O Oeste é terra de Ciclismo e de grandes nomes do ciclismo nacional. Do passado ao presente.

De Joaquim Agostinho (Torres Vedras), eternizado com uma rotunda e um museu, João Almeida e António Morgado (Caldas da Rainha) a José Eduardo Santos (faleceu em 2022, aos 55 anos), “Pepinho”, como era conhecido o mecânico da equipa torrense da Sicasal e homem de confiança de Joaquim Gomes, vencedor da Volta a Portugal (1989) e atual diretor da Prova, as duas rodas fazem parte da paisagem dos 12 municípios que compõem a Comunidade Intermunicipal do Oeste.

A 86.ª edição da Volta a Portugal Continente, 10 a 17 de agosto, reservou 174,4 km da 9.ª e penúltima etapa a estas estradas litorais, meca do surf (Nazaré, Peniche e Santa Cruz ligadas pela N247, tendo ficado de fora da rota das bicicletas, Ericeira), ao asfalto que rompe campos agrícolas (da maça, pêra rocha e uvas) e cidades decoradas por renomeada faiança e diversos monumentos históricos mundialmente famosos.

Seis anos depois, a Volta regressou à partida de Alcobaça, terra da Maça com o mesmo nome e terminou, 42 anos depois e pela quarta vez na história, no Alto do Montejunto (Cadaval), maior Miradouro natural da Estremadura, subida de Montanha de 1.ª categoria.

Uma homenagem à região, Joaquim Agostinho, João Almeida e António Morgado

“O Oeste no seu todo e, em particular, alguns concelhos, proporcionaram desde os primórdios alguma das mais destacadas figuras da Volta”, começou por explicar Joaquim Gomes, diretor da Prova que fez o trajeto de sábado na companhia do olímpico Carlos Lopes.

“Há alguns anos tentei reunir condições para ter uma etapa que corresse em pleno o Oeste. Felizmente aconteceu em 2025”, continuou na conversa com o 24noticias, no Parque da Volta, no Multiusos de Alcobaça, antes da partida da 9.ª etapa que transportou a bandeira de homenagem a todos os corredores nascidos na região e a todos aqueles que defenderem as cores as equipas da Sicasal e Lousa.

“É uma homenagem à região que já teve grandes equipas de ciclismo”, sintetiza Joaquim Gomes, antigo ciclista, vencedor da Volta  Portugal, em 1989, com o Torrense, “numa altura que estava a surgir uma grande equipa de marca, a Sicasal”, recordou.

“Mas há histórico, quer de vencedores da Volta a Portugal, quer de competições onde impera o Grande Prémio de Torres Vedras, troféu Joaquim Agostinho, pelo que há muito tinha o desejo de uma etapa da Volta a Portugal que corresse em pleno neste território”, reforçou, reconhecendo que dos 12 municípios, três ficaram de fora para poupar o pelotão a uma etapa que, dessa forma, seria obrigado a correr mais de 200 quilómetros. “Seria contraproducente”, aludiu e, em especial, com um final perto das nuvens que abrigam a antiga Fábrica Real do Gelo.

A Volta a Portugal (Espanha, Itália ou França) é também um cartaz de promoção turística e “uma excelente ferramenta de promoção de território”, adiantou.

“Um evento como a Volta a Portugal cumpre exatamente esse desígnio, que é a promoção da região, porque, certamente, milhares de pessoas vão assistir, quer na estrada e, em particular pelos órgãos de comunicação social e pela RTP, a esta magnífica etapa”, antecipava Joaquim Gomes.

 O 24notícias fez-se à estrada e teve uma visão única num carro conduzido por um ex-ciclista 

créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

Não se enganou no que toca às audiências no terreno.

O 24notícias fez o percurso todo e foi testemunha dessa paixão na região, embora o efeito “férias de verão” possa ter sido magnetizante.

Seguimos, na maior parte das mais de três horas e meia da etapa, na frente do pelotão. Uma perspetiva diferente de ver a Volta e que permite captar as primeiras reações populares à passagem da caravana.

Às buzinadelas respondem com braços no ar e gritos de “vamos embora”.

Tivemos ainda outra visão. Durante um determinado período, fomos colocados na roda de trás de um trio de ciclistas em fuga (iniciada ao quilómetro 12). German Nicolas Tivani (Aviludo/Louletano/ Loulé), que viria a vencer, Tomas Contte (Louletano) e Pau Martí (Israel Premier Tech Academy).

Fomos no encalço de visão privilegiada dos corredores e dos dois carros de apoio.

A condução esteve nas mãos de Carlos Teixeira (6.º como melhor classificação na “Portuguesa”), antigo ciclista profissional do Tavira e do Boavista, entre 1995 e 2022, equipa última com cujas cores esteve na Volta ao Luxemburgo (1999) ganha, então, por Lance Armstrong, no ano de estreia da primeira Volta a França do norte-americano.

Habituado a pedalar pelas estradas nacionais, Carlos Teixeira mudou-se para o volante e assumiu a liderança de um dos carros do patrocinador da Volta a Portugal.

Das duas para as quatro rodas, explica para quem o acompanha (ao 24notícias e a uma boleia inesperada até ao Alto do Montejunto dada a um assessor de comunicação do Tavira devido à avaria do autocarro da equipa algarvia) a preciosa ação da GNR (terminou o trabalho no Montejunto) no controle de trânsito e na segurança de todos na estrada, assim como a estratégia das equipas na resposta à fuga, em especial do Anicolor/Tien 21, onde pontifica o camisola amarela, Artem Nych (não se desgastou na perseguição e deixaram esse papel entregue a outros).

89 rotundas. A famosa obra autárquica 

“Quem passa por Alcobaça não passa sem cá voltar”, eternizou Maria de Lurdes Resende, cantora lírica, em 1955.

Seis anos depois, a Volta regressou ao ponto de partida de Alcobaça, terra da famosa Maça, dos doces conventuais, do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, Património Mundial da UNESCO e Mosteiro de Santa Maria de Coz (monumento nacional) e praias atlânticas, para além do emblemático circuito São Bernardo (padroeiro da cidade), primeira prova velocipédica a seguir à “Portuguesa”.

A partida simbólica foi dada no Panorama Multiusos de Alcobaça, uma das sempre obras mais desejadas, e erguidas, pelo poder autárquico.

créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

A outra são as rotundas. E por falar nesse monumento emblemático do século XX, fizemos 89 círculos contabilizados no road book da organização (admitindo erro humano na contabilidade) durante a etapa, uma espaço de passagem entre a esquerda e direita, ou de viragem para cada um dos lado e palco privilegiado para a mensagem politica, em especial em vésperas de eleições. E não faltaram cartazes, em especial do Chega, cuja face do presidente está sempre ao lado do candidato autárquico, ambos acompanhados por uma palavra e uma referência à autarquia.

 O centro histórico decorado por esplanadas com vista para o Mosteiro de Alcobaça, ensaio gótico em Portugal, antecipou o mar de gente que se predispôs a ver a caravana passar durante a tarde quente de sábado.

À porta de casa, à janela, nas varandas, no meio de rotundas, encostados à sinalética de trânsito, na estrada com os carros de porta aberta para arejar do calor, em cima do selim e vestido a rigor, o “povo” não queria perder a oportunidade dos escassos segundos a ver os ciclistas a rolar.

Para Fervença, estava marcado o km 0 da etapa 9, ao lado da SPAL, Sociedade de Porcelanas de Alcobaça, uma dos produtos da cidade.

As motas da GNR, cujas luzes azuis rodam uma bem visível luminosidade e anunciam a passagem da Caravana, desbravam o caminho entre a população e impedem que um ou outro condutor menos respeitador entre na pista reservada à Volta e se faça à estrada.

Do Canhão da Nazaré aos Supertubos de Peniche. O povo tirou o pé da areia

A N8 levou o pelotão até à Nazaré, outrora estância balnear e praia conhecida pelas nazarenas e “quartos, rooms, chambres e zimbres”, hoje, terra das Ondas Grandes e do Canhão plantado aos pés do Forte de São Miguel Arcanjo.

Primeiro grande banho de multidão com o “povo” a tirar o pé da areia e a saltar para a marginal de fato de banho e chinelo, e tronco nu masculino. A imagem de areal vazio e estradas sem espaço para uma pessoa (“toalha” na vertical), viria a repetir-se em São Martinho do Porto, Foz do Arelho, Peniche, Capital da Onda, Areia Branca, Santa Rita e Santa Cruz.

Mas nem só de mar se fez a etapa e os acenos continuaram pelas cidades das Caldas da Rainha de Bordallo Pinheiro e do “levantamento” das Caldas, do Regimento de Infantaria 5, prenúncio do 25 de Abril 1974, Óbidos, urbe medieval conhecida pelo Castelo (e pela ginja) e Serra d'El-Rei, vila que tem o marco na história de Portugal como palco de amores entre D. Pedro I e Inês de Castro. ,

Continuou pela Lourinhã, terra dos Dinossauros (uma rotunda anuncia a passagem destes animais pré-históricos, de quem resta peugadas, ossadas e um parque temático), Torres Vedras, berço de Joaquim Agostinho (que também tem o nome numa rotunda) e da histórica Linha de Torres, linha defensiva erguida durante as invasões francesas que merece referência para a eternidade em mais uma rotunda (ao Duque de Wellington).

Guiou ainda os ciclistas até ao Bombarral agrícola com direito a uma quase visita ao Bacalhoa Buddha Eden, propriedade de Joe Berardo.

Benfica, Sporting e Porto, bandeiras de Portugal e da Palestina

Aos avisos do intercomunicador, os carros na frente do pelotão aceleravam quando os três homens em fuga começavam a colocar o nariz no tubo de escape de automóveis e motas que cumprem o papel oposto ao “carro vassoura”.

A informação do tempo de vantagem do trio da fuga em relação à massa compacta que o perseguia, assim como comunicações sobre metas volantes (três), quilómetros percorridos e distância para a meta foram sendo dados com a pausada cadência, um acesso a informação privilegiada tida em primeira mão no banco de trás do carro conduzido pelo ex-ciclista, Carlos Teixeira.

Por toda a estrada muitos foram os adeptos equipados com as camisola dos “Três Grandes”, Benfica (nome igualmente de uma localidade por onde passou a Portuguesa), em maior número na estrada, Sporting, a fazer relembrar a génese da rivalidade e expansão territorial da base de apoio dos rivais da capital portuguesa, e do Porto, esses com a expetante saudade da equipa (W52-FC Porto) que dominou os últimos anos a modalidade, mas que viria a sentar 25 arguidos no banco do tribunal por doping e tráfico de substância proibida.

Várias mensagens de apoio a ciclistas, como Tiago Antunes e João Almeida, “Bota Lume”, ciclista que não participou na Volta a Portugal, marcaram ainda o que a nossa vista conseguia alcançar na berma.

Várias bandeiras de Portugal, das 19 equipas presentes, nove são de emblemas nacionais, abafaram a meia dúzia de bandeiras da Palestina, uma manifestação política a que não deve ter sido alheio à presença de uma equipa israelita - Israel Premier Tech Academy, cujo corredor, Pau Marti, terminou na 2.ª posição.    

Um cheiro de subida à Torre na Estremadura 

A estrada N115 transportou, por fim, o pelotão pelo Cadaval, terra produtora e exportadora de Pêra Rocha e da Real Fábrica do Gelo até ao alto da Serra do Montejunto.

Este último cartão de visita que serviu a nobreza portuguesa não passou despercebido ao guião de Joaquim Gomes, diretor da Volta a Portugal. “Fruto do grande esforço e de uma capacidade de arte e engenho que havia na altura, com vários meios de transporte, para conseguir levar gelo à nobreza durante muitos meses do ano, em que obviamente não havia capacidade de produzir gelo. Até isso vai fazer parte desta etapa”, finalizou na conversa com o 24notícias, diálogo tido na linha de partida, em Alcobaça.

A subida, mais de 600 metros, aconteceu pela quarta vez numa chegada, a última, há 42 anos (palco de seis partidas), trás à memória outras epopeias pelas estradas mais altas de Portugal, seja a subida à Torre (Covilhã) ou Nossa Senhora da Graça.

À beira da estrada, muitos são os que montam um restaurante ambulante desde as primeiras horas do dia, outros, aventuram-se a subir de bicicleta, desafio que testa as imitações dos heróis das duas rodas.

créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

O 24notícias abriu caminho, estacionou quase à porta da meta (benesses da organização) viu as vistas e assistiu à chegada dos corredores. Os três do pódio e os restantes.

Prémios entregues e descemos por onde subimos. Direção? Lisboa, palco da última etapa da 86.º Volta a Portugal, um contrarrelógio em que vamos participar. No mesmo carro.

*Jornalista viajou no carro da organização e do patrocinador da prova: Continente