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A exposição a notícias de conflitos internacionais, como os recentes acontecimentos na Ucrânia, Gaza ou Irão, tem levantado dúvidas entre pais sobre como abordar o tema com os filhos. A psicóloga clínica Marcela Matos, Professora Auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e Investigadora Sénior no CINEICC, explica ao 24notícias como é possível informar as crianças sem gerar medo ou insegurança.

"Muitas crianças acabam por ter contacto com notícias de guerra através da televisão, da internet ou de conversas entre adultos. Por isso, tentar esconder o tema não é a melhor estratégia. O mais importante é garantir que exista um adulto disponível para escutar e esclarecer dúvidas", afirma Marcela Matos, sublinhando que a conversa deve surgir de forma natural, quando a criança demonstra curiosidade ou já ouviu falar do assunto.

"Uma boa abordagem é começar por perguntar o que a criança sabe ou pensa. Isto permite perceber equívocos ou medos e ajustar a conversa ao seu nível de compreensão", salienta.

Onze mortos em ataques russos no sul e leste da Ucrânia
Onze mortos em ataques russos no sul e leste da Ucrânia

De acordo com a especialista, explicações simples e adaptadas à idade ajudam a reduzir a ansiedade. "Não é preciso dar muitos detalhes nem mostrar imagens que possam assustar. Mais importante do que transmitir informação é transmitir calma, disponibilidade e segurança emocional", acrescenta a psicóloga, referindo que é importante "reforçar que a criança está num lugar seguro e manter rotinas familiares estáveis são medidas essenciais para preservar o sentimento de proteção".

Uma boa abordagem é começar por perguntar o que a criança sabe ou pensa. Isto permite perceber equívocos ou medos e ajustar a conversa ao seu nível de compreensão Marcela Matos, psicóloga clínica, Professora Auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e Investigadora Sénior no CINEICC

Perante tudo o que tem acontecido, sobretudo desde 2022, quando do início da guerra na Ucrânia, a psicóloga diz que a exposição contínua a notícias de conflito pode afetar a saúde emocional das crianças.

"Alterações no sono, irritabilidade, perda de apetite, dificuldades de concentração ou mudanças de comportamento podem indicar que a criança está a ser impactada pelo que vê e ouve", alerta a a especialista, referindo depois que nos adolescentes, podem surgir sentimentos mais intensos de pessimismo, isolamento ou irritabilidade. "Quando estas alterações persistem ou interferem significativamente na vida diária, é fundamental procurar apoio profissional", diz.

Uma questão coloca-se então em cima da mesa: como é que os adultos podem evitar transmitir aos mais novos linguagem ou estereótipos polarizadores, como “bem vs mal”, ao falar de conflitos internacionais?

"Reduzir um conflito a ‘bons’ versus ‘maus’ é prejudicial. As guerras são complexas, e em todos os lados existem pessoas que sofrem. Explicar isto ajuda a criança a desenvolver empatia e uma visão mais crítica do mundo”, explica Marcela Matos que, segundo ela, estas conversas também podem ser "uma oportunidade para transmitir valores como tolerância, respeito pela diversidade e capacidade de compreender diferentes perspetivas".

Estas conversas, diz, também podem ser aproveitadas para estimular comportamentos pró-sociais nas crianças, como empatia e ações de ajuda.

Marcela Matos
Marcela Matos

"Quando a criança percebe que existem formas de ajudar, sente-se menos impotente. Pode participar em campanhas de recolha de bens, aprender sobre outras culturas ou discutir maneiras de apoiar pessoas afetadas por conflitos. Transformar preocupação em ação é fundamental para o desenvolvimento de empatia", afirma.

Reduzir um conflito a ‘bons’ versus ‘maus’ é prejudicial. As guerras são complexas, e em todos os lados existem pessoas que sofrem. Explicar isto ajuda a criança a desenvolver empatia e uma visão mais crítica do mundo

Marcela Matos, a concluir, diz também que nem todas as crianças lidam da mesma forma com estas notícias. "Na maioria dos casos, um diálogo aberto, apoio emocional e um ambiente familiar seguro são suficientes. Mas se o sofrimento se torna persistente ou mais intenso, como medo constante, alterações duradouras do sono, ansiedade elevada ou dificuldades na escola, é altura de recorrer a um psicólogo", alerta a especialista, referindo também que o acompanhamento profissional "ajuda a criança a compreender melhor as emoções, a regular a ansiedade e a recuperar o seu sentimento de segurança".

Refira-se que quando estalou a guerra na Ucrânia, em 2022, a própria Ordem dos Psicólogos disponibilizou "um guia de apoio à intervenção breve de psicólogos/as com ação junto de crianças a partir dos 8 anos de idade, relativamente à situação de Guerra. As propostas apresentadas assentam numa perspetiva de construção de Paz tendo em vista contribuir para a compreensão da situação actual de guerra na Ucrânia, a gestão de sentimentos associados e a adoção de comportamentos pro-sociais".

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