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Portugal realizou 83.089 partos em 2025, mais 3,6% do que no ano anterior, segundo a monitorização da atividade das unidades de obstetrícia e neonatologia divulgada pela Entidade Reguladora da Saúde (ERS). O Serviço Nacional de Saúde assegurou cerca de 80% dos nascimentos, mas a taxa global de cesarianas voltou a fixar-se nos 39%, exatamente o mesmo valor registado em 2024.
A leitura dos dados revela, porém, uma diferença significativa entre os setores público e privado. Enquanto no SNS um em cada três partos ocorreu por cesariana (33%), nas unidades privadas esta percentagem atingiu os 62%. Também o tipo de intervenção varia: no SNS predominam as cesarianas urgentes ou emergentes, ao passo que nos hospitais privados a maioria corresponde a cesarianas programadas.
Para Fernando Cirurgião, diretor do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de São Francisco Xavier e também obstetra no Hospital Lusíadas Lisboa, estes números justificam reflexão, mas não podem ser analisados de forma simplista.
"A taxa de cesarianas já nos últimos anos tem vindo a preocupar-nos enquanto clínicos", admite ao 24notícias. Ainda assim, alerta que comparar instituições sem ter em conta o perfil das grávidas pode conduzir a conclusões erradas.
Afinal, nem todos os hospitais recebem o mesmo tipo de utentes. Existem maternidades com apoio neonatal básico e outras, classificadas como centros perinatais diferenciados, que recebem grávidas de todo o país com situações particularmente complexas, como é o caso do São Francisco Xavier.
"Depressa temos uma grávida com 25 ou 26 semanas, com uma gravidez de muito elevado risco. Nestas situações é muito previsível que seja necessária uma cesariana", explica.
É por isso que considera impossível comparar diretamente todas as maternidades ou estabelecer metas rígidas iguais para todas.
"Não basta saber que um hospital fez mais de 30% de cesarianas. É preciso perceber onde é que elas aconteceram e onde é que há margem para melhorar"
Muito mais do que uma percentagem
O obstetra lembra que a taxa de cesarianas é há vários anos utilizada como um indicador da qualidade dos cuidados prestados pelos hospitais e chegou mesmo a integrar objetivos institucionais das unidades públicas.
"Era um critério de qualidade e também um indicador que podia influenciar o financiamento das instituições", recorda.
Contudo, acredita que os números, por si só, dizem pouco sobre a realidade clínica. Por essa razão, defende a utilização sistemática da classificação de Robson, um modelo internacional que divide as grávidas em dez grupos consoante características como o número de filhos, a posição do bebé, o início espontâneo ou induzido do trabalho de parto e a existência de cesarianas anteriores.
Assim, mais do que saber quantas cesarianas foram realizadas, importa perceber em que grupos estão a acontecer. "É isso que nos permite retirar conclusões. Não basta saber que um hospital fez mais de 30% de cesarianas. É preciso perceber onde é que elas aconteceram e onde é que há margem para melhorar".
"As auditorias internas são fundamentais. Quando conseguimos rever caso a caso percebemos onde poderíamos ter atuado de forma diferente", tanto nos hospitais públicos como nos privados.
Na sua perspetiva, um dos aspetos mais preocupantes prende-se precisamente com alguns grupos considerados de baixo risco, onde continuam a verificar-se muitas cesarianas: são sobretudo mulheres que esperam o primeiro filho, com gravidez de termo e sem fatores clínicos evidentes que, à partida, justificassem uma cirurgia.
Maternidade mais tardia explica apenas parte da realidade
Portugal está entre os países europeus onde as mulheres têm o primeiro filho mais tarde e o número de grávidas com mais de 35 anos continua a aumentar.
Por isso, o adiamento da maternidade é frequentemente apontado como uma das razões para o aumento das cesarianas. Fernando Cirurgião concorda, mas considera que esta explicação está longe de ser suficiente.
"Temos cada vez mais gravidezes em mulheres com idade mais avançada. Muitas são espontâneas, outras resultam de técnicas de reprodução medicamente assistida, e isso aumenta naturalmente o risco obstétrico", admite.
Segundo explica, vários estudos mostram que uma primeira gravidez após os 35 anos está associada a uma probabilidade significativamente superior de terminar em cesariana. Contudo, "isso ajuda a explicar alguns pontos percentuais, mas não consegue justificar taxas de 60%".
"O facto de haver uma cesariana anterior leva também a uma grande probabilidade de haver outra cesariana"
Além da idade, também aumentou o número de gravidezes em mulheres com doenças pré-existentes ou com antecedentes clínicos mais complexos. Nos últimos anos, chegaram ainda às maternidades portuguesas muitas grávidas provenientes de outros países, frequentemente sem vigilância pré-natal adequada.
"Recebemos muitas grávidas que não eram vigiadas, sem história clínica conhecida e provenientes de realidades muito diferentes da nossa. Naturalmente isso aumenta o risco", adianta.
Um ciclo difícil de quebrar: cesarianas repetidas
Uma das razões pelas quais a taxa nacional permanece elevada prende-se com aquilo que acontece depois da primeira cirurgia. Durante décadas, vigorou na obstetrícia a máxima de que "uma vez cesariana, sempre cesariana". Hoje sabe-se que isso nem sempre corresponde à realidade e Fernando Cirurgião considera que este é precisamente um dos aspetos onde Portugal poderá evoluir mais.
"O facto de haver uma cesariana anterior leva também a uma grande probabilidade de haver outra cesariana", mas o médico defende que, sempre que existam condições clínicas e critérios de segurança bem definidos, deve ser promovido o parto vaginal após uma primeira cesariana.
"Há uma grande aposta que tem de ser feita no parto vaginal após cesariana. É aí que podemos modificar este paradigma", salienta. "Temos regras muito bem definidas que permitem realizar um parto vaginal após uma cesariana com segurança. É aí que temos uma enorme margem de progressão".
"Quando existem urgências prestes a encerrar, a tolerância para esperar por um trabalho de parto mais prolongado diminui inevitavelmente"
Na sua opinião, esta mudança poderá ter um efeito multiplicador. Se uma mulher conseguir ter um parto vaginal depois da primeira cesariana, aumenta também a probabilidade de voltar a ter partos vaginais em futuras gravidezes, o que "interrompe um ciclo" que alimenta continuamente o aumento das taxas nacionais.
Falta de médicos e condicionamentos nas maternidades também influenciam
Fernando Cirurgião acredita também que as dificuldades vividas atualmente pelas maternidades portuguesas podem também estar a contribuir para o aumento das cesarianas. "Quando existem equipas reduzidas, urgências prestes a encerrar ou uma enorme pressão assistencial, a tolerância para esperar por um trabalho de parto mais prolongado diminui inevitavelmente", constata.
Segundo explica, uma indução do parto pode demorar. "Uma indução pode durar dois ou três dias. Se houver estabilidade clínica, esse tempo pode aumentar significativamente a probabilidade de um parto vaginal. Mas quando sabemos que a equipa seguinte poderá não existir ou que a maternidade poderá fechar, essa margem desaparece", evidencia.
"A anestesia evoluiu muito e isso fez diminuir o receio que existia em relação à cesariana"
Também as frequentes transferências entre hospitais acabam por dificultar a tomada de decisões. "Muitas grávidas chegam a hospitais onde não são conhecidas pela equipa, sem um acompanhamento contínuo. Perante essa incerteza, é natural que alguns profissionais adotem uma atitude mais defensiva".
Por outro lado, o crescente receio de litígios acaba por conduzir a partos por cesariana. "A obstetrícia é uma das especialidades médicas com maior número de processos e com prémios de seguro muito elevados. Isso acaba inevitavelmente por favorecer uma medicina mais defensiva".
Na prática, explica, isso traduz-se numa menor disponibilidade para prolongar um trabalho de parto quando existe a mínima dúvida. "Perante qualquer suspeita de que algo possa correr menos bem, a tendência é intervir mais cedo".
É sempre uma cirurgia
Ao longo das últimas décadas, a cesariana tornou-se uma intervenção muito mais segura do ponto de vista anestésico e cirúrgico.
Fernando Cirurgião lembra que a própria anestesia geral era encarada como um dos maiores riscos associados à cirurgia, mas, hoje, a realidade é diferente.
"A anestesia evoluiu muito e isso fez diminuir o receio que existia em relação à cesariana", frisa. Contudo, "não deixa de ser uma cirurgia".
"Mudou muito a forma como a sociedade olha para a cesariana. Tornou-se uma cirurgia muito mais segura, mas continua a ser uma cirurgia e isso não pode ser esquecido", acrescenta.
"O nosso papel é explicar quais são verdadeiramente os riscos e os benefícios de cada opção"
Por esse motivo, considera importante contrariar a ideia, cada vez mais frequente, de que uma cesariana programada representa automaticamente a opção mais segura.
A cirurgia continua a estar associada a riscos próprios, como hemorragias, infeções, tromboses, lesões da bexiga ou do intestino, aderências e uma recuperação física geralmente mais prolongada. "Tudo isso acontece porque foi feita uma cirurgia. Não acontece num parto vaginal", nota.
Receio do parto vaginal ou conveniência
Porém, o medo que muitas mulheres têm do parto vaginal continua a existir e empurra as cesarianas. "Existe uma perceção muito enraizada de que a cesariana é sempre a opção mais segura. Muitas vezes isso nasce de histórias negativas que ouviram, de relatos nas redes sociais ou de experiências de familiares e amigas", diz o médico.
Mas cabe aos profissionais de saúde desmontar essa ideia. "O nosso papel é explicar quais são verdadeiramente os riscos e os benefícios de cada opção. Não basta entregar um consentimento informado para assinar. A mulher deve compreender exatamente o que implica uma cesariana e também o que significa um parto vaginal".
"Há pedidos para marcar um determinado dia, uma determinada hora, porque o médico vai de férias, porque a família quer organizar-se ou até por motivos completamente subjetivos"
Fernando Cirurgião considera mesmo que, em situações de pedido de cesariana sem indicação clínica, faria sentido existir uma segunda avaliação médica. "Não me parece descabido que possa haver uma segunda opinião. É importante garantir que a decisão é tomada com toda a informação disponível e não apenas baseada no medo".
O diretor do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de São Francisco Xavier admite igualmente que existem fatores relacionados com conveniência e planeamento, tanto por parte de algumas grávidas como dos próprios profissionais.
"É inegável que essa realidade existe. Há pedidos para marcar um determinado dia, uma determinada hora, porque o médico vai de férias, porque a família quer organizar-se ou até por motivos completamente subjetivos", frisa.
O especialista recorda também que já ouviu justificações relacionadas com crenças pessoais. "Há quem queira escolher um determinado dia por causa do signo ou do horóscopo da criança. São situações caricatas, mas que acontecem".
"Se conseguirmos devolver confiança ao parto vaginal, estaremos a melhorar os cuidados prestados às mulheres e aos bebés"
Ainda assim, sublinha que a decisão clínica nunca deve ser baseada apenas nesses fatores. "O objetivo tem de ser sempre garantir a segurança da mãe e do bebé".
O especialista lembra que a recuperação é habitualmente mais rápida e que as complicações são, em regra, menores.
"Hoje fazemos cada vez menos episiotomias. Muitas mulheres recuperam rapidamente, levantam-se poucas horas depois, cuidam imediatamente do bebé e retomam a sua autonomia muito mais depressa do que acontece após uma cirurgia."
Para reduzir o número de cesarianas desnecessárias, considera essencial apostar na informação das grávidas, reforçar as equipas das maternidades, investir nas consultas de preparação para o parto e promover o parto vaginal após uma cesariana anterior.
"Se conseguirmos mudar mentalidades e devolver confiança ao parto vaginal, estaremos a melhorar os cuidados prestados às mulheres e aos bebés, sem comprometer a segurança de nenhum deles", remata.
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