específicas: quem bloqueia, quem ataca primeiro poste, quem faz distração, quem aparece em segunda vaga, quem puxa marcas. Isto permite adaptar os lances às características reais do plantel, por exemplo, explorar a capacidade de cruzamento de Bruno Fernandes, a presença aérea de jogadores mais físicos ou a movimentação de finalizadores como Cristiano Ronaldo. O objetivo é maximizar mismatchs, criar superioridades momentâneas dentro da área adversária", salienta.
Por fim, há uma mudança menos visível mas estrutural, a introdução de um modelo de preparação baseado em repetição, variação e leitura de comportamento do adversário.
"MacPhee não desenha apenas jogadas ideais, mas conjuntos de respostas a diferentes tipos de marcação (zona, homem-a-homem). Isso torna a equipa mais adaptável durante jogos a eliminar, onde pequenas alterações do adversário podem neutralizar rotinas fixas. O resultado prático é uma equipa com mais capacidade de gerar perigo em jogos fechados, onde a posse e o ataque posicional nem sempre chegam para desbloquear resultados", completa.
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