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Um psicólogo para cada 500 alunos. É esta a medida estabelecida pela lei portuguesa para o apoio psicológico nas escolas. Apesar do avanço, criado pela lei implementada em abril deste ano, especialistas alertam que este número continua longe de responder à realidade das necessidades dos estudantes, deixando muitos jovens sem acompanhamento adequado.

"É fácil perceber que este rácio é insuficiente", afirma a psicóloga clínica, Mariana Melo e Castro, da Academia Transformar, ao 24notícias.

De acordo com a avaliação da especialista, se cerca de 15% dos estudantes precisarem de acompanhamento regular — um número que coincide com a prevalência de dificuldades emocionais e perturbações na infância e adolescência — isso significaria atender entre 70 a 80 alunos por semana.

"Isso esgota rapidamente o tempo útil do psicólogo, deixando pouco ou nenhum espaço para prevenção, orientação vocacional, apoio em crises, intervenção em grupo e formação a professores e auxiliares", diz a especialista.

Para além de expor os psicólogos a um risco elevado de esgotamento, a legislação vigente parece incapaz de responder às necessidades de todos os atores do ambiente escolar, especialmente dos alunos.

"500 alunos não são números, são vidas, famílias e histórias únicas. O rácio atual não permite dar a cada criança a atenção que merece", alerta Mariana Melo e Castro.

O que diz a lei?

A lei 54/2025 estabelece que os serviços de psicologia devem disponibilizar aos estudantes “aconselhamento e apoio psicológico aos alunos; apoio ao desenvolvimento das competências cognitivas, académicas, profissionais e sociais; apoio na adaptação e integração dos novos estudantes; promoção da saúde mental; aconselhamento vocacional e profissional”.

Cabe ainda aos psicólogos promover a educação inclusiva e avaliar, prevenir e intervir quando estão perante riscos psicossociais.

Questionada sobre a responsabilidade de desempenhar um conjunto de funções tão vasto como este, a psicóloga revela: "Na prática, conciliar é quase impossível. A multiplicidade de papéis, clínico, educativo, vocacional e comunitário, exige tempo e recursos".

A acumulação de funções acaba por resultar, muitas vezes, no que a especialista caracteriza como "decisões duras" por parte dos psicólogos — apoio imediato a quem sofre ou prevenção para evitar novos casos?

"Os psicólogos são forçados a priorizar casos graves e a deixar a prevenção em segundo plano", lamenta Mariana Melo e Castro. "Em vez de formadores de resiliência, tornam-se bombeiros a apagar fogos".

A pressão retratada pelos especialistas evidencia a necessidade de equipas de psicologia mais estruturadas, que consigam partilhar tarefas de forma eficiente e garantir que o acompanhamento clínico e o apoio vocacional sejam ambos assegurados.

Problemas que não podem esperar

Apesar do que é exigido e previsto pela lei, "o foco no desenvolvimento de competências socioemocionais e na criação de um ambiente escolar que evite problemas futuros vai-se perdendo", tendo em conta a urgência de alguns casos recorrentes nas escolas.

Entre as necessidades mais urgentes dos alunos estão a regulação emocional e a ansiedade (cada vez mais prevalente em todas as idades), o bullying e as relações interpessoais, as dificuldades de aprendizagem ligadas a fatores emocionais (muitas vezes confundidas com falta de empenho) e a orientação vocacional.

"As necessidades vão além do desempenho académico... Com as atuais condições é humanamente impossível que psicólogos e professores façam um verdadeiro trabalho de equipa", explica a especialista.

O fator tempo na saúde mental

Com base no rácio psicólogo/alunos, as projeções apontam para um longo tempo de espera quando é requisitada ajuda psicológica. No entanto, o tempo é um fator determinante no apoio em saúde mental.

Quanto mais cedo as dificuldades emocionais são detetadas, maior é a capacidade de prevenir complicações mais graves. Segundo a especialista, um acompanhamento tardio pode fazer com que problemas inicialmente passageiros evoluam para transtornos estabelecidos, como ansiedade crónica, depressão, abandono escolar ou até comportamentos de risco.

"É como numa ferida física. Se for tratada logo, cicatriza rápido, mas se for ignorada, pode infeccionar e deixar marcas para a vida", afirma.

Prevenção em primeiro lugar

Os constragimentos causados pela falta de profissionais nas escolas faz com que, muitas vezes, a prevenção seja deixada de lado. No entanto, este é também um fator decisivo para o bem estar emocional de crianças e jovens.

"O psicólogo não atua apenas em crises, atua na raiz", diz Mariana Melo e Castro.

A presença de psicólogos nas escolas possibilita o desenvolvimento de competências socioemocionais entre os alunos, capacita os professores para reconhecer e intervir perante sinais de risco e permite implementar programas preventivos que reduzem bullying, ansiedade e até o abandono escolar.

Pesquisas internacionais indicam que iniciativas conduzidas ou acompanhadas por psicólogos podem diminuir em até 30% os comportamentos de risco e melhorar de forma significativa o ambiente escolar, refletindo-se não apenas no bem-estar, mas também no desempenho académico e na integração social dos estudantes.

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Numa altura em que tanto se fala sobre saúde mental, a especialista considera "alarmante" a falta de psicólogos nas escolas.

"Fala-se muito de saúde mental, mas ainda não se investe o suficiente onde tudo começa, que é na infância e adolescência", admite.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), aproximadamente 1 em cada 7 jovens entre os 10 e 19 anos vive com um transtorno mental. Na Europa, estima-se que 1 em cada 5 adolescentes têm uma condição de saúde mental.

Entre os jovens, os diagnósticos mais comuns são a Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA), ansiedade, problemas comportamentais e depressão.

500 para um

"Um psicólogo por cada 500 alunos é um número que não reflete a realidade nem as necessidades atuais. Se queremos reduzir as taxas de ansiedade, depressão e abandono escolar, temos de investir mais cedo, onde o impacto é maior e mais duradouro", afirma.

Segundo a especialista, é também necessário investir na formação de professores e auxiliares para garantir mais motivação e segurança, mas também estratégias de ensino mais eficazes e maiores níveis de inteligência emocional.

A falta de psicólogos nas escolas portuguesas expõe uma contradição entre a urgência dos problemas de saúde mental na infância e adolescência e a escassez de recursos disponíveis para lhes dar resposta.

Num contexto em que a intervenção precoce pode fazer a diferença entre uma dificuldade pontual e uma doença instalada, a ausência de profissionais suficientes deixa muitos jovens sem apoio e compromete o papel da escola como espaço de promoção da saúde mental, integração social e prevenção de riscos.

Para a especialista, "ignorar esta carência é não perceber que cada lista de espera é uma oportunidade perdida de prevenir sofrimento futuro e custos para todos, num prejuízo global".

"Sabemos bem o impacto que experiências como o bullying ou traumas precoces podem ter para o resto da vida. E sem psicólogos suficientes, não conseguimos dar o apoio necessário para prevenir e lidar com essas situações de forma eficaz e sustentada".