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As ecografias emocionais em 3D, 4D e 5D ganharam popularidade nos últimos anos, sobretudo entre futuros pais que procuram uma experiência mais próxima e visual da gravidez. Promovidas como uma oportunidade para ver o rosto do bebé antes do nascimento, estas sessões multiplicam-se em unidades privadas e nas redes sociais, apesar de não terem finalidade clínica e de continuarem a levantar dúvidas entre especialistas e entidades reguladoras.

Sara Plácido estava grávida do primeiro filho e quis ver o seu bebé num destes exames. "Era tudo novo. Estava curiosa e queria experimentar fazer uma dessas ecografias", diz ao 24notícias.

"Achei muito mais interessante do que fazer uma ecografia tradicional. Não me recordo exactamente do que senti porque o meu foco era sempre ouvir que estava tudo bem, mas lembro-me de achar que na perspetiva do casal todas as ecografias deviam ser assim por defeito, porque é muito mais giro e também é mais fácil de perceber. Nas ecografias tradicionais é muito mais difícil perceber bem o que se está a ver. Temos sempre de perguntar ao médico", nota.

"Se tiver mais filhos, sem dúvida que quero voltar a fazer uma ecografia dessas. Para mim a principal mais-valia foi ter ficado com a gravação da ecografia, que acho que é uma recordação super bonita", realça.

No entanto, houve o cuidado de escolher um local seguro para tal exame. "Eu vivo no estrangeiro há vários anos, mas vim passar férias a Portugal no segundo semestre da gravidez, precisamente durante aquele período em que é preciso fazer a ecografia morfológica do segundo trimestre, pelo que decidi aproveitar para fazer essa ecografia".

Por isso, não houve qualquer receio durante o processo. "Fiz o exame com a ginecologista que me segue desde a adolescência e teria tido o meu filho com ela se vivesse em Portugal. Como sempre, a minha ginecologista ia explicando tudo o que estava a ver, e isso também me deu uma enorme sensação de conforto e confiança".

Já Cátia Magro não sentiu necessidade de recorrer a este tipo de ecografias de forma isolada, por mera curiosidade. "A ecografia 3D é algo que o médico que está a fazer as ecografias pode ligar ou não a nosso pedido. Por isso, pedimos na última ecografia da minha gravidez para conseguirmos ver a nossa filha de forma mais clara", conta ao 24notícias.

"O facto de ser 3D não tornou mais emocional, apenas nos deu uma visão mais clara da nossa bebé, o mais importante foi mesmo a ecografia de diagnóstico em si", reforça. Por isso, tudo aconteceu de forma natural. "Foi onde estava a ser seguida pelo meu médico", nota, reforçando que considera que este exame não tem qualquer mais-valia relativamente às ecografias tradicionais.

Lado emocional: o desejo de ver o bebé antes do nascimento

Irina Ramilo, ginecologista/obstetra no Hospital Lusíadas Lisboa e dirigente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, diz ao 24notícias que "a procura por ecografias emocionais em Portugal tem aumentado nos últimos anos, sobretudo no setor privado, mas continua a ser uma prática não-clínica, fora das recomendações oficiais e alvo de alertas do regulador".

Segundo explica, as diferenças entre estas ecografias e os exames tradicionais começam logo na finalidade. "As ecografias tradicionais são exames médicos. As ecografias emocionais são produtos de entretenimento", afirma.

Enquanto as ecografias convencionais têm objetivos clínicos — como avaliar o crescimento fetal, detetar malformações ou monitorizar placenta e líquido amniótico — as versões emocionais destinam-se essencialmente a "ver a cara do bebé, gravar vídeos, criar memórias".

"As ecografias emocionais (3D/4D/5D) têm objetivo exclusivamente emocional", explica, acrescentando que "não fazem diagnóstico, não substituem qualquer ecografia clínica".

A popularidade destas sessões tem sido impulsionada pela qualidade das imagens, pelos preços acessíveis e pela forte presença nas redes sociais. "O desejo dos pais de ‘ver o bebé’ com maior detalhe, a qualidade de imagem, preços relativamente acessíveis e a forte presença nas redes sociais e marketing emocional fez com que se tornassem mais frequentes", refere.

O "risco de falsa sensação de segurança"

A especialista sublinha que a tecnologia 3D e 4D só apresenta vantagens reais quando usada com indicação médica. "As ecografias 3D/4D podem ter vantagens médicas reais, mas não nas versões emocionais, que são otimizadas para estética e não para diagnóstico", explica.

A especialista aponta utilidade clínica em situações específicas, como "fenda labial/palato, anomalias da coluna, cardíacas e dos membros como a deteção de polidactilia, sindactilia, deformidades".

Por outro lado, alerta para o risco de falsa sensação de segurança. "Uma grávida pode ver um bebé ‘perfeito’ numa ecografia emocional e achar que está tudo bem. Mas a imagem 3D bonita não avalia coração, cérebro, rins, coluna, placenta, crescimento, Doppler".

Embora a ecografia seja considerada segura quando realizada com indicação médica e parâmetros controlados, existem preocupações relacionadas com o uso inadequado destas sessões recreativas. "O risco não é zero — mas é sobretudo um risco de uso inadequado, não da tecnologia em si", afirma.

Segundo explica a obstetra, operadores não médicos podem não monitorizar adequadamente o tempo de exposição, aquecimento dos tecidos ou cavitação, além de utilizarem "presets de alta potência para melhorar a estética".

Ainda assim, reforça que "não há evidência de danos comprovados causados por ecografias 3D/4D quando usadas adequadamente", mas lembra que "as sociedades científicas (ISUOG, ACOG, ERS) são unânimes: evitar ecografias sem indicação médica".

O que diz o regulador em Portugal e como encontrar um local seguro para estas ecografias

Em dezembro de 2025, a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) emitiu um parecer onde defende que estas ecografias não devem "assumir finalidades meramente recreativas ou lúdicas, nomeadamente para mera visualização ou gravação de imagens do feto".

De acordo com o regulador, estas ecografias só podem ser realizadas em estabelecimentos registados na ERS e devidamente licenciados como Unidades de Radiologia ou Clínicas ou Consultórios Médicos. Estes locais devem cumprir todos os requisitos mínimos definidos nas respetivas Portarias, incluindo a obrigatoriedade de os exames serem efetuados por profissionais de saúde legalmente habilitados.

O organismo recorda que o incumprimento das normas legais pode constituir contraordenação. A realização desta atividade fora dos parâmetros estabelecidos pode levar à abertura de processos sancionatórios. Também o funcionamento de estabelecimentos não registados ou sem licença para a tipologia de atividade exercida é punido com coimas.

De acordo com Irina Ramilo, "na esmagadora maioria dos casos, estas ecografias são efetivamente promovidas e realizadas com finalidade recreativa".

O parecer da ERS surgiu após denúncias relacionadas com "publicidade enganosa de clínicas, oferta crescente de ‘ecografias 5D’, ‘sessões família’, ‘vídeo HD do bebé’, etc., ausência de relatório clínico, realização por operadores não médicos e uso de ultrassons sem indicação médica", realça.

Quanto à regulamentação, a especialista esclarece que não existe uma lista oficial de locais autorizados especificamente para realizar ecografias emocionais — mas há como chegar aos procedimentos de forma segura.

"Não existe em Portugal uma lista pública, oficial e centralizada de locais 'autorizados' para fazer ecografias emocionais, porque a própria ERS não reconhece a categoria 'ecografia emocional' como ato de saúde válido. O que existe é o inverso: todas as ecografias, mesmo as 3D/4D/5D, são consideradas atos de saúde e só podem ser feitas em unidades licenciadas, com supervisão médica e emissão de relatório", frisa.

"Isto significa que não há uma lista de locais onde fazer ecografias emocionais em segurança — há sim uma lista de unidades de imagiologia licenciadas, e é aí que a grávida deve procurar se quiser garantir segurança e enquadramento legal", justifica a médica.

Por isso, "a ERS não pode publicar uma lista de 'locais seguros para ecografias emocionais', porque isso equivaleria a legitimar uma prática que o regulador considera inadequada", conclui.

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