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A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA anunciou que irá colocar um novo aviso no rótulo do medicamento, citando uma "possível associação" entre o autismo em crianças e o uso de paracetamol, também chamado Tyenol nos Estados Unidos, durante a gravidez.
O presidente dos EUA, Donald Trump, no entanto, não foi tão subtil na sua linguagem: "Não tomem Tylenol", disse repetidamente num anúncio amplamente aguardado sobre o autismo. "Lutem como o diabo para não o tomar", disse.
Apesar deste anúncio, a verdade é que muitos investigadores que estudam o autismo alertam que não existem dados suficientes para relacionar o autismo com o paracetamol e que “focarmo-nos numa ligação deste tipo não passa de uma distração”.
“Não há provas suficientes ou definitivas que sugiram que o uso de paracetamol pelas mães seja uma causa de autismo”, diz ao 24notícias o bioquímico Miguel Pedro, salientando que no cerne destas revelações “estão as pessoas que tentam encontrar respostas simples para problemas complexos”.
“Se agora é o paracetamol, antes dizia-se que podiam ser as vacinas, sobretudo, também, nos Estados Unidos. Mas a realidade é que as evidências não suportam uma relação causal entre o paracetamol ou as vacinas e o autismo. Sugerir o contrário pode alimentar a desinformação e minar a confiança em tratamentos e imunizações seguros”, referiu.
Mas não é só em Portugal que esta ligação entre o paracetamol e o autismo é desvalorizada. Também nos Estados Unidos a maioria dos cientistas afirmam que “as pesquisas mais robustas não relacionam o autismo com o uso de paracetamol na gravidez”.
“Os estudos mais bem controlados têm menos probabilidade de encontrar até um pequeno risco. E, mesmo assim, estamos a falar de uma associação menor. Não acreditamos que o uso de paracetamol esteja de alguma forma a contribuir para causar autismo”, afirma Helen Tager-Flusberg, psicóloga que estuda o autismo na Universidade de Boston, Massachusetts.
“Os fatores de confusão são um problema ainda maior. As mulheres que tomam paracetamol durante a gravidez apresentam, geralmente, pior saúde do que aquelas que não o tomam, talvez por terem tido uma infeção ou uma condição subjacente. Qualquer ligação aparente entre o paracetamol e o autismo pode, portanto, ser explicada por estes outros fatores de saúde, e não pelo medicamento em si. Embora os cientistas tentem ajustar estes fatores de confusão nos seus estudos, estes ajustes raramente são suficientes", salienta.
Em agosto passado, a revista BMC Environmenthal Health também publicou uma meta-análise a 46 estudos sobre o uso de paracetamol durante a gravidez e perturbações no neuro-desenvolvimento em crianças.
No geral, a análise concluiu pela existência de "fortes evidências de uma associação" entre ambos, mas os autores alertaram que o artigo apenas pode indicar "associações", não que a toma de paracetamol cause autismo, doença essa que foi descoberta antes do medicamento em causa ter sido inventado.
"Recomendamos o uso criterioso de paracetamol — menor dose eficaz, menor duração — sob orientação médica, adaptado às avaliações individuais de risco-benefício, em vez de uma limitação ampla", escreveram os investigadores.
De acordo com Christopher Zahn, "as perturbações do neurodesenvolvimento, em particular, são multifatoriais e muito difíceis de associar a uma causa única".
"As doentes grávidas não devem deixar-se intimidar, e optar pelos muitos benefícios do paracetamol, que é seguro e uma das poucas opções disponíveis para o alívio da dor nas grávidas", sublinhou o chefe de prática clínica do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas.
Peter Hotez, pediatra que codirige o Centro de Desenvolvimento de Vacinas do Hospital Infantil do Texas e pai de uma filha com autismo, disse que as provas publicadas sobre a ligação entre o paracetamol e o autismo "não são muito convincentes".
"Podemos explicar quase tudo [da perturbação do espectro do autismo] através dos genes do autismo. No entanto, certas exposições ambientais também desempenham um papel no início da gravidez, uma vez que interagem com os genes do autismo", escreveu numa publicação nas redes sociais.
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