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Antes de a bola ter começado a rolar no Mundial de 2026, havia já um jogo em curso, o da preparação mental dos jogadores. Entre a pressão das expectativas, o medo do erro e a ansiedade antecipatória, há uma exigência psicológica extrema" que atravessa toda a competição.
Para a psicóloga clínica Marcela Matos, Professora Auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e Investigadora Sénior no CINEICC, o contexto de um Mundial coloca os jogadores sob uma pressão acumulada difícil de simular noutras competições. "Um Mundial representa um contexto de exigência psicológica extrema", sublinha. Essa exigência manifesta-se em várias dimensões, "a pressão para corresponder às expectativas do país, o receio de cometer erros em momentos decisivos, a gestão da incerteza quanto ao desempenho e a exposição mediática constante".
A estes fatores soma-se um fenómeno frequentemente subestimado no discurso público, "a ansiedade antecipatória". Marcela Matos descreve-a como "uma preocupação excessiva com cenários futuros, desde o medo de falhar um penálti até à possibilidade de serem responsabilizados por uma derrota". Este tipo de processamento mental, explica, pode interferir "na capacidade de decisão e no controlo atencional em contexto de jogo", sobretudo em momentos de elevada carga emocional.
"A melhor forma de antecipar estes desafios passa por integrar a preparação psicológica na rotina de treino muito antes da competição começar"Marcela Matos, psicóloga
Treinar a mente como se treina o corpo
Face a este cenário, a psicóloga defende que a preparação mental não pode ser um complemento tardio à preparação desportiva, mas sim "um eixo estruturante" desde o início do ciclo competitivo. "A melhor forma de antecipar estes desafios passa por integrar a preparação psicológica na rotina de treino muito antes da competição começar", afirma.
Na prática, isso implica trabalhar competências como "regulação emocional, gestão da pressão, foco atencional e recuperação após erros". A lógica é de exposição progressiva, simular contextos de pressão no treino para reduzir o impacto psicológico em competição. "Quanto mais familiar o atleta estiver com estas situações em contexto de treino, menor será o impacto psicológico quando elas surgirem na competição", refere Marcela Matos.
Este enquadramento aproxima a preparação psicológica da lógica já consolidada do treino físico e técnico, nomeadamente "repetição, adaptação e automatização de respostas sob stress".
De acordo com a especialista, durante o Mundial, a gestão da pressão externa, do público, dos media e do próprio enquadramento competitivo, torna-se um dos principais desafios. Uma das estratégias mais utilizadas na psicologia consiste em deslocar o foco do resultado para o processo.
"Um atleta que consegue responder aos erros com equilíbrio e aprendizagem, em vez de entrar em ciclos de autocriticismo intenso, tende a recuperar mais rapidamente"
"Uma das estratégias mais eficazes consiste em ajudar o atleta a deslocar o foco do resultado para o processo", explica Marcela Matos. Em vez de pensamentos centrados no desfecho ("temos de ganhar", "não posso falhar"), o trabalho psicológico procura ancorar o atleta em "ações concretas e controláveis".
"Esta reorientação cognitiva é acompanhada por técnicas de regulação fisiológica, como a respiração controlada, que ajudam a modular a ativação associada ao stress. A visualização mental surge também como ferramenta central, permitindo ensaiar mentalmente situações de jogo e preparar respostas eficazes para cenários desafiantes", salienta.
Outro aspeto relevante é a forma como os jogadores lidam com o erro, inevitável em contexto competitivo. Segundo Marcela Matos, "um atleta que consegue responder aos erros com equilíbrio e aprendizagem, em vez de entrar em ciclos de autocriticismo intenso, tende a recuperar mais rapidamente".
Consistência emocional num torneio curto e intenso
Num Mundial, a gestão psicológica não se limita aos 90 minutos de jogo. A sucessão rápida de partidas exige uma capacidade de recuperação emocional contínua, muitas vezes subestimada na análise pública do rendimento desportivo.
"O trabalho psicológico ajuda os jogadores a desenvolver flexibilidade emocional, ou seja, a capacidade de reconhecer emoções difíceis sem ficarem dominados por elas. Esta flexibilidade é essencial para evitar oscilações abruptas entre jogos, sobretudo após vitórias ou derrotas com forte impacto emocional", refere a psicóloga.
A coesão coletiva surge como outro fator crítico. Em ambientes de elevada pressão, a qualidade das relações dentro da equipa pode funcionar como fator de estabilização. "Quando existe um ambiente de confiança, apoio mútuo e segurança psicológica, os jogadores tendem a lidar melhor com a adversidade", sublinha Marcela Matos.
"O trabalho psicológico ajuda os jogadores a desenvolver flexibilidade emocional, ou seja, a capacidade de reconhecer emoções difíceis sem ficarem dominados por elas"
Num estádio cheio, com ruído constante e estímulos imprevisíveis, a concentração não depende da eliminação de distrações, mas da capacidade de regressar ao foco. "A concentração não depende de eliminar distrações, mas sim da capacidade de regressar rapidamente ao foco sempre que a atenção se dispersa", afirma.
Para isso, os atletas recorrem a "âncoras de atenção", elementos simples que "funcionam como pontos de retorno mental, como a respiração, instruções técnicas curtas ou rotinas entre ações de jogo". Estas ferramentas permitem "reestabelecer o controlo atencional em contextos de elevada pressão".
As rotinas mentais pré-jogo desempenham aqui um papel estruturante. "As rotinas mentais são fundamentais porque criam previsibilidade e estabilidade psicológica num contexto altamente imprevisível", explica Marcela Matos. Durante a preparação, estas práticas são treinadas de forma sistemática; "em competição, tornam-se mais simples e automatizadas, funcionando como suporte em momentos de maior instabilidade".
No entendimento da psicóloga, o objetivo final não é eliminar a pressão, mas "tornar o atleta capaz de operar dentro dela com consistência: permanecer funcional, focado e emocionalmente regulado quando o contexto exige decisões rápidas sob intensidade máxima".
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