Violação, suásticas e outros escândalos. O colapso da candidatura de Graham Platner ao Senado do Maine

Graham Platner era, até há poucas semanas, um dos fenómenos mais surpreendentes da política americana. O produtor de ostras de 41 anos, veterano das guerras do Iraque e do Afeganistão, sem qualquer experiência política prévia, tinha conseguido o quase impossível: vencer as primárias democratas para o Senado do Maine, superando a candidata favorecida pelo establishment do partido, a governadora Janet Mills, que acabou por desistir da corrida perante o avanço imparável de Platner. Embora já houvesse alguns sinais de alarme em relação ao candidato democrata, foi uma acusação de abuso sexual que fez com que o Partido Democrata se visse a braços com a sua substituição em plena campanha.
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Instagram Graham Platner

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A sua mensagem anti-oligárquica, de raiva contra os multimilionários e a tecnologia, e o seu perfil rude de veterano-agricultor cativaram uma base de eleitores progressistas cansados da política tradicional, e graças a isso ganhou o apoio de figuras como Bernie Sanders e Ro Khanna. Chegou a ser várias vezes apontado como um dos possíveis salvadores do Partido Democrata, a par do candidato texano James Talarico ,ambos vistos como figuras capazes de reconquistar o eleitorado masculino mais jovem que o partido tinha perdido em 2024.

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Mas a sua campanha foi, desde cedo, marcada por escândalos sucessivos. Descobriu-se que, apesar da imagem operária que cultivava, tinha frequentado a dispendiosa escola privada Hotchkiss e que a exploração de ostras era mais um passatempo do que o seu ganha-pão principal. Vieram depois à tona antigas publicações ofensivas numa conta do Reddit, uma tatuagem no peito que se assemelhava a um símbolo nazi (que Platner disse ter feito embriagado, ainda fardado, e que mais tarde cobriu, alegando desconhecer o seu significado), e revelações de que tinha enviado mensagens sexualmente explícitas a outras mulheres depois de casado. Ainda assim a maioria dos democratas manteve o apoio e Platner venceu a primária de 9 de junho com mais de 150 mil votos.

O verdadeiro ponto de rutura chegou a 6 de julho, quando o Politico publicou uma investigação que dá voz a Jenny Racicot, mulher de 41 anos com quem Platner tinha tido uma relação intermitente durante mais de dois anos, e que alega ter sido violada numa noite do final de 2021. Segundo o relato de Jenny Racicot, Platner entrou em sua casa sem ser convidado, visivelmente embriagado, e forçou-a a ter relações sexuais consigo apesar dos seus repetidos pedidos para que parasse.

Jenny Racicot descreveu com detalhe o episódio,  desde o momento em que percebeu que "já não era uma escolha sua", até ao facto de o candidato ter ejaculado dentro de si apesar de lhe ter pedido para não o fazer, o que a preocupou por não estar a tomar nenhum contraceptivo na altura. Contou ainda que, nas semanas seguintes, enviou uma mensagem privada a Platner a dizer que o encontro não tinha sido consensual e que não queria voltar a ouvir falar dele, e que só mais tarde apagou essas conversas.

A jornalista corroborou o relato através de conversas com um ex-namorado de Jenny Racicot, uma amiga a quem esta se tinha confidenciado ainda antes de Platner entrar na política, e mensagens trocadas com a sua terapeuta. Platner negou categoricamente as acusações, chamando-lhes "problemáticas, sérias e falsas", e a sua campanha chegou a sugerir que se tratava de uma manobra coordenada por "operacionais do sistema" fora do Estado.

A reação em cadeia foi imediata e brutal. Em poucos dias, praticamente todos os grandes apoiantes democratas de Platner retiraram os seus endossos: Ro Khanna, Ruben Gallego, Elizabeth Warren e, de forma particularmente significativa, o próprio Bernie Sanders, que tinha sido um dos seus primeiros e mais influentes padrinhos políticos. O Partido Democrata do Maine juntou-se aos apelos para que se retirasse da corrida, e o golpe final veio quando o braço de campanha dos democratas ao Senado (a Senate Majority PAC) ameaçou deixar de investir na corrida do Maine caso Platner continuasse na lista eleitoral, um recuo impressionante já que este mesmo comité tinha momentos antes anunciado estar "empenhado" em derrotar a republicana Susan Collins.

Perante esta pressão esmagadora, e uma vez que a lei do Maine lhe dava até 13 de julho para se retirar formalmente (permitindo assim ao partido nomear um substituto antes do prazo de 27 de julho), Platner anunciou na noite de 8 de julho, através de um vídeo emocionado com mais de 11 minutos, que suspendia a campanha.

Segundo a reportagem do Politico sobre os bastidores dessa decisão, vários dos seus conselheiros mais próximos, incluindo o gestor de campanha Ben Chin, tinham-lhe pedido insistentemente que adotasse um tom conciliador e de "gratidão" na sua mensagem de despedida. Mas Platner recusou esse conselho e fez questão de manter um tom desafiante, acusando "o sistema mediático corporativo e o establishment político" de terem agido como "juiz, júri e carrasco", e insinuando que figuras poderosas dentro do próprio partido preferiam ver Susan Collins vencer a tê-lo a ele como senador. Foi peremptório em sublinhar que a retirada não era uma admissão de culpa, mas sim uma resposta a "estruturas" que lhe estavam a ser retiradas por quem detém o poder.

Um dos seus principais estrategas, Morris Katz, de apenas 27 anos (que também assessora o autarca de Nova Iorque Zohran Mamdani), veio a público dizer que a equipa tinha aconselhado Platner a suspender a candidatura assim que soube das alegações, manifestando estar "profundamente desiludido". Já o senador democrata John Fetterman foi mais longe nas críticas e disse à CBS que quem tinha ajudado a "colocar alguém como Platner" naquela posição deveria ficar de fora do processo de escolha do substituto, e apontando o dedo diretamente a Sanders, a quem pediu publicamente que pedisse desculpa às vítimas por ter sido o maior responsável por dar visibilidade a Platner. Também o governador da Califórnia, Gavin Newsom, comentou que "claramente não houve escrutínio suficiente" sobre o candidato.

Dois dias depois de anunciar a suspensão, a 10 de julho, Platner submeteu formalmente os papéis de retirada junto do secretário de Estado do Maine, encerrando definitivamente a sua candidatura. Na carta que acompanhou esse pedido, escreveu que os eleitores que o tinham nomeado "votaram por um novo tipo de política" e prometeu continuar a "levar por diante o movimento que construímos juntos", sem no entanto especificar o que isso significaria na prática.

Porque é que isto preocupa tanto os democratas?

O Maine é considerado absolutamente decisivo para as hipóteses dos democratas recuperarem a maioria no Senado, sendo este o único assento republicano em disputa num estado que Kamala Harris venceu em 2024, e sendo Susan Collins uma senadora experiente, com cinco mandatos e mais de 10 milhões de dólares em caixa de campanha. Segundo analistas ouvidos pela agência AP, sem vencer no Maine, o caminho democrata para a maioria no Senado torna-se extremamente difícil. É por isso que este processo de substituição, por mais improvisado e comprimido no tempo que seja, está a ser acompanhado com tanta atenção a nível nacional, e por isso também que, apesar da desilusão de muitos apoiantes de Platner com as opções agora disponíveis, há um esforço generalizado entre os democratas do Maine para reunir rapidamente o eleitorado em torno de quem quer que venha a ser escolhido a 25 de julho.

Segundo os mesmos analistas este episódio faz parte de um padrão recorrente na política americana: candidatos "outsider" e populistas capazes de ultrapassar o aparelho tradicional dos partidos nas primárias, mas que chegam à eleição geral sem o escrutínio e a preparação que normalmente um percurso político mais longo proporciona. Foi isto que aconteceu aos republicanos com a vaga do Tea Party a partir de 2010, quando o partido perdeu várias corridas ao Senado que, à partida, eram vencíveis, precisamente por causa de candidatos insurgentes que desafiaram o establishment nas primárias mas depois se revelaram problemáticos nas eleições gerais.

E, por isso, alertam que é cada vez mais importante voltarem a passar pelo escrutínio tradicional dos partidos.  Muitos apoiantes de Platner, incluindo o comentador Tommy Vietor, reconhecem agora a importância da verificação prévia de antecedentes ("vetting"), mesmo defendendo que este tipo de alegações é difícil de detetar através dos métodos tradicionais.

Importa lembrar que este não é o único caso do género na corrida democrata. Também a campanha de Eric Swalwell para governador da Califórnia entrou em colapso político após a divulgação de alegações de má conduta sexual feitas por várias mulheres, incluindo acusações de violação de uma ex-funcionária.

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A corrida atribulada para encontrar um substituto

Com Platner fora da corrida, o Partido Democrata do Maine viu-se a construir, praticamente do zero e em tempo recorde, um processo inteiramente novo para escolher um substituto. Segundo o Pressherald, a lei estadual estabelece que, quando um candidato nomeado numa primária se retira até à segunda segunda-feira de julho (este ano, dia 13), o partido tem até à quarta segunda-feira do mesmo mês (27 de julho) para indicar um substituto, deixando apenas cerca de duas semanas para todo o processo.

A solução encontrada foi a realização de uma convenção nomeadora a 25 de julho, no Cross Insurance Center, em Bangor, reunindo 601 delegados: 101 membros do comité estadual do partido e 500 delegados eleitos pelos 16 condados do Maine (mais 100 suplentes), com o número de delegados por condado proporcional à sua dimensão. Estes delegados serão escolhidos em reuniões locais nos dias 18 e 19 de julho, e vão chegar à convenção sem qualquer compromisso prévio com um candidato específico, o que promete tornar o processo particularmente imprevisível, havendo mesmo quem, entre os próprios democratas, tenha feito comparações (meio a brincar, meio a sério) com a caótica convenção democrata de Chicago em 1968.

Na convenção, cada candidato terá direito a um discurso de cinco minutos, complementado por uma intervenção de dois minutos de um apoiante. A votação decorrerá por rondas semelhantes ao sistema de voto de transferência usado no Maine: se ninguém obtiver maioria na primeira ronda, avançam os cinco mais votados para uma segunda ronda (desta vez sem transferência automática de votos); se ainda assim não houver maioria, elimina-se o último classificado e repete-se o processo até surgir um vencedor claro. Para poderem participar, os candidatos tiveram de entregar declarações de intenção até 15 de julho e recolher entre 500 e 1000 assinaturas válidas de eleitores registados como democratas, distribuídas por pelo menos oito dos dezasseis condados, com prazo até 20 de julho. A convenção em si será fechada ao público, estando reservada a delegados, imprensa credenciada e staff, ainda que seja transmitida em direto.

A diretora executiva do partido no Maine, Devon Murphy-Anderson, de 31 anos, tem estado no centro desta operação, gerindo uma equipa pequena inundada de chamadas e voluntários não remunerados. Em entrevista à ABCnews, defendeu que o objetivo é tornar o processo "o mais justo, transparente e inclusivo possível", ainda que tenha reconhecido a dificuldade em garantir que os eleitores que apoiaram maciçamente Platner na primária se sintam representados na escolha do substituto. Murphy-Anderson foi também bastante crítica da própria equipa de Platner, acusando-a de ter tentado influenciar o processo através de "chamadas diretas" para o seu telemóvel com "pedidos muito específicos", acusações que a campanha de Platner negou, dizendo apenas ter procurado perceber como funcionaria a substituição.

Quem está na corrida?

O anúncio da retirada de Platner desencadeou uma verdadeira corrida entre democratas que, na sua maioria, já se tinham candidatado sem sucesso a outros cargos nas primárias de junho. Entre os nomes mais destacados conta-se Troy Jackson, ex-presidente do Senado estadual, com fortes ligações ao movimento sindical e antigo aliado próximo de Platner (com quem partilhava o apoio de Bernie Sanders), tendo já obtido o apoio da organização progressista Our Revolution; a sua proximidade anterior a Platner e um antigo voto contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2009, que entretanto classificou como "o pior voto" da sua carreira, poderão, no entanto, pesar contra si.

Shenna Bellows, atual secretária de Estado do Maine, lançou também a sua candidatura, mas carrega o peso de já ter perdido para Susan Collins em 2014. Nirav Shah, antigo diretor do Centro para Controlo de Doenças do Maine (CDC estadual) durante a pandemia de Covid-19 e que tinha ficado em segundo lugar na primária para governador, entrou rapidamente na corrida, procurando explicitamente herdar o eleitorado populista de Platner, ao ponto de o WiFi do seu evento de lançamento ainda ostentar o nome da rede da sua antiga campanha para governador, e de apoiantes terem improvisado cartazes com fita adesiva a cobrir o nome antigo. Ainda assim, Shah fez questão de recusar qualquer eventual endosso de Platner.

Outros candidatos incluem Dan Kleban, fundador da Maine Beer Company, que tinha abandonado uma candidatura anterior ao Senado para apoiar a governadora Mills; Jordan Wood e Paige Loud, ambos derrotados nas primárias para o 2.º distrito congressional do Maine; David Costello, que tinha ficado em terceiro lugar distante na primária de junho para o Senado; e Andrea LaFlamme, que concorreu como candidata "write-in" na primária. A deputada estadual Valli Geiger, aliada próxima de Platner, manifestou disponibilidade para se candidatar, ainda que sem ter formalizado a intenção — tendo, aliás, havido alguma confusão sobre se contaria ou não com o apoio explícito de Platner, que a sua equipa desmentiu.

Nomes de maior peso nacional, como a deputada Chellie Pingree (cuja candidatura obrigaria a substituir também o seu próprio lugar na Câmara dos Representantes), o presidente da Câmara estadual Ryan Fecteau, e Sara Gideon, que perdeu para Collins em 2020 mas ainda dispõe de 2,4 milhões de dólares em fundos de campanha, são vistos como possibilidades mais remotas. Já o deputado Jared Golden, a presidente do Senado estadual Mattie Daughtry, e, surpreendentemente, o ator Patrick Dempsey, natural do Maine, excluíram-se expressamente da corrida.

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