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As tempestades que recentemente atingiram o Centro do país deixaram um rasto de destruição que se fez sentir muito para além das fronteiras nacionais. Para quatro casais, três emigrantes e um a viver longe, o mau tempo significou um regresso inesperado, dispendioso e emocionalmente desgastante a Portugal, numa corrida contra o tempo para salvar casas, memórias e investimentos de uma vida inteira.
Carlos Mendes e Ana Ribeiro vivem em Zurique há 14 anos. A casa que mantêm em Leiria é o local onde passam férias e onde pensam regressar em definitivo um dia mais tarde. O telefonema de um vizinho mudou tudo. "Disseram-nos que o telhado tinha voado parcialmente e que a água estava a entrar. À distância não há muito a fazer", explica Carlos ao 24notícias.
O casal comprou bilhetes de última hora, com custos elevados, e pediu dias de férias não planeados. "Perdemos dinheiro no trabalho, perdemos dinheiro na viagem e agora estamos a perder dinheiro nas obras", enumera Ana, salientando que "o pior foi chegar e ver quartos alagados, móveis estragados, documentos molhados. Custou-nos muito".
Carlos admite que a sensação de impotência foi avassaladora. "Trabalhamos anos fora para garantir alguma segurança e em poucas horas uma tempestade põe tudo em causa. Sentimo-nos desamparados", salientou.
Em Lyon, vivem Sophie Martins e João Pacheco, ambos emigrados há mais de oito anos. Na Marinha Grande, deixaram a casa herdada dos pais de João, recentemente renovada. "Recebemos vídeos de árvores caídas, muros destruídos e infiltrações graves. Percebemos logo que tínhamos de vir", conta Sophie.
A viagem implicou cancelar compromissos profissionais e assumir penalizações. "Chamam-lhe férias, mas isto não tem nada de férias. Estamos cá para resolver problemas, falar com seguros, empreiteiros, Câmara", desabafa João. Segundo o casal, só nas primeiras 48 horas os custos ultrapassaram vários milhares de euros. "E ainda não sabemos se o seguro vai cobrir tudo. A incerteza é angustiante", concretiza.
Perdemos dinheiro no trabalho, perdemos dinheiro na viagem e agora estamos a perder dinheiro nas obrasAna Ribeiro
Já Sophie, com a voz a tremer, acrescenta que "quem vive fora acha que tem tudo organizado, mas quando acontece uma catástrofe percebemos como estamos vulneráveis".
Pedro Fonseca e Mariana Lopes vivem mais longe, mais concretamente no Canadá, em Toronto, há mais de uma década. Tinham férias marcadas para o verão, mas anteciparam-nas após verem imagens de cheias e ventos fortes em Castelo Branco. "Cada dia que passava era mais um dia de degradação da casa", explica Pedro.
O casal perdeu dinheiro em alterações de voos e alojamento. "É um impacto financeiro grande, mas o emocional é ainda maior. Esta casa representa os nossos pais, os nossos avós”, sublinha Mariana, que, à chegada, confirmou os danos estruturais e problemas elétricos. "Se tivéssemos esperado mais uma semana, os estragos seriam muito piores", salienta.
O marido Pedro, perante esta situação, deixa um alerta ao Governo. "Os emigrantes precisam de mais apoio e informação. À distância é quase impossível agir rapidamente", diz.
Mais de perto viera Rui Nunes e Helena Faria, que vivem no Funchal, mas mantêm uma casa no continente, que também foi afetada pelas tempestades. Apesar de estarem em território nacional, a deslocação não foi simples nem barata. "Tivemos de comprar voos em cima da hora e deixar trabalho para trás", refere Rui, que quando chegou a Leiria percebeu que "os danos eram maiores do que pensávamos.".
Os emigrantes precisam de mais apoio e informação. À distância é quase impossível agir rapidamentePedro Fonseca
Helena fala da frustração. "Sentimo-nos esquecidos. Há muitos alertas, mas quando chega a hora de apoiar quem teve prejuízos, tudo é lento. É um rombo financeiro difícil de gerir", afirma.
As histórias repetem-se em diferentes pontos do Centro do país e revelam uma realidade comum, a dificuldade em proteger património à distância num contexto de fenómenos meteorológicos cada vez mais intensos. Para estes casais, o regresso não foi uma escolha, mas uma necessidade. "Voltamos para tratar de estragos, não para matar saudades", resume Carlos Mendes.
Emigrantes pedem reforço dos apoios financeiros do governo
Os quatro casais reconhecem os esforços do governo português em disponibilizar apoios financeiros às famílias afetadas nas zonas de calamidade, mas pedem que a implementação seja mais célere e abrangente. "O crédito para reparação de habitações e ajuda imediata é essencial, mas tem de chegar rapidamente a todos, especialmente a quem vive fora do país", afirma Carlos Mendes.
Sophie Martins, por sua vez, sublinha a importância de mecanismos claros. "É positivo que o governo já tenha anunciado apoios, mas precisamos de instruções simples e de acesso rápido ao financiamento e seguros. Só assim podemos reparar os estragos antes que piorem", diz.
Pedro Fonseca, do Canadá, diz também que o importante "não é só dinheiro". "É também a logística e a informação de como aceder aos apoios. Estar a milhares de quilómetros torna tudo mais difícil", refere.
Rui Nunes, da Madeira, afina pelo mesmo diapasão. "A ajuda financeira é um passo importante, mas precisa de chegar de forma prática e sem burocracia excessiva. Muitos de nós tivemos de vir às pressas, gastando dinheiro em voos e alojamento, e isso não é contabilizado pelos apoios existentes", conclui.
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