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O sonho de uma menina de totós na cabeça e nove anos de idade concretizou-se 13 anos depois. Francisca Veselko, 22, garantiu uma das sete vagas femininas para o Campionship Tour (CT 2026), circuito mundial de surf.

A arte capilar foi das primeiras reminiscências na hora de todas as realizações pessoais. Fez questão de recordar esse penteado infantil logo após assegurar a subida ao mais alto patamar do surf mundial.

Iniciada nas ondas pelas mãos da mãe, surfista que rasgou território masculino nos anos 90, junta-se à histórica página aberta por Yolanda Hopkins, a primeira portuguesa a qualificar-se para o circuito de elite da Liga Mundial de Surf (World Surf League).

Soube que tinha chegado a sua hora através de contas feitas por terceiros. Um dia depois do sétimo lugar no Pipe Challenger, em Pipeline, Havai, penúltima etapa do Challenger Series (CS2025/26), circuito de qualificação para o CT, a notícia chegou-lhe em mensagens reproduzindo um “screenshot” de um post no “Instagram”, confessou. O símbolo dourado, que significa qualificada, entrou-lhe olhos dentro.

O vento Suão soprou aos ouvidos de Rob Gunning, manager da WSL para a Europa. Obrigado a puxar da calculadora e esmiuçar a contabilidade do ranking, seguir-se-ia a confirmação. A informação seria oficializada pela Liga Mundial de Surf e Kika Veselko celebrou com o melhor amigo, Joaquim Chaves e da surfista israelita, Anat Leliorm.

Cumpriu-se um desígnio escrito em apontamentos. “Tenho um bloco de notas onde meto os pensamentos e escrevi: vou entrar no CT, vou entrar no CT, confessou ao 24noticias.

Entrou. Completou um caminho “incrível”, composto por “muitos altos e baixos”, no qual “perdemos mais vezes do que ganhamos”, assume.

A resiliência ajudou-a a contornar essa natural inevitabilidade, contou ainda ao telefone no outro lado do Atlântico antes de aterrar no aeroporto de Lisboa, vinda de Nova Iorque, voos via Newark, na manhã da passada terça-feira, dia 10, acompanhada do irmão mais novo, Jaime Veselko.

Um filme e um livro da filha do meio

Francisca Veselko
Francisca Veselko créditos: © WSL

Francisca Veselko nasceu nos Estados Unidos. Aterrou na Linha de Cascais com um mês de idade. É filha do mar, nascida e criada num agregado familiarizado com ondas e pranchas de surf.

Irmã e filha do meio, a infância foi passada de água salgada a escorrer-se pelos olhos azuis e cabelo dourado na companhia dos pais, Joe e Filipa, irmãos, Joey, o mais velho e Jaime, seis anos mais novo e tios, Duarte e Gonçalo.

A conexão com as ondulações e as marés mereceu honras de produção artística.

Um minidocumentário de quase 15 minutos retrata essa união marítima de uma família oriunda de Carcavelos, Cascais. “Família Leandro, 40 anos de ondas”, editado por Rui Ventura e filmado por Ricardo Bravo, em 2022.

Uma ambição ficou registada e imortalizada. “Quero entrar no CT, estou a trabalhar para isso e sonho ser campeã do mundo”, assumia a própria (tal como o irmão mais novo, Jaime Veselko), na curta película.

A mãe, Felipa Leandro, reproduziu essa relação familiar com o mar num livro Infanto-Juvenil. “A Kika Começou a Fazer Surf”, da coleção “Vem surfar com a Pipa, Jaime e Kika”.

O treinador das quartas-feiras

Francisca Veselko
Francisca Veselko créditos: WSL

Com frequência, Veselko refere que o seu sucesso construi-se a partir da base de uma pirâmide. Inclui os pais, patrocinadores, equipa, manager, psicóloga, preparador físico que a ajuda “mentalmente com meditações” e o treinador, Rodrigo Sousa.

Se as primeiras manobras decorreram debaixo da saia da mãe, Filipa, esta, bem cedo, a empurrou para as asas do treinador, Rodrigo.

“É como um pai para mim”, assume. “(O Rodrigo) conhece-me desde os meus 8 anos, quando treinávamos na Surf Technique”, recordou já em solo português.

Começou por ser o “treinador das quartas-feiras”. Pouco depois, transformou-se no parceiro inseparável, peça de conforto e equilíbrio emocional da atleta.

A mãe, Filipa Leandro, recorda publicamente que o sonho transformado realidade começou com “um susto” num dia de mar grande.

Numa idade ainda sem saber nadar, um amigo levou-a para dentro de água, a prancha virou, veio à superfície em pânico e desligou-se do surf até o irmão Jaime nascer. Ao telefone, Kika Veselko confirma o conto materno através de uma gargalhada.

Afundou o medo. Foi às Maldivas quando completou a primeira dezena de anos. No jogo do monopólio da conquista de ondas, seguiu-se a Austrália.

Competir fora de portas começa a ganhar contornos, mas é em mares nacionais que principia a sensação de um triunfo. Aos 13 anos, sagra-se campeã nacional sub-16. Repete o título no ano seguinte e soma o título nacional de sub-18.

Nas ondas californianas conquista, por três vezes, os WSA California State Summer Games, competição que abraça o espírito de uns Jogos Olímpicos estaduais e é vice-campeã da National Scholastic Surfing Association (NSSA) California State Championship, prova regional que apura os surfistas para a final americana.

Título mundial júnior acompanhado pelo pai e irmão mais novo

Francisca Veselko
Francisca Veselko créditos: WSL

Medalha de bronze no Euro Júnior, em Marrocos, ao lado da seleção nacional, alcança o primeiro título de campeã nacional Open da Liga MEO, 1.ª divisão do surf português, em 2021, cetro acumulado com o de campeã júnior. Intercala triunfos com a amiga Teresa Bonvalot e volta a subir ao lugar mais alto do pódio nacional uma temporada depois (2023).

A 21 de agosto de 2022, vence a primeira etapa no Qualifying Series, circuito de qualificação europeu da WSL, Caraïbos Lacanau Pro, na Galiza, Espanha, repete, em dose dupla (Marrocos e Caparica), no ano seguinte.

2023 foi para a surfista da Quinta dos Lombos, Carcavelos, o “melhor ano da minha vida”, disse na 14.ª edição do “Portugal Surf Awards”, noite de prémios da Associação Nacional de Surfistas (ANS) e cerimónia de encerramento da Liga MEO Surf 2023.

O título na 1.ª divisão do surf nacional, segundo troféu Open e o facto de ter sido campeã mundial Júnior WSL, em San Diego, debaixo do olhar do pai e do irmão mais novo, justificava a menção.

O topo mundial nos mais jovens, primeira portuguesa a atingir tal proeza, colocá-la-ia na rota do circuito secundário da WSL.

Ainda na onda de registos para a história, foi a primeira mulher a ver o nome incluído no Capítulo Perfeito powered by Billabong. Sujeita a votação on line, entrou na água na 10.ª edição, evento de um só dia de ondas tubulares em Carcavelos. Competição, até então, reservada a atletas masculinos. Regressou 12 meses depois, agora embrulhada num evento especial ao lado de Mafalda Lopes, Yolanda Hopkins e Camila Cardoso.

Integrada no Projeto Olímpico Paris 2024, acalentou o sonho olímpico, mas cedeu nas praias de Marginal e Margara, Arecibo, Porto Rico, no Mundial ISA de surf.

Ficou em terra a ver Yolanda Hopkins e Teresa Bonvalot levantarem voo a partir do aeroporto Humberto Delgado rumo às águas de Teahupo'o, Taiti, na Polinésia Francesa, local onde decorreu a competição.

Ideias colocadas no sítio com ajuda de uma psicóloga

Francisca Veselko
Francisca Veselko créditos: WSL

Fora de água, Kika Veselko prosseguiu um caminho dual e escolar. No 10.º ano foi viver com o pai para a Califórnia. Abraçou o homeschool americano e completou o 12.º ano.

Rodrigo Sousa, treinador, sublinha a “garra” e a “coragem” como fatores determinantes no crescimento da sua pupila enquanto surfista. Essas caraterísticas moldam o carácter do surf “power”, imagem de marca de Francisca Veselko.

Manobras de surf e horas de treino à parte, Veselko reconhece ter sido fundamental a ajuda de uma psicóloga na construção da carreira profissional.

"Não me lembro há quantos anos foi, era mais nova, não tinha as ideias bem no sítio, sabia que o meu objetivo era chegar ao CT, mas não estava a conseguir juntar as peças, como chegar lá”, confidenciou à margem da 2.ª edição do talk “Buondi Surf é Terapia”, evento no qual foi oradora.

“Andava um bocadinho perdida, mesmo nos campeonatos, não sabia lidar tão bem com as derrotas e com os meus sentimentos e achei que era o momento ideal para começar com a psicologia”, desabafou.

Do cheiro do CT à temporada inteira

Francisca Veselko
Francisca Veselko créditos: WSL

De signo Touro, celebra as vitórias com um gesto de The Bull. Proferiu, por três vezes, o discurso da vitória no QS. Ensaiado, virou uma determinante página no percurso ao alcançar o primeiro triunfo no Challenger Series (CS 2025-2016) no Burton Automotive Newcastle Surfest, na Austrália, no arranque do circuito de acesso ao CT. “O melhor dia da minha vida”, expressou, na altura.

Os cinco anos de Challenger nem sempre foram fáceis. Nem no Qualifying Series. Foi vice-campeã europeia, mas em 2024, esgravatou na última etapa do circuito regional europeu, na Caparica, Almada, por um lugar na via que a levaria agora ao CT.

A materialização do sonho de entrada na elite mundial começou a ganhar forma no pós-pandemia. “Só depois do Covid comecei a treinar físico e realmente a perceber se queria mesmo chegar ao CT, teria de fazer sacrifícios maiores e fazer mudanças nas minhas rotinas”, admitiu ao 24noticias.

O mundo do Championship Tour não é um circuito desconhecido. Já tinha cheirado o ambiente da competição ao ser convidada (wildcard) para Supertubos, Peniche (2024) e J-Bay, África do Sul, no ano passado.

Em Portugal, no Molhe Leste, foi 17.ª na 15.ª edição da etapa portuguesa do Tour. Caiu na ronda de repescagem diante a norte-americana, Caitlin Simmers, campeã mundial nesse ano. Viveu um sonho por uma hora, tempo de dois heats.

Tinha as “pernas a tremer” quando entrou em competição e despediu-se “frustrada”. Contudo, manifestou estar pronta “para trabalhar mais” para vestir a licra do circuito mundial, “onde quer estar”, afirmou no areal da Capital da Onda.

Na África do Sul, etapa fora do calendário de 2026 e uma das ondas preferidas, foi afastada (9.ª) pela havaiana Bettylou Sakura Johnson.

Inalado o cheiro do que é estar entre os melhores, estará de corpo inteiro na temporada 2026. Ao todo, nove etapas da fase regular, num novo formato que inclui um pós-temporada, 10.ª e 11.ª etapa (em Peniche) e uma final, em Pipeline, Havai.

Na estreia, nas celebrações dos 50 anos do surf profissional, considera ser o “melhor ano” para entrar no World Tour, assistindo aos regressos de “Carissa Moore, que foi mãe no ano passado, Stephanie Gilmore e Gabriel Medina”, enumera.

A 1 de abril, em Bells Beach, Austrália, verá o sonho concretizado em ter “Veselko nas costas” da licra de competição. Mas não só. Aspira ter o número 19.

Desmonta a numeração e justifica. Aos 19 anos foi campeã mundial júnior WSL e aos nove competiu pela primeira vez. “A combinação 19 será perfeita para mim”, deseja, caso não esteja já reservado a outro surfista.

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