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O documento, obtido pelo site The Pillar e confirmado pelo Expresso, foi dirigido a Libero Milone, então auditor-geral do Vaticano, com a instrução de realizar uma investigação “imediata e urgente” e apresentar uma proposta de reforma para o sistema.

“No início desta semana chegou-me ao conhecimento um risco potencialmente significativo no processamento de transações SWIFT”, escreveu o cardeal George Pell. “Fui alertado para um pedido da APSA para alterar os controlos do sistema SWIFT. O pedido parece ser no sentido de o ordenante dos fundos poder ser alterado para mascarar a sua verdadeira identidade.” George Pell acrescentou que, apesar de ter travado de imediato a implementação da mudança, no dia seguinte recebeu informação que demonstrava que “já houve transações feitas de forma a esconder a verdadeira identidade do ordenante”.

O cardeal anexou registos de pelo menos uma transferência suspeita, avisando que “poderão existir outras” e ordenando ainda uma cópia de segurança externa da base de dados SWIFT. “Na luz destas questões significativas e dos riscos de as transações poderem ter sido processadas de forma potencialmente ilegal, remeto este material e peço uma investigação imediata e urgente”, concluiu.

Segundo várias fontes citadas por The Pillar, a auditoria identificou múltiplas transações de contas privadas na APSA disfarçadas como operações de contas soberanas do Vaticano, o que, segundo os auditores, “poderá ter facilitado a fuga a milhões de euros em impostos”. Um responsável envolvido no processo descreveu as conclusões como “arrasadoras”: “Apontava para casos concretos e deixava pouca margem para interpretação. Estávamos perante comportamento criminal. Poder-se-ia chamar fraude bancária”.

Estas alegações surgiram poucas semanas depois de a APSA ter sido retirada da supervisão internacional, na sequência de reformas iniciadas pelo Papa Francisco em 2013. Apesar de, em 2015, a instituição ter deixado de ser formalmente considerada uma entidade financeira ativa, comprometendo-se a encerrar contas privadas e a não realizar operações comerciais para clientes externos, as conclusões de George Pell indicam que tais práticas poderão ter continuado, inclusive com métodos que violavam as regras internacionais.

Ed Condon, editor do The Pillar, disse ao Expresso: “Não temos razões para acreditar que isto continuou, nem temos razões para acreditar que parou. (…) Não temos forma de saber, porque o Vaticano não está disposto a ser transparente sobre questões financeiras, sobretudo quando se tornam polémicas”. Para o jornalista, parte do problema reside numa “cultura interna” que não encara estas práticas como corrupção, argumentando que não há benefício pessoal direto para funcionários do Vaticano.

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O episódio acabou por marcar o início do declínio das reformas financeiras na instituição. Libero Milone foi forçado a demitir-se em 2017 pelo cardeal Angelo Becciu, mais tarde condenado por corrupção, enquanto George Pell saiu em 2019 para enfrentar acusações de abuso sexual na Austrália, das quais viria a ser absolvido pelo Supremo Tribunal.

Especialistas ouvidos pelo Expresso alertam que a comprovação de adulteração de registos SWIFT e de operações comerciais para clientes privados, após o compromisso formal de cessar essa atividade, poderia levar o Vaticano a perder o seu estatuto internacional de jurisdição financeira fiável e até colocá-lo novamente numa “lista negra” sujeita a sanções e vigilância reforçada.