Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

8.

A GUERRA PARA ACABAR COM TODAS AS GUERRAS

A origem de uma história apocalíptica duradoura tem mais que ver com as forças gémeas da economia e da geografia, do que com qualquer coisa espiritual. Normalmente é assim que as coisas funcionam.

Vamos explicar.

Desde a Idade do Bronze, a grande rota comercial serpenteava pela costa mediterrânica do Levante. Hoje, é por vezes conhecida como Via Maris: latim para «Caminho do Mar». No entanto, na época, ninguém a chamava assim, por vários motivos, sendo o principal deles o facto de ninguém ir falar latim durante os sete séculos seguintes. Mas, independentemente do nome que os mercadores lhe deram há 3500 anos, atravessava o grande caldeirão civilizacional do Crescente Fértil, ligando a riqueza do delta do Nilo às cidades emergentes da planície síria e aos impérios da Mesopotâmia.

Não teria sido grande coisa de se ver. Nalguns pontos, era pouco mais do que um caminho empoeirado nos meses secos e um trilho de lama batida nos meses chuvosos. Mas, ainda assim, era uma rota: conhecida, previsível, tão segura quanto possível. Partindo do Egito, serpenteava pela linha costeira de diversas terras que dariam origem a religiões, detendo-se num certo número de portos ao longo da costa, antes de enveredar de forma repentina para o interior. Era aqui que cruzava uma das principais barreiras para quem queria viajar nesta parte do mundo antigo: os picos intimidantes e quase intransponíveis do monte do Carmelo.

A palavra-chave aqui é: quase intransponíveis. Havia algumas passagens: uma a quilómetros a norte e outra mais a sul. Mas a mais rápida, a que a Via Maris seguia, era a que passava através do estreito vale do Wadi Ara e do desfiladeiro de Musmus, onde encostas íngremes de rocha se erguiam de ambos os lados.

E perto da foz do Wadi, onde o viajante emergia das colinas para as terras férteis do vale de Jezreel, havia uma cidade chamada Megido.

Era uma joia da região, antiga e rica, com grandes muralhas e arquitetura avançada. Aqui, o viajante cansado podia parar para receber hospitalidade e descansar, mas esse não era o único propósito da cidade. Era um ponto de passagem e um lugar de estrangulamento – estrategicamente perfeito para guardar a entrada da passagem, controlar a rota comercial e comandar uma vasta faixa de terras agrícolas ricas além dela. Se, por exemplo, o Império Egípcio quisesse marchar para o norte para lembrar a alguns cananeus insubmissos quem é que mandava, esta seria uma das rotas mais prováveis que tomariam.

Exceto que, claro está, isso seria muito tolo. Era uma passagem bem guardada. Marchar com as tropas por um vale estreito controlado pelo inimigo seria uma loucura – seriam alvos fáceis, vulneráveis a ataques por três lados e sem espaço para manobrar ou trazer reforços. A menos que...

A menos, argumentou o faraó Tutmés III – cujo Império Egípcio marchava para o norte para lembrar a alguns desses cananeus presunçosos quem é que mandava –, que atravessar a passagem fosse uma tática de tal forma imprudente que as forças de Canaã nunca presumiriam que alguém fosse assim tão tolo. Talvez, então, eles deixassem pouca gente a guardar o Wadi. Talvez um avanço rápido os apanhasse com as calças na mão.

Quem não arrisca, não petisca. Tutmés III decidiu dar o seu melhor e testar essa teoria.

A Batalha de Megido, no século XV a. C., é uma das mais notáveis da história militar, principalmente porque é, de certa forma, o início da história militar.

É a primeira batalha sobre a qual temos um registo escrito do que aconteceu. É um registo incompleto e parcial, sem dúvida.

Foi escrito em grande parte pelos vencedores, o Egito, que, após uma rápida derrota e um longo cerco, consolidou o domínio sobre os reinos de Canaã durante os séculos seguintes. Mas, mesmo assim, o registo dá-nos uma ideia das forças mobilizadas
e das táticas utilizadas. Diz-nos que marcou a estreia de uma nova tecnologia bélica, sob a forma de arcos compostos. Diz-nos quais foram os espólios de guerra capturados. Dá-nos, pela primeira vez na história, o registo do número de mortos.

Esta batalha até pode ser a primeira da qual temos detalhes, mas as provas empíricas arqueológicas sugerem que não foi a primeira no vale. E não foi, com certeza, a última.

Segundo um estudioso, o vale de Jezreel foi palco de nada mais, nada menos do que trinta e quatro importantes batalhas ao longo da história. Este legado sangrento tem origem nalgumas causas fundamentais: a importância económica do comércio que ali se realizava e o controlo sobre as terras férteis do Vale; a sua localização, mesmo no ponto em que as arestas de vários impérios se encontravam ao longo dos séculos; e a sua geografia básica, uma planície rodeada por barreiras com saídas e entradas limitadas, tornava-o um perfeito teatro de guerra. Devido a tudo isso, o vale tornou-se uma das áreas mais disputadas do planeta ou, nas palavras de Lord Kitchener, «o maior campo de batalha do mundo».

Livro: "Uma Breve História do Fim do Mundo"

Autor: Tom Phillips

Editora: Alma dos Livros

Data de lançamento: 21 de janeiro de 2026

Preço: € 22,00

Subscreva a Newsletter do É Desta que Leio Isto aqui e receba diretamente no seu e-mail, todas as semanas, sugestões de leitura, notícias e acesso a pré-publicações.

O rei Josias da Judeia foi morto na Segunda Batalha de Megido, em 609 a. C., enquanto os impérios do Egito, da Assíria e da Babilónia lutavam pelo controlo da zona. No lado oriental do vale, os romanos lutaram contra rebeldes judeus, e o futuro imperador Vespasiano capturou Yosef ben Matityahu, que se tornaria o historiador Josefo. Saladino travou aí batalhas com os cruzados, na década de 1180; em 1260, os mongóis viram a conquista negada pela primeira vez na história do império, quando os mamelucos os derrotaram na Batalha de Ain Jalut. Em 1799, poucos meses antes de tomar o poder em França, Napoleão derrotou os otomanos no sopé do Monte Tabor. E, na Primeira Guerra Mundial, o general Edmund Allenby repetiu a aposta de Tutmés III, ao enviar a sua cavalaria aliada numa corrida perigosa pela Passagem de Musmus para derrotar as forças otomanas em mais uma Batalha de Megido.

Tudo isto para dizer que talvez não seja surpreendente que, quando João de Patmos escreveu a sua profecia sobre onde ocorreria a grande batalha entre as forças do Bem e do Mal nos últimos dias, a tenha situado aqui. Na época em que João escreveu, muitos desses conflitos ainda estavam por vir, e Megido já estava abandonada há vários séculos. Mas a memória cultural permaneceu viva. Histórias de batalhas passadas – a derrota de Canaã, a morte de Josias – foram imortalizadas, e as ruínas da antiga cidade tornaram-se lenda, uma Camelot do passado e do futuro, onde grandes e terríveis feitos haviam ocorrido e voltariam a ocorrer. E, de qualquer forma, as forças gémeas da economia e da geografia ainda dominavam – as encostas de Megido eram, muito claramente, um local provável para uma batalha.

Essas próprias encostas faziam parte do seu longo legado. Megido não ficava numa montanha, nem mesmo numa colina natural. Mas a cidade já era antiga nos tempos antigos. O efeito de construir um povoado em cima de um povoado anterior, por
sua vez construído em cima de um povoado anterior – vinte camadas no total – criou uma inclinação acentuada. E, a certa altura, alguém decidiu chamar essa elevação de Monte Megido – ou, em hebraico, Har Megido.

E foi esse termo que João de Patmos traduziu para o grego, língua em que escreveu o Livro do Apocalipse, legando-nos assim a palavra que ainda hoje usamos. A palavra que significa a batalha culminante e devastadora que terá lugar no fim dos tempos: Armagedão.

De todas as crises que podem atingir uma sociedade e de todos os meios de destruição que nos ameaçam, a guerra ocupa um lugar especial na nossa imaginação apocalíptica.

Os outros terrores da existência são, na sua maioria, opcionais no panteão das histórias apocalípticas. Afinal, nem todos vivem perto de uma zona sísmica; e as pessoas que vivem no deserto raramente se preocupam com um inverno rigoroso. As inundações continuam a ser uma escolha popular, mas nem mesmo estas estão presentes em todas as narrativas apocalípticas. No entanto, praticamente todos os que contam histórias sobre o fim dos tempos e decidem quais as tribulações que marcarão os últimos dias acabam por escolher a violência.

Como já observámos, o apocalipse judaico começou e consolidou-se durante períodos de conflito. No cristianismo, dois dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse eram (provavelmente) simbólicos de uma forma ou outra de guerra. Na escatologia chinesa, fala-se muito pouco de pestilência, mas há um grande foco no medo da invasão ou da guerra civil. O hinduísmo prevê uma grande batalha no final do kalpa. As previsões seculares de destruição podem prever muitas causas para a nossa queda, mas quase todas elas imaginam o combate como resultado ou catalisador de qualquer catástrofe que nos consumirá.

Essa certeza apocalíptica tem-se refletido nas guerras ao longo dos tempos. «Os meus olhos viram a glória da vinda do Senhor», diz «The Battle Hymn of the Republic», a emocionante canção de Julia Ward Howe da Guerra Civil Americana. É um refrão familiar e muito apreciado (segundo consta, a reação encantada de Lincoln quando a ouviu pela primeira vez foi «Toque novamente!»). É também profundamente apocalíptica: a letra da canção é inequívoca ao ver a Guerra Civil como a batalha final profetizada no Apocalipse. O Dia do Juízo Final não está apenas iminente; está aqui. (Caso a mensagem não tenha ficado clara, a letra continua: «Ele tocou a trombeta que nunca chamará à retirada / Ele está a peneirar os corações dos homens perante o Seu trono de julgamento.») Isso não foi uma exceção estranha: um historiador escreveu sobre «a intensidade absoluta e a unanimidade virtual da convicção do Norte... de que a guerra não era apenas uma batalha sagrada entre muitas, mas o teste culminante da nação redentora e do seu papel milenar».

Porque é que a guerra desempenha um papel tão central nas histórias apocalípticas? Ou – invertendo a pergunta – Porque é que as histórias apocalípticas desempenham um papel tão central na guerra?

Em parte, tal deve-se simplesmente ao facto de a guerra estar muito próxima de ser uma constante universal da humanidade. Quase todas as sociedades da história passaram por guerras com bastante regularidade – 95 por cento de todas as culturas ao longo do tempo, segundo algumas estimativas. As sociedades que conseguiram evitá-las, em grande parte, tendem a fazê-lo por serem muito pequenas ou extremamente isoladas, ou ambas e, enfim, esperam que ninguém as veja ou se importe o suficiente para se dar ao trabalho de entrar em guerra com elas. A Batalha de Megido pode ter proporcionado à história o seu primeiro balanço de mortos por escrito, mas o número de vítimas remonta a tempos muito mais antigos. As primeiras provas arqueológicas de algo que se assemelha muito a uma guerra têm catorze mil anos. A guerra já era uma veterana da destruição humana quando o apocalipse era apenas um brilhozinho nos olhos de Zoroastro.

A guerra é, muito francamente, apenas algo que os humanos fazem. Uma guerra catastrófica e destruidora não é apenas uma ansiedade constante para a cultura humana, é também algo fácil de imaginar. Nas eras pré-comunicação ou média social em massa, talvez não tivéssemos uma boa noção de como era, por exemplo, um vulcão, a menos que tivéssemos a infelicidade de morar perto de um. Mas homens maus com armas, que cortam e queimam tudo no seu caminho? Isso, sim, era fácil de imaginar. Transforma o planetário em pessoal.

Mas há outra razão pela qual o apocalipse e o Armagedão estão tão interligados, e é porque existe um ciclo de causa e efeito que outras catástrofes simplesmente não têm. O que quero dizer é: se acham que o vosso mundo está prestes a ser destruído por
uma inundação, essa crença não causa de facto mais inundações.

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia. Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar a leitura e a discussão à volta dos livros.

Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Ao longo da história do nosso clube, já tivemos o privilégio de contar nomes como Teolinda Gersão, Afonso Cruz, Tânia Ganho, Filipe Melo e Juan Cavia, Kalaf Epalanga, Maria do Rosário Pedreira, Inês Maria Meneses, José Luís Peixoto, João Tordo e Álvaro Laborinho Lúcio, que falaram sobre as suas ou outras obras.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 2500 membros, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

Subscreva a Newsletter do É Desta que Leio Isto aqui e receba diretamente no seu e-mail, todas as semanas, sugestões de leitura, notícias e acesso a pré-publicações.

(Isto supondo que não se dediquem a desviar rios para cumprir a profecia, é claro.)

Mas guerra? Isso é diferente.

Afinal, uma das principais causas da guerra é a crença de que alguém está prestes a iniciar uma guerra. É a lógica inevitável da corrida ao armamento: veem alguém a reunir as suas forças, então vocês próprios começam a pensar que talvez devam reunir as vossas também. E a crença apocalíptica numa grande batalha final não é apenas uma previsão: é um apelo às armas. Quando James VI exigiu que o seu povo estivesse «armado espiritual e corporalmente», isso não era uma metáfora.

Se começarem a convocar os vossos seguidores para se prepararem para o conflito final, outras pessoas vão notar. E vão responder na mesma moeda. Mesmo que não acreditem que essa seja realmente a batalha final pela alma do mundo, ainda assim farão o que as pessoas fazem quando estão preocupadas com uma batalha comum. E isso só vai aumentar a certeza de que a grande guerra está, de facto, muito próxima.

Assim, a expectativa apocalíptica e a sede de batalha podem reforçar-se de forma mútua num ciclo particularmente vicioso: a crescente ameaça de guerra alimenta a crença apocalíptica, e a crença apocalíptica acende o fogo sob a ameaça de guerra.

Em pequena escala, a forma como isto se desenrola é-nos muito familiar.

Vicki Weaver começou a ter visões sobre o fim do mundo no final dos anos 70. Ela e o marido, Randy, já acreditavam que o apocalipse estava iminente: tinham sido fortemente influen- ciados pela turbulência económica e política da década, pelos tele-evangelistas da direita religiosa radical americana em ascensão e pelo livro apocalíptico de Hal Lindsey, The Late Great Planet Earth, publicado em 1970. Quando Vicki começou a ter as suas próprias experiências proféticas, geralmente enquanto tomava banho, isso apenas solidificou a certeza de que um grande conflito fatal estava a aproximar-se. Nos dias sombrios da Guerra Fria, não eram os únicos com essa sensação, muito pelo contrário.

E assim fizeram o que muitos outros estavam a fazer na mesma altura: venderam os seus bens, deixaram para trás a sua vida em Cedar Falls, Iowa, e partiram para oeste, para as montanhas remotas do norte de Idaho, perto da fronteira com o Canadá.

Aqui, pensavam eles, longe dos centros populacionais, do governo federal e da influência corrupta do mundo moderno claramente doente, poderiam sobreviver à terrível conflagração, dedicar-se a Deus e estar entre os sobreviventes quando chegasse o Dia Final.

A área atraiu muitas pessoas com ideias semelhantes: uma mistura tóxica de forasteiros, fanáticos religiosos, sobreviventes e neonazis, unidos pela desconfiança no governo e pela sensação de que precisavam de se preparar para os tempos violentos que se avizinhavam.

A família Weaver começou a construir a sua cabana na montanha, num local chamado Ruby Ridge.

Randy Weaver não estava a tentar iniciar uma guerra, e o que aconteceu em Ruby Ridge em 1992 foi uma pequena e suja explosão de mortes que ficou muito aquém disso. Mas ilustra a dinâmica que se repete vezes sem conta, em pequena e grande escala: uma vez introduzida a ideia de que o conflito está iminente, este pode tornar-se autorrealizável. Cada ação de um lado confirma os medos mais paranoicos do outro. A reação a esses medos confirma, por sua vez, os medos do primeiro lado. Escalada, escalada, escalada.

Neste caso, uma família que via o governo federal como uma força maligna e tinha sido ensinada a interpretar os acontecimentos através de uma lente de expectativa apocalíptica, deparou-se com agências federais que lutavam para controlar uma onda crescente de terrorismo doméstico de extrema direita contra o governo, que não compreendiam totalmente.

As crenças dos Weaver eram talvez demasiado pessoais e específicas para se encaixarem perfeitamente em qualquer categoria, mas Randy Weaver convivia muito com membros da Nação Ariana, o que permite compreender o ponto de vista das agências federais.

Uma tentativa dos agentes federais dos EUA para cumprirem um mandado de apreensão das armas de Randy degenerou num tiroteio em que os piores receios de cada parte em relação à outra se confirmaram repetidamente. O cão da família correu na direção dos agentes federais, que atiraram sobre o animal, e a família disparou de volta. O primeiro tiroteio custou a vida do filho de Randy, Samuel, do agente federal Bill Degan e do cão Striker. No impasse que se seguiu, Vicki Weaver foi mortalmente atingida por um atirador furtivo.

Não foi uma guerra. Em termos de número básico de mortos, nem sequer foi assim tão fora do comum para os EUA: incidentes com armas de fogo mais mortíferos acontecem constante- mente em centros comerciais, escolas e antigos locais de trabalho, devido a ex-funcionários descontentes. Mas a dinâmica do conflito crescente é familiar – e essa dinâmica ecoaria a partir de Ruby Ridge.

Seis meses depois: outro grupo apocalíptico, outra resposta desastrada do governo que serviu apenas para confirmar as expectativas. Desta vez, era uma seita dissidente de outra seita dissidente, que esperava que o apocalipse chegasse a qualquer momento, desde meados dos anos 50. O seu profeta original, um sujeito chamado Victor Houteff, tinha morrido, e a sua viúva assumiu o controlo, mudou o grupo para um complexo no topo de uma colina e começou a preparar um profeta sucessor. Com
um olho na Bíblia, eles nomearam o seu complexo de Monte Carmelo: bem perto do Armagedão.

Esta seita tinha todos os dramas pessoais comuns associados a este tipo de grupos: acusações de profanação de cadáveres, um tiroteio não fatal entre fações e um assassínio com um machado.

Foi após esse último incidente que o profeta sucessor, um jovem perturbado chamado Vernon Howell, assumiu o controlo do grupo e o transformou numa seita sexual abusiva, enquanto reunia o que chamava de «Exército de Deus» em preparação para o conflito final. Howell também mudou o seu nome, rebatizou-se com o nome hebraico de Ciro, o Grande, o imperador aqueménida que libertou os judeus do exílio na Babilónia. O seu novo nome era David Koresh.

A conflagração que acabou por ocorrer no complexo Monte Carmelo, perto de Waco, Texas – um tiroteio entre as forças da lei e os seguidores de Koresh, os Branch Davidians, que provocou dez mortos, seguido por um cerco de cinquenta e um dias e por uma invasão final em que os Davidians incendiaram o seu próprio complexo, e mataram setenta e seis pessoas – só serviu para alimentar as expectativas apocalípticas na cultura em geral. Tendo ocorrido muito pouco tempo depois do incidente de Ruby Ridge, parecia ser a confirmação de que um fim violento estava próximo. Isso reforçou a visão do governo como uma força maligna na mistura paranoica de religião apocalíptica, teorias da conspiração e política de extrema direita que estava a formar-se na cultura americana. Nenhum destes eventos foi uma guerra, a menos que se quisesse realmente vê-los como tal. Dois anos depois, Waco e Ruby Ridge inspirariam o bombista Timothy McVeigh a matar 168 pessoas num edifício federal em Oklahoma.

A violência é, de forma inerente, de cariz aumentativo; o termo «ciclo da violência» existe por alguma razão. Quando se vive num sistema de crenças que diz que o conflito é inevitável, necessário e moralmente correto, a escalada torna-se ainda mais provável.

___

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.