Há quem compare a construção de um trimaran voador à Fórmula 1. Ariane de Rothschild vê pontos comuns entre ambas as engenharias e design, nomeadamente no que respeita à precisão tecnológica e ao trabalho de equipas altamente especializadas. Mas, em entrevista ao 24 Notícias, sublinha uma diferença essencial: “a Fórmula 1 consome enormes quantidades de combustível; nós, no mar, trabalhamos com energia limpa - o vento. E isso, para mim, não é suficientemente valorizado. Estamos a investir em tecnologias que, mais tarde, podem transformar setores inteiros ligados à energia e aos transportes. Estamos, de certa forma, a antecipar o futuro”.
De que forma é que a tecnologia desenvolvida na Gitana pode influenciar outras indústrias? Performance e sustentabilidade são as palavras-chave. “A nossa ambição não é apenas inovar para competir. É perceber como o que fazemos pode facilitar a navegação no mundo real. O foiling - que não é apenas sobre velas, mas sobre estabilidade, sustentação e velocidade - está a chegar rapidamente ao transporte marítimo”, afirma.
“Outra área onde estamos muito empenhados é a sustentabilidade dos materiais. Sabemos que o carbono “é o que é”, mas desde o Gitana 17 que investimos fortemente em reciclagem. Aproveitamos os desperdícios de carbono, transformamos velas antigas em objetos úteis, como malas que oferecemos a clientes. Tentamos sempre dar uma segunda vida ao que produzimos”.
Na componente de engenharia, o Gitana 18 conta uma história de colaboração.
“O que verdadeiramente pode transformar o mundo marítimo é a evolução técnica: estabilidade, sustentação, eficiência. No Gitana 18 trabalhámos muito sobre a transição entre “levantar” e “voar”. O grande desafio não é altura - é manter velocidade sem impactos violentos, que fazem perder energia e danificam a estrutura. Quando percebemos, com o Gitana 17, que estávamos a levantar, mas não sabíamos voar, recorremos a engenheiros aeronáuticos. O Gitana 18 é resultado dessa aprendizagem: voo, estabilidade e velocidade combinados”.
Ariane de Rothschild equipara os processos seguidos aos da NASA. numa semelhança com a NASA. “Tal como na aviação espacial, estes barcos exigem uma navegação de equipa, entre quem está a bordo e quem está em terra. O skipper sente, interpreta e comunica; a equipa em terra analisa, projeta, antecipa.
É como um piloto de Fórmula 1 permanentemente ligado aos engenheiros. Esta simbiose é uma das coisas mais fascinantes da vela moderna”.
O Gitana 18 é um barco mais pesado. A proprietária explica porquê: “ para ser mais rápido, tem que ser mais robusto. O exemplo perfeito é o leme central: precisa de ser extremamente sólido porque está sujeito a forças enormes e hoje em dia há muito mais detritos no oceano. Infelizmente, o mar está cheio de lixo. É triste, mas é uma realidade e destrói barcos. Algumas equipas tentaram usar radares ou sonares para detetar objetos, mas estes barcos são demasiado rápidos para reagir a tempo, o que inviabiliza o uso desses equipamentos”.
A primeira prova do Gitana 18 será a Route du Rhum, mas o grande objetivo continua a ser o Troféu Jules Verne, confirma a proprietária da equipa. É o Santo Graal da vela. Há quem discuta entre o Vendée Globe e o Jules Verne… para mim, é o Jules Verne. Faz-nos sonhar. É aventura pura e mostra o lado humano da vela: esforço, fragilidade, resiliência. A falta de sono, o stress, a dor física, é tudo real. Por isso admiro muito o trabalho que o Charles fez, por exemplo, com especialistas como Arnaud Gérald, sobre concentração, controlo da dor e gestão emocional”.
A pressão para o Gitana 18 estar pronto, admite, “é enorme, mas inevitável - um barco tão inovador precisa de ajustes constantes”. O Gitana 17 demorou cerca de três anos até estar completamente afinado. “Para o Gitana 18 talvez seja menos tempo, porque já sabemos voar e criámos simuladores muito avançados. Ainda assim, nada substitui a experiência real no mar”.
Ariane de Rothschild diz que o que mais a impressiona no Gitana 18 em relação ao 17 é a hidráulica e a complexidade. “É um barco que tem de flutuar… e voar. E manter-se estável enquanto o faz. Esse é o verdadeiro salto tecnológico da nova geração Gitana”.
Nas suas entrevistas, a empresária refere a selva como a grande memória da sua infância. Mas agora o mar rivaliza no seu presente. “O mar dá-me paz. Tal como a selva. Em terra sou hiperativa; no mar fico profundamente calma. Posso passar horas a olhar para o oceano, completamente silenciosa, algo impossível para mim em terra. A bordo sinto o mesmo: uma serenidade que me dá energia. Já fiz travessias de 20 horas sem descer para descansar. Em francês dizemos: “je vais boire dans la brise” - beber da brisa. É exatamente isso”.
Continua também “apaixonada por velejar com a família”. “O Gitana 6, um monocasco de 20 metros que pertenceu ao meu sogro, é um dos meus barcos preferidos. Elegante, puro. A essência da vela”.
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