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Luiz Inácio Lula da Silva recebeu o El País no terceiro andar do Palácio Planalto e falou sobre a crise mundial, as próximas eleições e o seu encontro com outros líderes internacionais — a chegada a Portugal está prevista para 21 de abril.
Sobre uma das piores crises nas relações entre Brasil e Estados Unidos — ingerência, tarifas exorbitantes e sanções contra juízes que presidem ao caso Bolsonaro —, revela que ficou "impressionado com o facto de os argumentos de Trump para a imposição de tarifas ao Brasil não serem verdadeiros. Aquela insistência na força militar, nos navios, nos caças… Decidi ser muito paciente e disse-lhe, textualmente: 'Dois países governados por dois senhores de 80 anos deviam ter uma conversa muito madura'".
Acredita que os dois não têm de estar alinhados ideologicamente — "um chefe de Estado senta-se à mesa a pensar nos interesses do seu país" —, mas garante que prefere "ser um líder respeitado do que temido. Ninguém tem o direito de incutir medo".
Diz que Trump "está a fazer um jogo muito errado", porque parte do princípio que o poder económico, militar e tecnológico americano determina as regras, o que "pode não ser verdade", se isso acabar por criar problemas aos Estados Unidos. E foi isso que aconteceu quando atacou o Irão, uma manobra que fez disparar o preço dos combustíveis, com consequências também para os americanos.
"Quando se é chefe de Estado, é preciso respeitar a soberania dos outros países. Preocupa-me profundamente que o Conselho de Segurança da ONU, criado para manter a paz, esteja a travar uma guerra. É como se o mundo fosse um navio à deriva, sem qualquer instituição que oriente o comportamento civilizado das nações. Estamos perante uma situação muito, muito delicada: nunca desde a Segunda Guerra Mundial se registaram tantos conflitos simultâneos", disse ao El País.
Mas vai mais longe: "Chegou a altura de redefinir as Nações Unidas para lhe dar credibilidade, porque, de resto, Trump tem razão. As instituições internacionais não estão a desempenhar o papel para o qual foram criadas. E porquê? Porque os cinco países do Conselho de Segurança, que deveriam dar o exemplo, não o fazem. Nem a invasão do Iraque, nem a invasão da Líbia pela França e pelo Reino Unido, nem a invasão da Ucrânia por Putin, nem o massacre de Israel em Gaza foram levados ao Conselho de Segurança. Os senhores da paz tornaram-se senhores da guerra".
"Todos estão a ser pressionados a rearmar-se. No Brasil, acreditávamos no desarmamento e promulgámos uma Constituição em 1988 que proibia o fabrico de armas nucleares", recorda. Mas ninguém se desarmou e "aqui estamos nós, quase indefesos". Lula assegura que não quer investir em armas, "mas sim em livros, comida e empregos". E culpa a União Europeia por propor gastar 800 mil milhões de euros em defesa.
"Já telefonei ao presidente chinês Xi Jinping, ao primeiro-ministro indiano Modi, a Putin, a Macron — a todos — a pedir-lhes que se reunissem para discutir o assunto. Porque Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país".
Sobre o governo venezuelano dever ou não convocar eleições imediatamente, responde que "esse é um problema da Venezuela, não do Brasil. Mas se eu fosse venezuelano e vice-presidente, e se o que aconteceu tivesse acontecido, assumiria o cargo e convocaria eleições gerais. O que não pode acontecer é os Estados Unidos acreditarem que podem governar a Venezuela. Isto não é normal; não tem lugar numa democracia".
Em relação às eleições de 4 de Outubro e ao empate técnico com Bolsonaro filho, assegura que "o bolsonarismo não voltará a governar o país porque o povo prefere a democracia. Estou convencido disso. E o facto de a sociedade brasileira estar mais dividida também não é novidade; nunca ganhei uma eleição à primeira volta".
No que respeita à força da extrema-direita, admite que "o problema é que só agora estamos a perceber que [a democracia] falhou na construção do chamado Estado-Providência, na educação, na saúde... É por isso que vou a Barcelona para participar no Fórum Democracia para Sempre, com presidentes e ministros das Américas, Europa, África e Ásia".
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