Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Deixou de ser um tema reservado à ficção científica para se afirmar como um dos grandes movimentos científicos, económicos e até políticos do século XXI. Nos últimos anos, o investimento em tecnologias da longevidade disparou, as startups multiplicaram-se, os congressos dedicados ao tema crescem por todo o mundo e até líderes globais manifestam um interesse pessoal em prolongar a própria vida.
Mas, numa era em que os procedimentos estéticos se tornaram banais e o culto da juventude domina a cultura popular, há uma diferença cada vez mais evidente entre parecer jovem e estar verdadeiramente saudável. Afinal, de que serve ter o aspeto de quem tem 30 anos se o coração já acusa o desgaste dos 60?
Putin, Xi e o sonho da imortalidade
Em setembro de 2025, durante um desfile militar em Pequim, uma conversa captada por um microfone ligado por engano revelou Vladimir Putin a dizer a Xi Jinping que “os órgãos humanos podem ser constantemente transplantados, a tal ponto que as pessoas podem ficar mais jovens, talvez até imortais”. Xi respondeu: “Até o fim deste século, vai ser possível viver até os 150 anos.”
O episódio, relatado pelo The Guardian, expôs uma faceta pouco explorada da geopolítica contemporânea: o fascínio de governantes por tecnologias de prolongamento da vida não apenas como expressão de vitalidade pessoal, mas também como símbolo de poder e continuidade.
Segundo o jornal britânico, Putin é obcecado pela ideia de viver mais. O seu círculo mais próximo inclui investigadores que trabalham em bioimpressão de órgãos e terapias de regeneração celular, entre eles Mikhail Kovalchuk, que lidera institutos financiados pelo estado russo. A sua filha, Maria Vorontsova, endocrinologista, dirige projetos ligados à genética e longevidade. A elite russa vê na biotecnologia uma promessa de soberania sobre o corpo e sobre o tempo.
O homem que quer voltar a ter 18 anos
Mas não são só os políticos que têm esse desejo. Uma das figuras mais mediáticas da longevidade é o milionário americano Brian Johnson, criador do controverso protocolo Blueprint. Aos 47 anos, Johnson transformou o próprio corpo num laboratório vivo, guiado por uma rotina quase militar: acorda às 4h30, faz exercício uma hora por dia, segue uma dieta vegana de 2250 calorias, não consome álcool nem açúcar e toma 54 comprimidos diários, entre vitaminas e medicamentos.
Além de treinar o corpo, Johnson quer perpetuar a mente. Afirma estar a “transferir a consciência” para um modelo de inteligência artificial que replica o seu pensamento e comportamento. “É a primeira vez que vemos a imortalidade nascer”, declarou. “As mudanças que veremos com a IA serão tão drásticas e acontecerão muito mais rápido do que o prazo previsto de 40 a 50 anos que me resta.”
O Bryan AI, está a ser usado para criar uma versão digital de si próprio. Este sistema está a ser treinado com milhares de horas das suas conversas gravadas, textos, entrevistas e pensamentos. Johnson defende que a consciência de uma pessoa pode sobreviver para além do corpo.
A mulher que chegou perto dos 120 anos
Em contraponto à procura tecnológica e artificial, a biologia da longevidade tem estudado pessoas que vivem mais de 100 anos. O caso de Maria Branyas Morera, que viveu até aos 117 anos, tornou-se objeto de investigação científica. O que é que o seu genoma podia revelar sobre o envelhecimento e a capacidade de evitar doenças que afetam tantas outras pessoas?
Perguntas como estas estiveram no centro de um estudo publicado na revista Cell Reports Medicine, recolheu amostras de sangue, saliva, urina e fezes de Maria Branyas e comparou com o de 75 outras mulheres ibéricas. O estudo concluiu que esta mulher viveu tanto tempo graças a uma combinação de “loteria genética”: apresentava genes raros que a protegiam de doenças comuns relacionadas com a idade, aliados a um estilo de vida saudável. Tinha um microbioma intestinal jovem e anti-inflamatório, associado ao consumo diário de iogurte, e seguia um estilo de vida mediterrânico ativo, equilibrado e socialmente conectado. Tinha um microbioma intestinal jovem e anti-inflamatório, associado ao consumo diário de iogurte. Seguia um estilo de vida mediterrânico, ativo, equilibrado e socialmente conectado.
Apesar da forte componente genética, o estudo reforça a ideia de que longevidade não é apenas genética, mas também comportamental e ambiental um equilíbrio entre biologia, rotina e bem-estar psicológico.
O conceito de “ilha de longevidade” ou Blue Zones
Enquanto a biotecnologia investe na longevidade passiva (prolongar os anos de vida com medicina avançada), a ciência também olha para longevidade ativa, estudando regiões chamadas “ilhas de longevidade” ou Blue Zones. Estas são áreas onde as pessoas vivem mais tempo do que a média global mantendo uma boa saúde física e mental até idades avançadas. Com menos cancro, doenças do coração e até demência em relação a outros países.
Exemplos destas “Blue Zones” são as ilhas: Okinawa (Japão), Sardenha (Itália), Icária (Grécia) e Nicoya (Costa Rica).
Em contraste, regiões modernas com elevada esperança de vida, como Abu Dhabi e a Suíça, podem apresentar a chamada “longevidade passiva”, ou seja, vive-se muitos anos devido a recursos médicos avançados, mas frequentemente com doenças crónicas, sedentarismo ou dietas menos saudáveis. Ou seja, há mais anos de vida, mas nem todos são vividos com saúde e vitalidade.
O “direito a tentar”
Alguns territórios estão mesmo a tentar flexibilizar a regulação para acelerar o avanço científico nesta área. O estado norte-americano de Montana tornou-se um exemplo paradigmático ao expandir a sua lei de Right to Try “direito a tentar”, que permite o acesso a terapias experimentais ainda não aprovadas pela FDA.
A lei, atualizada em 2025, autoriza qualquer paciente, e não apenas os terminais, a recorrer a tratamentos experimentais em clínicas licenciadas. As empresas de biotecnologia veem nisso uma oportunidade de obter dados do mundo real com menos entraves burocráticos, mas os críticos alertam para riscos éticos e de segurança.
Segundo o The Wall Street Journal, Montana poderá transformar-se num polo de turismo médico e de biohacking. A partir de 2026, centros especializados deverão começar a operar sob o novo quadro regulatório, que exige consentimento informado dos pacientes mas deixa espaço para debates profundos sobre os limites entre esperança terapêutica e experimentação humana.
Uma área em crescimento
A longevidade está a tornar-se um dos setores mais promissores da biotecnologia, o desejo de viver muito tempo é cada vez mais comum entre os humanos que ambicionam cada vez mais ser indestrutíveis. Em 2024, o investimento global em empresas dedicadas ao envelhecimento saudável mais do que duplicou, atingindo 8,5 mil milhões de dólares, um aumento de 220% em relação ao ano anterior, segundo dados da Longevity.Technology
Entre os exemplos de destaque:
- Midi Health, startup norte-americana focada na saúde da mulher durante a menopausa, levantou 50 milhões de dólares em ronda Série C.
- Clinique La Prairie, grupo suíço de bem-estar, criou um fundo de 100 milhões de euros para apoiar empresas de tecnologias da longevidade.
- Genflow Biosciences, da Bélgica, recebeu 4 milhões de euros para desenvolver terapias genéticas que visam atrasar o envelhecimento.
Em Portugal, o setor também dá sinais de crescimento. Embora a maioria das startups atue em áreas digitais, começa a atrair uma geração de empresas focadas em saúde preventiva, bem-estar e biotecnologia da longevidade.
Por cá…
Esta quinta-feira, está a decorrer no Centro de Congressos da Alfândega do Porto, o NEXii Longevity Congress. Um evento que reúne startups, investidores e investigadores de todo o mundo com objetivo de posicionar Portugal como um hub europeu de inovação na longevidade, através de debates sobre saúde, economia e tecnologia da vida longa.
Entre as organizações presentes existem soluções nacionais como:
- A Ablute é uma PME portuguesa inovadora, sediada em Viana do Castelo, especializada no desenvolvimento de soluções tecnológicas para a saúde. A empresa criou uma retrete inteligente que integra análises de urina em tempo real, permitindo monitorizar indicadores de saúde como gravidez, lesões musculares e sinais de envelhecimento.
- Fetalix (FetalDisc, Lda) é uma startup biotecnológica sediada no Porto, que desenvolveu um biomaterial regenerativo inspirado em tecidos fetais para tratar a dor lombar.
A sua solução é aplicada de forma minimamente invasiva — o biomaterial pode ser injetado na coluna vertebral, tanto em fases iniciais como mais avançadas da degeneração do disco intervertebral. O produto promete restaurar funcionalmente o disco, reduzindo a necessidade de cirurgias, diminuir o tempo de intervenção em cerca de 90% e de internamento hospitalar em cerca de 70%.
- A Wild Curiosity Lda. é uma empresa portuguesa sediada em Coimbra, focada no desenvolvimento de soluções auditivas acessíveis e de alta qualidade.
A sua missão é democratizar o acesso a aparelhos auditivos, utilizando eletrónica de consumo comum, como auriculares padrão e smartphones. A empresa oferece o aplicativo LYNX, que permite o diagnóstico da perda auditiva, a criação de perfis auditivos personalizados e a compensação em tempo real, sendo gratuito, com uma versão Premium disponível.
Além destas vão estar presente soluções internacionais com apresentações ao vivo:
- REGEnLIFE apresenta um dispositivo não-invasivo que estimula o eixo intestino-cérebro, com foco no Alzheimer e na neuroproteção. No congresso, a empresa vai mostrar a tecnologia, os dispositivos e resultados clínicos iniciais.
- ALL Changing Lives vai demonstrar a sua plataforma digital para cuidados de demência, com apresentação ao vivo, poster interativo e demonstrações da aplicação, incluindo calendários de cuidados, memory albums e dashboards.
- Eclipsia fará a estreia mundial do protótipo Eclipsia Band v2.0 e apresentará uma demonstração em vídeo da aplicação, que ajuda a equilibrar exposição solar, proteção da pele e níveis de vitamina D.
- WLNX vai demonstrar a sua plataforma digital de saúde, mostrando como transforma dados de wearables, exames e rotinas diárias em orientações adaptativas de nutrição, movimento e recuperação
Portugal entra, assim, na vanguarda de um movimento que promete redefinir o futuro da saúde e talvez o próprio conceito de envelhecer. Será que vamos ser a primeira geração onde o cancro é tratado como uma doença crónica?
Comentários