Há quem compare a construção de um trimaran voador à Fórmula 1. Ariane de Rothschild vê pontos comuns entre ambas as engenharias e design, nomeadamente no que respeita à precisão tecnológica e ao trabalho de equipas altamente especializadas. Mas, em entrevista ao 24 Notícias, sublinha uma diferença essencial: “a Fórmula 1 consome enormes quantidades de combustível; nós, no mar, trabalhamos com energia limpa - o vento. E isso, para mim, não é suficientemente valorizado. Estamos a investir em tecnologias que, mais tarde, podem transformar setores inteiros ligados à energia e aos transportes. Estamos, de certa forma, a antecipar o futuro”.

Charles Caudrelier: "Esta é a nossa maior ambição tecnológica

O Trimaran Gitana 18 foi apresentado ao público e, depois de três anos de desenvolvimento, abre uma nova era na vela oceânica. À margem da apresentação, Charles Caudrelier, skipper do Maxi Edmond de Rothschild, explicou ao 24 Notícias, como foi este percurso, a importância do simulador, a complexidade do novo barco e o que espera dos próximos anos.

A equipa Gitana é conhecida pela excelência técnica. Quantas pessoas estão envolvidas neste projeto?

Somos vinte e cinco na equipa fixa,incluindo comunicação, logística e gestão técnica. No inverno juntam-se mais dez pessoas, consoante a fase dos trabalhos. Mas o “cérebro” do projeto é mesmo este núcleo de 25.

Revelaram finalmente o barco. Como foram, na prática, estes três anos de trabalho?

Estive aqui todos os dias. Muitas horas de discussão sobre modificações, muitas outras no simulador. Até ao inverno passado ainda navegávamos no Gitana 17, mas era impossível estar totalmente dedicado ao novo barco enquanto continuávamos a competir.

Acabámos por não fazer o Trophée Giverny, o que foi frustrante, mas deu-nos tempo extra - e necessário - para aprofundar o projeto. O Gitana 18 é extremamente complexo.

O grande ponto de viragem foi mesmo o simulador. Passámos centenas de horas a testar, a experimentar versões diferentes de foils, a procurar mais estabilidade. Isto mudou totalmente a relação entre designers e navegadores: pela primeira vez, durante a fase de concepção, pudemos dar um feedback preciso que fez alterar desenhos fundamentais, sobretudo dos apêndices.

Quanto tempo ganharam com o simulador?

Mais importante do que o tempo ganho foi o tempo evitado em erros.
Antes, sem simulador, faríamos duas ou três versões de um foil. Agora fizemos sessenta a oitenta.

É essa capacidade de testar rápido - antes do fabrico - que explica parte do atraso do projeto. A verdade é que adiámos a decisão sobre os foils porque continuávamos a encontrar melhorias. Mas esse atraso foi um investimento: queríamos o melhor foil possível, não o mais rápido de desenhar.

Pode dar um exemplo concreto de algo que mudaram graças ao simulador?

Claro. O primeiro grande tema foram os ângulos das extremidades dos foils (tips).

Num foil quase horizontal tens zero estabilidade - como na America’s Cup, onde há alguém a ajustar permanentemente os flaps. Mas nós não podemos fazer isso, não há energia suficiente e o regulamento não permite ajustes dinâmicos.

A solução era encontrar o ângulo ideal. Inicialmente a secção interior e exterior tinham tamanhos muito diferentes; hoje são praticamente iguais - resultado direto dos testes virtuais.

O mesmo aconteceu com os lemes. Desde cedo pedimos mais controlo e, para isso, precisávamos de maior profundidade. Testámos várias hipóteses no simulador e isso levou-nos aos lemes duplos e incrivelmente longos que hoje toda a gente comenta. Mas colocá-los no software foi um pesadelo técnico, porque nunca nada assim tinha sido testado.

O simulador torna o trabalho mais abstrato? Falta o sentir a água?

É verdade que perdes a sensação física. Mas ganhas algo tão importante como isso: um oceano de dados.

Para cada teste analisamos milhares de parâmetros — não só o ângulo médio do trim, mas o intervalo entre máximos e mínimos, a estabilidade em cada rajada virtual, a energia do sistema.

A realidade física nunca será totalmente substituída, mas hoje conseguimos prever o comportamento do barco com um nível de precisão que nunca tivemos. Isso muda tudo.

Este Gitana 18 será mais difícil de velejar do que o 17?

Sim, sem dúvida.Há muito mais possibilidades de afinar os foils: ângulo de ataque, rake, flap… são três parâmetros principais a combinar. Decidir qual usar em cada momento não será trivial.

Os lemes, paradoxalmente, devem ser mais simples - são extremamente rígidos e estáveis.

O verdadeiro desafio será lidar com a cavitação. Puxámos esse limite cerca de 10 nós acima do Gitana 17 — um salto enorme — mas continua a ser um fenómeno crítico.

Quando forem para o mar em janeiro, do que é que tem mais receio?

Do inesperado.
O conceito funciona, mas todos os sistemas são novos. Os flaps nos foils, por exemplo: uma pequena entrada de ar na junção pode alterar completamente o desempenho.

E depois há a torção dos próprios foils sob carga. Um erro de previsão pode transformá-los em peças inúteis. É disso que temos mais consciência.

Este é o barco que pode torná-lo o skipper mais bem-sucedido de sempre?

O Gitana 17 já colocou a fasquia muito alta. Não sei se será possível fazer melhor.

Mas sei que estou a aproximar-me do fim da carreira em solitário - mais quatro anos, no máximo. E ainda tenho sonhos por cumprir: ganhar outra Route du Rhum e voltar a fazer a volta ao mundo.

Quando esperam estar prontos para tentar o Troféu Jules Verne?

Daqui a três anos.
É o tempo necessário para dominar o barco e encontrar uma boa janela no calendário.

De que forma é que a tecnologia desenvolvida na Gitana pode influenciar outras indústrias? Performance e sustentabilidade são as palavras-chave. “A nossa ambição não é apenas inovar para competir. É perceber como o que fazemos pode facilitar a navegação no mundo real. O foiling - que não é apenas sobre velas, mas sobre estabilidade, sustentação e velocidade - está a chegar rapidamente ao transporte marítimo”, afirma.

“Outra área onde estamos muito empenhados é a sustentabilidade dos materiais. Sabemos que o carbono “é o que é”, mas desde o Gitana 17 que investimos fortemente em reciclagem. Aproveitamos os desperdícios de carbono, transformamos velas antigas em objetos úteis, como malas que oferecemos a clientes. Tentamos sempre dar uma segunda vida ao que produzimos”.

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Na componente de engenharia, o Gitana 18 conta uma história de colaboração.

“O que verdadeiramente pode transformar o mundo marítimo é a evolução técnica: estabilidade, sustentação, eficiência. No Gitana 18 trabalhámos muito sobre a transição entre “levantar” e “voar”. O grande desafio não é altura - é manter velocidade sem impactos violentos, que fazem perder energia e danificam a estrutura. Quando percebemos, com o Gitana 17, que estávamos a levantar, mas não sabíamos voar, recorremos a engenheiros aeronáuticos. O Gitana 18 é resultado dessa aprendizagem: voo, estabilidade e velocidade combinados”.

Ariane de Rothschild equipara os processos seguidos aos da NASA. numa semelhança com a NASA. “Tal como na aviação espacial, estes barcos exigem uma navegação de equipa, entre quem está a bordo e quem está em terra. O skipper sente, interpreta e comunica; a equipa em terra analisa, projeta, antecipa.
É como um piloto de Fórmula 1 permanentemente ligado aos engenheiros. Esta simbiose é uma das coisas mais fascinantes da vela moderna”.

O Gitana 18 é um barco mais pesado. A proprietária explica porquê: “ para ser mais rápido, tem que ser mais robusto. O exemplo perfeito é o leme central: precisa de ser extremamente sólido porque está sujeito a forças enormes e hoje em dia há muito mais detritos no oceano. Infelizmente, o mar está cheio de lixo. É triste, mas é uma realidade e destrói barcos. Algumas equipas tentaram usar radares ou sonares para detetar objetos, mas estes barcos são demasiado rápidos para reagir a tempo, o que inviabiliza o uso desses equipamentos”.

A primeira prova do Gitana 18 será a Route du Rhum, mas o grande objetivo continua a ser o Troféu Jules Verne, confirma a proprietária da equipa. É o Santo Graal da vela. Há quem discuta entre o Vendée Globe e o Jules Verne… para mim, é o Jules Verne. Faz-nos sonhar. É aventura pura e mostra o lado humano da vela: esforço, fragilidade, resiliência. A falta de sono, o stress, a dor física, é tudo real. Por isso admiro muito o trabalho que o Charles fez, por exemplo, com especialistas como Arnaud Gérald, sobre concentração, controlo da dor e gestão emocional”.

A pressão para o Gitana 18 estar pronto, admite, “é enorme, mas inevitável - um barco tão inovador precisa de ajustes constantes”. O Gitana 17 demorou cerca de três anos até estar completamente afinado. “Para o Gitana 18 talvez seja menos tempo, porque já sabemos voar e criámos simuladores muito avançados. Ainda assim, nada substitui a experiência real no mar”.

Ariane de Rothschild diz que o que mais a impressiona no Gitana 18 em relação ao 17 é a hidráulica e a complexidade. “É um barco que tem de flutuar… e voar. E manter-se estável enquanto o faz. Esse é o verdadeiro salto tecnológico da nova geração Gitana”.

Nas suas entrevistas, a empresária refere a selva como a grande memória da sua infância. Mas agora o mar rivaliza no seu presente. O mar dá-me paz. Tal como a selva. Em terra sou hiperativa; no mar fico profundamente calma. Posso passar horas a olhar para o oceano, completamente silenciosa, algo impossível para mim em terra. A bordo sinto o mesmo: uma serenidade que me dá energia. Já fiz travessias de 20 horas sem descer para descansar. Em francês dizemos: je vais boire dans la brise - beber da brisa. É exatamente isso”.

Continua também “apaixonada por velejar com a família”. “O Gitana 6, um monocasco de 20 metros que pertenceu ao meu sogro, é um dos meus barcos preferidos. Elegante, puro. A essência da vela”.