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Belfast está a viver vários dias de tensão e violência na sequência de um ataque com arma branca ocorrido na segunda-feira, 8 de junho. Um homem ficou gravemente ferido e um cidadão sudanês de 30 anos foi detido e acusado de tentativa de homicídio.

Nas horas que se seguiram ao ataque, imagens do incidente começaram a circular nas redes sociais, alimentando a indignação pública e originando manifestações em vários pontos da cidade. Alguns desses protestos degeneraram em confrontos, incêndios de veículos e ataques a habitações, particularmente em zonas habitadas por comunidades imigrantes.

Perante a escalada da violência, a família da vítima divulgou um apelo público à calma, pedindo que o ataque não seja utilizado para promover o ódio ou a divisão entre comunidades. A mesma posição foi reforçada por responsáveis políticos e pelas autoridades policiais, que condenaram tanto o esfaqueamento como os distúrbios que se seguiram.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, classificou o ataque como “horrível” e “repugnante”, enquanto a ministra da Justiça da Irlanda do Norte, Naomi Long, alertou para a existência de grupos que estarão a aproveitar o caso para fomentar tensões raciais.

A polícia reforçou o dispositivo de segurança na cidade e mantém a investigação para apurar todas as circunstâncias do ataque. As autoridades têm igualmente apelado à população para não partilhar vídeos do incidente devido ao seu conteúdo extremamente violento.

Os acontecimentos surgem num contexto de crescente tensão em torno da imigração na Irlanda do Norte, onde as autoridades registaram nos últimos anos um aumento dos incidentes de motivação racial.

Segundo estatísticas da polícia da Irlanda do Norte (PSNI) e da agência oficial de estatística NISRA, os incidentes com motivação racial atingiram em 2025 os níveis mais elevados desde que os registos começaram, em 2004. Foram contabilizados 2.260 incidentes raciais e 1.430 crimes raciais ao longo do ano, ambos recordes históricos.

Já anteriormente, no ano financeiro de 2024/25, os incidentes raciais tinham atingido um máximo histórico de 1.807 ocorrências, representando um aumento de 454 casos face ao período anterior. Os crimes raciais também bateram recordes, com 1.188 ocorrências.

Os números mostram que Belfast concentra uma parte significativa destes casos. Dados divulgados no final de 2025 indicavam que quase metade dos incidentes e crimes raciais registados na Irlanda do Norte ocorreram na capital.

Uma mudança no tipo de tensões vividas na Irlanda do Norte

A Irlanda do Norte foi durante décadas marcada sobretudo pelo conflito sectário entre unionistas/protestantes e nacionalistas/católicos, conhecido como "The Troubles". No entanto, várias análises apontam que parte das tensões sociais tem vindo a deslocar-se para questões relacionadas com imigração e diversidade étnica. A Reuters refere que o aumento da imigração nos últimos anos foi acompanhado por um crescimento dos incidentes racistas, que atingiram níveis sem precedentes.

Historicamente, a Irlanda do Norte tinha uma população relativamente homogénea. Nas últimas duas décadas, porém, registou um aumento da imigração proveniente de países da Europa de Leste, África e Ásia. Este fenómeno alterou a composição demográfica de várias comunidades e tornou os debates sobre imigração mais visíveis no espaço público.

Os acontecimentos desta semana em Belfast não são um caso isolado. Em 2024 e 2025 já tinham ocorrido episódios de violência e ataques contra minorias étnicas e migrantes, alguns deles após campanhas de desinformação ou rumores que circularam nas redes sociais. As autoridades e várias organizações têm alertado para o crescimento de discursos anti-imigração e para o impacto que estes podem ter na segurança das comunidades migrantes.

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