Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

Há viagens que se fazem para chegar a um destino e outras que valem sobretudo pelo caminho. No Comboio Literário, o percurso foi tão importante como a chegada. Desde os primeiros instantes na estação de Santa Apolónia, percebeu-se que aquela não seria uma viagem comum: havia malas aos molhos, leitores nervosos à procura dos seus autores preferidos e carruagens históricas prontas para atravessar o país em direção ao Alentejo.

Durante dois dias, escritores, leitores, jornalistas e organizadores partilharam mesas, histórias, refeições, livros e conversas num ambiente onde a literatura serviu de ponto de encontro para desconhecidos que rapidamente deixaram de o ser.

O 24notícias acompanhou o Comboio Literário e faz o relato da viagem, que pode ser lido na totalidade ou em vários capítulos:

Capítulos:

9 de maio

09h30 — Últimos preparativos

10h23 — O comboio literário parte em direção ao Alentejo

11h58 — Uma paragem antes do tempo

12h35 — Casa Branca e 1050 livros

13h03 — Chegada a Évora. Deixar malas, agarrar em livros e atacar sabores alentejanos

14h50 — Hora de partir rumo ao centro. Mais música e livros

16h33 — Uma biblioteca para fugir à chuva

19h18 — Chegada ao hotel e um jantar literário

10 de maio

09h00 — Um cheirinho a Vila Viçosa, com livros raros

12h42 — Um almoço no seminário e humor real

16h15 — Vai partir o Comboio Literário com destino a Lisboa. E os autores têm algo a dizer

9 de maio: Lisboa-Évora

09h30 — Últimos preparativos

Ainda falta algum tempo para partir o comboio: de Santa Apolónia a Évora estão previstas cerca de duas horas de distância. Os painéis da estação anunciam a viagem especial: um comboio literário.

Nas bilheteiras o reboliço é diferente do habitual, já que todos procuram receber informação da viagem que se segue e não apenas o horário e a linha a que se dirigir. As malas estão prontas, todas com um autocolante identificativo que mostra que vão nesta aventura que junta ferrovia e literatura.

Há quem venha sozinho e fique ainda mais envergonhado a um canto, há quem venha em família ou com amigos. Uma credencial ao pescoço mostra o nome e a carruagem para onde se devem dirigir, assim como o lugar.

Aqui e ali, os leitores começam a identificar os seus autores de eleição que também vão na viagem. Alguns questionam se conseguirão já autógrafos durante o tempo no comboio.

Antes das 10h00, todos são chamados à Linha 5. O comboio aguarda e o entusiasmo cresce. As carruagens 1 e 2 fazem-nos viajar no tempo — são carruagens Schindler, uma azul e outra vermelha, com cerca de 70 anos. Os viajantes sorriem e param para tirar fotografias com esse pano de fundo. A carruagem 3 pertenceu a um Intercidades e traz o bar e a secção de venda de livros. A 4 dá lugar à mesa dos jornalistas e acomoda ainda mais passageiros.

Antes da entrada, novo momento de agitação. Os passageiros procuram a porta por onde devem entrar. A maioria concentra-se perto das carruagens antigas e as vozes multiplicam-se: “Gostava de ir aqui”, “Espero que esta seja a nossa”.

Verificada a carruagem, é tempo de agarrar nas malas e subir os pequenos degraus que conduzem ao comboio dos sonhos literários. Agora não há volta a dar: autores e leitores vão juntos até Évora e o entusiasmo é visível em todos.

(voltar ao início)

10h23 — O comboio literário parte em direção ao Alentejo

Os passageiros acomodam-se nos lugares marcados. A máquina começa a trabalhar, o som ouvido na estação de Santa Apolónia não engana. Lentamente, o comboio desliza sobre os carris.

O ambiente nas carruagens é sereno. Ainda não há grandes conversas entre quem não se conhece. Quem leva amigos ou familiares como companhia vai tecendo comentários. Uns mostram-se expectantes, outros emitem breves resmungos sobre os lugares: ficaram longe de quem conhecem ou preferiam ter ficado nas carruagens históricas. Mas nem isso estraga o otimismo pelo que se segue.

Fátima está sentada num lugar mais reservado do comboio e conta ao 24notícias o que a levou a participar nesta viagem. “Gosto muito de andar de comboio. Gosto muito da cidade de Évora, gosto muito de ler. Juntar as três coisas é o ideal”.

À sua frente está Pilar, uma amiga que alinhou no convite da filha de Fátima para a acompanhar. “Ainda na semana passada estive em Évora, faço parte da organização de um encontro de autocaravanas”, confidencia. Mas desta vez o conceito é outro. “A autocaravana tem a ver com o conjunto de pessoas, é um encontro de amizades, há ali já uma certa familiaridade entre todos. Aqui vimos pelos autores”.

Junto às duas amigas está alguém que repete um nome já dito. É a segunda Fátima naqueles lugares e também não hesita em mostrar que o facto de partilhar o espaço com escritores é o ponto alto. "Achei interessante este conceito de vir num comboio especial para uma zona bonita, como Évora e Vila Viçosa, e poder vir a falar com alguns escritores”.

“Eventualmente vou entusiasmar-me a comprar alguns livros dos autores que ainda não conheço, que ainda não ouvi. E a parte cultural também acho bastante interessante”, acrescenta.

créditos: Alexandra Antunes | MadreMedia

Nos primeiros tempos de viagem, a calma impera. Há sonhos de autógrafos e de conversas, mas ainda é cedo para ganhar coragem. Quem se senta mais perto de escritores começa a trocar as primeiras palavras, mas ainda não há grande circulação entre carruagens para esse efeito. A audácia fica para depois.

No entanto, já há passageiros — tanto leitores como escritores — fora dos seus lugares. A carruagem 3 é o ponto de encontro de muitos, seja pela existência do bar ou da livraria improvisada onde se podem encontrar livros dos 16 autores que participam no evento.

11h58 — Uma paragem antes do tempo

O programa do Comboio Literário previa uma paragem de 25 minutos na estação de Casa Branca, já em pleno Alentejo, ao meio-dia. Porém, o comboio pára antes de se avistar qualquer estação. Há algum tempo que a paisagem mostrava a mudança de região: terras planas, montados sem fim, oliveiras e ervas em tons mais secos.

Pelas carruagens cresce o burburinho. “O que aconteceu? Será uma avaria?", pergunta um passageiro. Mais à frente, outro comenta que é só “mais um dia normal” para quem anda de comboio.

Joaquim é um dos passageiros que aproveitou para ir ao bar a meio da viagem. O copo de vinho na mão denuncia-o. “Estamos a entrar no Alentejo e é o sítio onde há o pior serviço de comboios”, atira.

créditos: Alexandra Antunes | MadreMedia

“Utilizo os comboios todos os dias e há atrasos de duas, três horas, e também falta de lugares. Fui ali à outra carruagem falar com dois colegas que vieram comigo e estávamos a achar piada porque chegámos ao Alentejo e o comboio parou”, conta.

“Fomos apanhar este comboio a Lisboa, mas apanhamos este transporte todos os dias em Vendas Novas para ir trabalhar para Lisboa, é um ótima forma de chegar ao trabalho. Mas tem sempre muitas falhas”, adianta.

Apesar disso, não esconde a paixão por este meio de transporte — o que ainda melhorou aliado à literatura. “Gosto muito do comboio como forma de viajar, como forma de socializar, e como forma de passar bons bocados, que é o que se está a passar agora”.

E vai mais além. “Ter a hipótese de socializar com os nossos escritores é uma coisa surreal, é uma coisa bem interessante. Eu nem sabia que na minha carruagem ia estar um dos meus escritores preferidos. O João de Melo estava ali sentado ao meu lado, primeiro nem o reconheci, só depois de uma conversa. Foi uma experiência bem interessante. E falei com o Daniel Sampaio, que também está na minha carruagem”.

Para o viajante, o comboio é sempre uma boa ideia. “Já fiz uma viagem inspirada no Crime do Expresso do Oriente e o Bernina Express, na Suíça. O comboio é uma forma de chegar aos sítios de forma cómoda, sem ser chateado com o check-in, sem despachar bagagem, apesar dos atrasos, infelizmente”, refere.

(voltar ao início)

12h35 — Casa Branca e 1050 livros

E é pelo ligeiro atraso — que afinal foi provocado por um cruzamento de comboios e não por qualquer avaria — que o tempo de paragem em Casa Branca é encurtado para 15 minutos.

À chegada, o Grupo Coral e Instrumental Flores Do Monfurado recebe o Comboio Literário a cantar e tocar “A moda do meu chapéu”. Os telemóveis no ar são o retrato do entusiasmo de quem sai para o cais apinhado para tentar ver o que está a acontecer.

Mas o objetivo desta pausa no caminho não é a música. Simbolicamente, é entregue um cheque com o valor de “mil e cinquenta livros”. O destino de todas estas obras são as bibliotecas de várias localidades: Escoural, Montemor-o-Novo, Pinhal Novo, Vendas Novas, Almada, Cova da Piedade, Pragal e Cacilhas.

Entregue o cheque e tirada a fotografia da praxe, não há tempo a perder: é preciso retomar a viagem. Que não haja motivos para mais atrasos.

Pedro Moreira, presidente do Conselho de Administração da CP - Comboios de Portugal, não tece comentários durante a viagem quanto às reclamações, mas admite que o país negligenciou a ferrovia ao longo dos anos.

“Portugal esteve em contraciclo com o que se fez na Europa, esqueceu a ferrovia, tanto a infraestrutura como o material circulante. Os comboios mais novos da CP já têm mais de 20 anos, são os comboios do Porto, que foram entregues entre 2002 e 2004, e nós precisávamos de comprar material novo, mas o material novo demora vários anos a comprar e precisávamos de uma estratégia intermédia”, diz em declarações aos jornalistas que se reúnem numa carruagem especial, composta por uma mesa central e cadeirões à volta. Por isso, algumas carruagens antigas foram restauradas nos últimos anos, entre 2020 e 2022, e são uma aposta para viagens especiais como esta.

“Portugal distingue-se na Europa como um dos países que mais investiu na rede de estradas, já na componente da ferrovia ficámos nos últimos. Esquecemos a importância, ou não tivemos a capacidade de antecipar a importância que tem, não só para a mobilidade, mas também para a redução dos gases com efeito de estufa”, diz ao 24notícias.

“Mas voltando atrás, quando o país durante muitos anos tinha infraestruturas escassas e más do ponto de vista da acessibilidade, o comboio é que permitia a efetiva ligação entre cidades, entre as regiões, e para muitas regiões, principalmente no interior, era a única forma de mobilidade. As alternativas seriam andar a pé ou em carroça e demoravam quatro ou cinco vezes mais em trajetos idênticos. Por isso o comboio foi, durante décadas no nosso país, o principal meio de aproximação das pessoas e penso que isso ficou enraizado, mesmo com a modernização”, completa.

créditos: Alexandra Antunes | MadreMedia

Por tudo isto, é notória a nostalgia em grande parte dos passageiros do Comboio Literário. E a CP não tem dúvidas de querer continuar a fazer parte destas viagens, sem querer envolver qualquer componente de negócio. “Enquanto empresa pública, temos alguma responsabilidade de contribuir para este tipo de iniciativas que acabam por enriquecer o país. Mas não quisemos tirar qualquer rentabilidade além de criarmos um produto que vai enriquecer as regiões. É um contributo para a cultura, é um contributo para a história, e a CP já sai a ganhar por estar envolvida neste projeto”.

“Isto tem potencial para fazermos mais serviços por ano em diferentes regiões do país. Estamos convictos de que vai ser muito bem recebido”, remata.

David Lopes, diretor-geral da Leya, é da mesma opinião. “Acho que a palavra turismo é uma consequência daquilo que podemos fazer pela cultura, e não o contrário. Aliás, quando olhamos numa observação mais genérica, os países com maiores hábitos culturais são os países com mais desenvolvimento económico e social. É uma correlação direta”, começa por dizer.

“E, portanto, nós temos de investir é na cultura. Se a qualificarmos, se qualificarmos a oferta, o destino, o universo, o trilho, nós vamos gerar riqueza”, justifica.

Nesse sentido, há planos para outros comboios literários, talvez até “mais do que uma vez por ano”. O futuro o dirá. Mas de várias categorias. “Desta vez, optámos sobretudo pela ficção portuguesa. Temos muitos mais géneros, não é? Temos também autores estrangeiros, temos infantil, banda desenhada, novelas gráficas. Também podíamos ter ido por aí. Mas, como primeira edição, tínhamos de começar por algum lado”.

O sucesso da iniciativa verificou-se rapidamente: os bilhetes — entre os 200€ e os 230€, com transporte, alojamento, refeições e atividades — esgotaram em apenas 14 horas após o lançamento.

“Tivemos 1.500 pessoas em lista de espera. Dava para fazer entre oito a dez comboios”, realça David Lopes. Por isso, uma segunda edição é quase certa, no próximo ano. E quem sabe com foco nos jovens e crianças, para diversificar o público.

(voltar ao início)

13h03 — Chegada a Évora. Deixar malas, agarrar em livros e atacar sabores alentejanos

O modo “vagar Alentejano” está ativado há várias horas, mais não seja pelo vagar que dá o comboio. A chegada a Évora faz-se com entusiasmo. No cais, novo momento musical, desta vez a cargo da Associação Filarmónica Liberalitas Julia.

Enquanto os passageiros saem do comboio, a banda não deixa de tocar. Todos agarram nas malas que vieram de casa e nos livros que compraram. Os passos dirigem-se agora aos três autocarros que estão prontos para levar leitores, escritores, organização e jornalistas até ao próximo destino. Ao todo são 160 pessoas.

À saída da estação de Évora, todos recebem uma indicação prática: as bagagens ficam e serão transportadas diretamente para o hotel. David Lopes brinca com a situação pouco depois: “Despediram-se das malas? Porque dificilmente vão voltar a vê-las”. Há risos à volta e ares pouco preocupados.

Faz vento e frio, mas as previsões são mais animadoras do que a chuva que todos esperavam para a tarde. Para já, isso não importa. As barrigas começam a dar horas.

O almoço faz-se no Monte Alentejano, localizado no Rossio de S. Brás, em Évora. É um equipamento municipal construído em 1970 para a Feira de São João e que acabou por ficar, servindo atualmente para acolher iniciativas promovidas pelo município, bem como outras organizadas por particulares e agentes do concelho.

A arquitetura do edifício não engana: estamos no Alentejo, com as suas casas baixas de risca colorida, amarela neste caso. Lá dentro uma sala ampla repleta de mesas corridas, prontas a receber os passageiros do comboio, e outras mais pequenas com a comida já pronta. Cheira a carne, a migas, pataniscas e enchidos. As paredes mostram fotografias, alfaias agrícolas, pratos decorados com flores e capotes pendurados.

A refeição faz-se com entusiasmo. A culinária alentejana não engana. Com a refeição provada e aprovada, de repente levantam-se as vozes. É o Grupo de Cantares de Évora que traz o Cante Alentejano, reconhecido pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade, até todos. Já o fazem há 47 anos.

Quando se apresentam, evidenciam “o poder da palavra” e a “importância da escrita”. Afinal, música e literatura andam sempre ligadas. “Somos um exemplo vivo do poder que a palavra tem”, diz o porta-voz do grupo. “O que sabemos, aprendemo-lo com os nossos pais e avós”. No fim, é tudo uma questão de “preservação da nossa herança”. Tudo feito com “amor, carinho e entrega”. Tal como a comida que ali serviram.

(voltar ao início)

14h50 — Hora de partir rumo ao centro. Mais música e livros

Depois do almoço, é tempo de ir até ao centro histórico. O grupo é esperado na Sé Catedral de Évora para um concerto de órgão. Uns vão a pé para esticar as pernas, outros preferem apanhar novamente o autocarro.

Para quem percorre as ruelas históricas, o passo é apressado. Há horários a cumprir. Fica um vislumbre para quem quiser voltar. Em frente à Sé, voluntários distribuem um pequeno livro de banda desenhada a todos os participantes: “Missão Tenshō e a Lenda do Bushido Sem Pavor”, de Ana Cláudia Rosado.

Na conversa já no interior da igreja, antes de soar o órgão, percebe-se porquê. “Évora e Japão estão profundamente ligados”, é explicado. E tudo devido à chamada Embaixada Tenshō, a primeira missão diplomática oficial do Japão à Europa, entre 1582–1590, composta por quatro jovens fidalgos cristãos japoneses, com o alto patrocínio dos missionários jesuítas, que pretendeu aproximar o Extremo Oriente do Ocidente e apresentar os primeiros convertidos nipónicos ao Papa. Em 1584, os quatro elementos estiveram em Évora, onde se encantaram com o imponente órgão da Sé Catedral. Nesse ano, um oriental tocou pela primeira vez na Europa neste órgão.

créditos: Leya

Os visitantes também se encantaram com o que viram. Descrita como “o coração da cidade”, a Sé impacta com os seus arcos em ogiva, o janelão, a capela-mor mandada construir por D. João V ao mesmo arquiteto do Palácio de Mafra, com mármores de diferentes cores e a capela lateral de Nossa Senhora do Ó, em talha dourada, que em tempos teve um sino que tocava quando as grávidas davam à luz.

Depois, os visitantes encantaram-se com o que ouviram: Rafael dos Reis, organista, fez a sua magia no órgão do século XVI. A plateia reagia com palmas ao fim de cada composição tocada, mas enquanto a música fluía eram muitos os que a aproveitavam de olhos fechados e sorriso nos lábios.

(voltar ao início)

16h33 — Uma biblioteca para fugir à chuva

Acabada a música, é tempo de voltar aos livros, ou não fosse à volta deles que se construiu esta viagem. O tempo está incerto, as nuvens cinzentas são uma ameaça às sessões de autógrafos e debates literários que deveriam acontecer em plena Feira do Livro de Évora, junto ao Templo de Diana.

Assim, os planos mudam de cenário: a sala de leitura da Biblioteca Municipal de Évora. Forrada a livros até ao teto, parece a todos uma boa opção, não fosse o burburinho causado pela intensa atividade lá dentro: de um lado, autógrafos, do outro as conversas. Os sons misturam-se e confundem-se em certos momentos.

Mesmo assim, há tempo para ouvir Daniel Sampaio, autor de Ninguém Morre Sozinho e Tudo o Que Temos Cá Dentro, a falar sobre a relação entre a literatura e a psiquiatria e também a dificuldade que alguns leitores ainda têm em aceitar obras sobre alguns temas, como o caso do seu livro mais recente, Um Amor Que Não Se Diz, que conta ser o menos vendido porque ainda há quem fuja ao tema da homossexualidade.

Rodrigo Guedes de Carvalho, autor de As Cinco Mães de Serafim ou, mais recentemente, O Meu Primeiro Apocalipse, centra a sua intervenção na necessidade de falar de todos os temas e nota que sempre escreveu — e garante que é jornalista porque não dá para viver só da escrita, ideia também defendida de seguida por Isabela Figueiredo, autora de Um Cão no Meio do Caminho e A Gorda, que não hesita em dizer que há muitos anos pensava que se ganhava a vida com a escrita, mas que hoje sabe que é preciso ter outra profissão em Portugal.

Já João de Melo, autor de Gente Feliz com Lágrimas e A Nuvem no Olhar, fala das viagens literárias que organiza, enquanto Patrícia Portela, que agora lançou Hoje, 3 de Maio, nota que os escritores têm o descaramento de escrever sobre o que não percebem, já que escrever um livro “é fazer uma coisa sobre algo que não sabemos o que é”.

Sobre a atualidade, Ângelo Delgado, autor de Foi o Preto, fala sobre a dificuldade de adaptação dos retornados e de quem nasceu noutro país por ter apenas uma cor de pele diferente e garante que a literatura é também uma ferramenta para tentar perceber de onde vem o racismo até hoje.

Também nessa onda, Susana Amaro Velho, autora de As Últimas Linhas Destas Mãos e Descansos, frisa que é difícil narrar o agora agora, já que a literatura exige tempo e um aprofundar de perceções, pelo que “narrar o agora pressupõe que se olhe para a memória, para a história”.

Entre considerações literárias e da vida em geral, leitores e curiosos deixam-se embeber nas palavras ditas pelos escritores, antes de saírem para um novo momento musical com Luísa Sobral, que publicou recentemente os livros Nem Todas as Árvores Morrem de Pé e Da Minha Janela. O palco é agora o exterior, com o Templo de Diana como pano de fundo. O melhor cenário que já teve a cantora, diz, enquanto canta e conta as histórias dessas composições, provocando risos e sorrisos entre quem assiste.

créditos: Alexandra Antunes | MadreMedia

A chuva deu tréguas até ao fim. Quando os participantes do Comboio Literário tiveram de se deslocar novamente para os autocarros, finalmente caíram umas gotas de água. Mas, ao fundo, brilha um arco-íris, quase como prova do clássico “tudo está bem quando acaba bem”.

(voltar ao início)

19h18 — Chegada ao hotel e um jantar literário

Uma curta viagem de autocarro conduz os 160 passageiros ao Vila Galé Évora. As filas formam-se para o check-in e continuam as piadas sobre as malas. Será que estão no quarto de cada um? A resposta é sim. Tudo pronto para uns minutos de descanso antes da hora de jantar.

Às 20h30, todos descem ao piso -1, onde uma sala está preparada com mesas redondas, com castiçais altos prateados e velas acesas. Em cada mesa fica um escritor. Os leitores escolhem com quem se querem sentar para conversar ao jantar.

Em cima do prato está uma folha com o menu. Notam-se os ares de curiosidade no ar. O jantar tem tema literário, cada prato vem apresentado por uma citação de um escritor português: José Saramago, António Lobo Antunes, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eça de Queirós, Agustina Bessa-Luís e Fernando Pessoa.

A comida vai chegando com um toque gourmet e os comentários à mesa vão surgindo. Mas mais importante do que isso é o clima criado: nota-se a animação no ar, todos conversam. Há tempo para falar de livros, da vida pessoal de cada um — e até para inconfidências de parte a parte, que são recebidas por todos como pequenos tesouros que não se voltam a repetir.

No fim da refeição, João de Melo e Ana Paula Tavares, poetisa angolana e Prémio Camões 2025, declamam poesia. Uma boa forma de acabar o primeiro dia.

(voltar ao início)

10 de maio: Évora-Vila Viçosa-Lisboa

09h00 — Um cheirinho a Vila Viçosa, com livros raros

Tomado o pequeno-almoço, é tempo de partir de autocarro para Vila Viçosa, em direção ao Paço Ducal. O grupo é dividido em três, para a visita acontecer de forma mais simples, até pelo tempo reduzido para a mesma, que ainda se sobrepõe a um debate literário no Cineteatro de Vila Viçosa, sobre romances históricos.

Todos vão ver as três secções pensadas para os participantes do Comboio Literário: o andar real, a exposição com parte do espólio da Rainha D. Amélia e uma mostra da biblioteca da Casa de Bragança.

O andar real dispensa apresentações. Há salas e salas repletas dos últimos objetos da Casa Real Portuguesa. Capítulos de história, uns a seguir aos outros, entre salas e quartos. Os visitantes passam o tempo a rodar a cabeça: do chão ao teto, passando pelas paredes, tudo é arte e vale a pena observar.

Já na exposição sobre D. Amélia o olhar vai mais ao detalhe. Há carteiras, medalhas, terços, mechas de cabelo da rainha e dos filhos e algumas peças de roupa. Cartas escritas e muitas aguarelas pintadas pela rainha, a maioria de motivo botânico.

Mas é a parte da visita centrada na biblioteca que conquista o coração dos leitores e escritores do Comboio Literário. Na impossibilidade de visitar o espaço que guarda os 60 mil volume existentes, divididos entre a Biblioteca D. Manuel II e o Fundo Geral, o bibliotecário da Casa de Bragança fez uma seleção de livros para mostrar aos visitantes.

Ali estão eles, praticamente à mão de semear, em cima de um mesa no centro de uma pequena sala. Os olhares arregalam-se a há vontade de tocar em tudo, passar aquelas páginas com centenas de anos. Há uma bíblia manuscrita, medieval, um estudo em que se defende que no dia da morte de Cristo houve um eclipse total em toda a terra, um almanaque perpétuo, muito usado nos Descobrimentos, um livro com temas feministas, impresso pela rainha D. Leonor, livros de cavalaria, um deles escrito por uma mulher, D. Leonor Coutinho, a primeira edição d’Os Lusíadas, uma edição contrafeita e uma mais pequena, conhecida como edição dos piscos, que é ainda mais valiosa do que todas as outras, por ter um erro de interpretação do comentador. Entre muitas outras obras do rei que ia ficando soterrado em livros.

No fim da visita, todos querem tirar fotografias às obras e trocar mais dois dedos de conversa com o bibliotecário. Provavelmente todos ficavam em volta da mesa e dos livros o resto do dia, mas os planos continuam e, novamente, há manjares alentejanos à espera do Comboio Literário.

(voltar ao início)

12h42 — Um almoço no seminário e humor real

O Seminário de São José, mesmo em frente ao Paço Ducal, acolhe os viajantes para a última refeição em terras alentejanas. As mesas dividem-se por uma sala e pelas arcadas do claustro. A comida chega quente e convidativa, há cozido de grão e migas com carne.

Já depois da sobremesa — sericaia, ameixas e arroz doce —, o palco improvisado é tomado pelo escritor Hugo Van Der Ding, autor de Uma Família Surreal, obra que traz a história da nossa monarquia e onde o rigor rima com humor.

De forma rápida, o escritor, entre ataques de riso, percorre de forma rápida a história de Portugal, com foco no que acontece após Alcácer-Quibir, com o domínio espanhol e posterior restauração da independência, com o início da dinastia de Bragança.

créditos: Leya

O autor, que não viajou no comboio até Évora, era uma das caras mais esperadas pelos leitores. Durante a viagem, muitos leitores aproveitaram para comprar o último livro, como foi o caso de Fernanda.

“Apetece-me rir, é humorístico. Neste momento é o que precisamos. E histórias de famílias reais não interessam para nada a não ser assim com um certo humor, não é?”, questiona com um sorriso a professora de português, agora já reformada, ao 24notícias.

Maria Eduarda também comprou a mesma obra e começou e lê-la no comboio, com a esperança de depois conseguir um autógrafo de Hugo Van Der Ding, o que acabou por conseguir depois de ouvir o autor e de muito se rir com ele . “Sou mesmo fã, foi uma das coisas que me fez vir nesta viagem”, confidencia.

Mas o tempo do almoço também serviu para se conhecerem duas histórias. A primeira é a de Beatriz e devia ter ficado em segredo, mas David Lopes preferiu desvendar a surpresa: a participante entregou à organização um autocolante com a fotografia do comboio e a mensagem “Eu fui”.

“A ideia inicial era fazer só para mim. Tenho uma amiga que tem uma loja que faz coisas destas e depois pensei que era interessante fazer para todos, mas não queria que se soubesse. Lá me fizeram essa partida”, conta depois ao 24notícias.

A segunda história foi a de Inês, uma das participantes mais novas, que recebeu a viagem como prenda de anos adiantada — fez 20 anos na segunda-feira seguinte — e que foi considerada exemplo entre o grupo de leitores.

créditos: Alexandra Antunes | MadreMedia

Veio de Vila Nova de Gaia com os pais e estava muito entusiasmada pela experiência. “Nunca tinha participado numa iniciativa destas. Nem em trajetos literários, nem nada do tipo. Mas superou qualquer expectativa que eu podia ter, porque deu para conviver muito com os autores e perceber que no fundo eles são todos pessoas como nós. E eu gostei muito desse convívio”, afirmou em balanço ao 24notícias.

A mãe, Paula, justifica a prenda que deu à filha. “Ela é uma leitora compulsiva. Nós compramos livros todas as semanas, portanto temos centenas, se não milhares, de livros em casa. Não sai um dia de casa sem um livro. Portanto, pareceu-me que era uma das prendas que poderíamos oferecer, sobretudo pela experiência de proximidade com autores”.

Terminada a sessão e as histórias, é tempo de ir para a última parte da viagem. O regresso ao comboio e, depois, a Lisboa.

(voltar ao início)

16h15 — Vai partir o Comboio Literário com destino a Lisboa. E os autores têm algo a dizer

Passada a viagem de autocarro entre Vila Viçosa e Évora, o comboio espera na linha. As carruagens estão dispostas de maneira diferente, com outra ordem, e os passageiros baralham-se com a porta por onde devem entrar, mas até isso é pretexto para mais conversas com os escritores que vão encontrando pelo caminho.

Bagagens arrumadas, começa o reboliço. Muitos leitores levam livros debaixo do braço e correm à procura dos autores, num último esforço de ter o autógrafo pretendido. Há quem vá fazer compras de última hora à livraria improvisada. Há livros que esgotaram, fica para uma próxima. Lá fora, ouve-se o aviso na estação: vai partir o Comboio Literário com destino a Lisboa.

Patrícia Portela assina mais um livro antes de falar aos jornalistas. Nota-se que já há cumplicidade entre todos. Mais um dia de viagem e saíam dali amigos para a vida, se já não saíram.

“É muito interessante aproximar os leitores e os escritores desta maneira desprendida. Para já, o mais difícil de fazer é viajar em conjunto. Mas, ao mesmo tempo, também é o que nos aproxima mais, porque há sempre peripécias. Estamos a falar não só com leitores nossos, mas com leitores de outros autores. E eu acho que é muito importante ter essa sensação de comunidade”, começa por dizer.

Quanto às peripécias, fala na entrada atribulada no comboio. “É uma coisa que acontece sempre nos comboios, que é toda a gente sentar-se num lugar errado. E acho piada que nós temos um comboio só para nós, e estava toda a gente muito preocupada em sentar-se no lugar certo. Acho extraordinário, é uma coisa que não acontece nos comboios normais”, diz a rir.

A escritora Maria João Lopo de Carvalho, autora de História de Portugal de Cor e Salteada e O Estoril Não Caiu do Céu, nota que a experiência é diferente daquilo a que está habituada. “Estou com leitores três vezes por semana, numa escola, numa biblioteca, num jantar de escritores, num evento. E aqui encontrei muitas professoras, pessoas com uma cultura vastíssima, pessoas que lêem dez vezes mais do que eu leio”, considera.

“Houve tempo para me conhecerem, para verem a minha loucura”, diz entre risos. “Também é bom que os livros sejam divertidos” — e que tragam “momentos de alegria, de divertimento, de humor”.

Francisco Moita Flores, autor de A Fúria das Vinhas e Agora e Na Hora da Nossa Sorte, diz ao 24notícias que foi gratificante ver tantos leitores a quererem conhecê-lo. “Foi muito positivo. É muito bom falar com as pessoas, conhecermos quem nos lê. A gente quando escreve, escreve na invisibilidade. E escreve para o etéreo, para o céu. Porque não conhecemos quem vai nos ler. E depois isto devolve-nos à realidade, conhecendo quem nos lê”.

Rodrigo Guedes de Carvalho, em jeito de balanço, nota que foi mais do que um encontro à volta da literatura. “Falou-se de livros, mas falou-se de muita mais coisa. Falámos das nossas famílias, das nossas vidas, dos nossos empregos, e nesse aspeto é uma oportunidade que é criada nesta iniciativa”.

E compara o ambiente entre a viagem de ida e agora a de volta. “Há conversas que já tínhamos iniciado e que continuamos aqui. E há um espírito muito maior de camaradagem. Na viagem inicial ainda havia ali alguma vergonha, mas o gelo foi-se quebrando muito, muito rapidamente”.

“Há uma coisa que nós não devemos esquecer: as pessoas que estão a bordo deste comboio não são pessoas quaisquer, ou seja, não são pessoas que entraram um dia em Santa Apolónia por acaso. São pessoas que souberam qual era a iniciativa, souberam quais eram os autores que vinham. Portanto, são pessoas que, à partida, gostam de nós, gostam da nossa obra. E estão familiarizadas, não com a obra de todos, mas com a obra de alguns. Trata-se, portanto, de um certo tipo de pessoa que está aqui dentro”, evidencia ao 24notícias.

“Em termos de convívio, isto é mil vezes melhor do que a Feira do Livro. Lá é uma coisa mais mecânica, mais comercial. O tempo é outro. Mesmo que uma pessoa não tenha fila, não dá para as pessoas chegarem lá, sentarem-se, falarem muito. É impensável termos um tempo de qualidade, mas hoje tive hoje cinco ou seis pessoas à mesa, a gargalhada durou duas horas”, conta.

Créditos: Leya

Entretanto, o comboio continua a deslizar nos carris. De repente, já se está sobre o Tejo outra vez. O ponto de partida está próximo. Joaquim, o passageiro que à ida brincou com a questão dos atrasos, não tem agora nada a apontar. Nem sobre toda a viagem.

“Senti que nesta viagem éramos todos leitores. Não havia escritores, não havia jornalistas, não havia patrocinadores. Havia pessoas que gostam de ler e o diálogo foi fluindo entre todos”, conclui, numa frase que podia ter sido assinada por todo o grupo. E à chegada a certeza de todos os leitores é só uma: tem de haver próxima edição.

(voltar ao início)

(O 24notícias viajou no Comboio Literário a convite da Leya.)

___

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.