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O conflito no Irão aumentou o risco de interrupções no abastecimento global, sobretudo através do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo e gás do mundo. Este bloqueio potencial já está a provocar subida dos preços da energia e está a pressionar a economia europeia, com estimativas da Comissão Europeia a apontarem para custos adicionais na ordem dos 500 milhões de euros por dia. Ao mesmo tempo, há receios de que a situação se prolongue e provoque uma crise mais profunda nos mercados energéticos.

Perante este cenário, vários Estados-membros começaram a alertar para a necessidade de reduzir consumos e preparar reservas estratégicas. No entanto, o problema central identificado por Bruxelas é a falta de informação fiável e em tempo real sobre os stocks de combustíveis existentes na Europa, avança o Politico.

Apesar de existirem alguns mecanismos de monitorização, o sistema europeu é fragmentado. No caso do gás natural, a UE tem alguma capacidade de controlo devido às regras introduzidas após a crise energética de 2022, que obrigam os países a manter níveis elevados de armazenamento antes do inverno. Ainda assim, mesmo aqui, existe visibilidade limitada sobre os fluxos diários, ou seja, quanto entra, quanto sai e como circula entre países.

O problema é muito mais grave no caso do petróleo e, sobretudo, dos combustíveis refinados como gasóleo, gasolina e combustível de aviação. Estes produtos estão armazenados em múltiplos locais, tanques em portos, aeroportos, instalações industriais, refinarias e até navios-tanque em alto-mar, e grande parte destes dados não é reportada de forma obrigatória ou em tempo real.

A União Europeia depende sobretudo de três fontes: estatísticas do Eurostat, reuniões de coordenação entre Estados-membros e dados voluntários fornecidos por empresas do setor energético. No entanto, como as empresas não são obrigadas a divulgar os seus níveis de stock comerciais, existe uma enorme lacuna de informação. Muitos operadores consideram esses dados sensíveis e estratégicos, o que limita ainda mais a transparência.

Vários responsáveis europeus admitem este problema ao jornal digital Politico. Há uma perceção generalizada de que se sabe o que deveria existir em reserva, mas não o que existe realmente em cada momento. Esta falta de visibilidade cria dificuldades sérias na gestão de crises, porque impede prever com precisão quando poderão surgir escassez ou disrupções no abastecimento.

Para tentar colmatar esta falha, a Comissão Europeia anunciou a criação de um novo “Observatório de Combustíveis”, que deverá funcionar como uma espécie de sistema centralizado para acompanhar produção, importações, exportações e níveis de stock de combustíveis em toda a União Europeia. O objetivo é aproximar-se de modelos mais robustos, como o sistema norte-americano de informação energética. No entanto, este projeto ainda está numa fase inicial e não há garantias de que consiga resolver completamente o problema da falta de dados em tempo real.

O petróleo bruto é relativamente mais fácil de monitorizar graças a ferramentas de análise de mercado e imagens de satélite, que permitem estimar o nível de enchimento de reservatórios e navios. Algumas empresas conseguem cobrir uma grande parte da capacidade global de armazenamento através destes métodos. No entanto, mesmo estes sistemas têm limitações e não conseguem abranger todas as infraestruturas, sobretudo armazenamento subterrâneo ou menos visível.

Já os combustíveis refinados continuam a ser o maior ponto cego. Os dados disponíveis são incompletos, muitas vezes desatualizados e baseiam-se em estimativas ou divulgações parciais. Isto leva a situações em que diferentes entidades têm visões diferentes sobre o mesmo nível de abastecimento, criando incerteza até entre especialistas.

Apesar disso, o impacto da crise não é apenas negativo em todos os setores. Em alguns segmentos petroquímicos, por exemplo, a reorganização dos fluxos globais causada pela guerra pode estar a beneficiar a indústria europeia, já que a escassez noutras regiões melhora temporariamente as margens de lucro de algumas fábricas europeias que conseguem adaptar-se.

Ainda assim, estes efeitos positivos são limitados e não alteram o quadro geral: a Europa está mais exposta, mais dependente de mercados voláteis e com menos informação do que seria desejável para gerir uma crise energética prolongada.

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