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Num mundo marcado por divisões e conflitos cada vez mais polarizados, o teatro pode ser um dos poucos lugares onde as histórias individuais ainda conseguem atravessar fronteiras políticas e culturais. É nesse território que se move a nova encenação de Álvaro Correia, que estreia a 18 de março no Teatro São Luiz, onde ficará em cena até dia 29.

O espetáculo parte de um texto de Wajdi Mouawad, autor conhecido por cruzar a grande História com as histórias íntimas das pessoas. Aqui, as consequências de conflitos globais entram pela vida dentro de uma família, desmontando certezas sobre identidade, memória e pertença.

Um amor improvável

A história começa de forma quase simples: numa biblioteca em Nova Iorque, o judeu-alemão Eitan e a árabe-americana Wahida conhecem-se e apaixonam-se instantaneamente. Mas o peso da História não tarda a fazer-se sentir. A família de Eitan carrega a memória do Holocausto e dos conflito de longa data entre israelitas e palestinianos, algo que torna impossível, para o pai, aceitar a relação do filho.

A situação torna-se ainda mais dramática quando Eitan, investigador na área da genética e “para quem tudo não passa de moléculas”, é gravemente ferido num atentado à bomba em Jerusalém, numa viagem em busca por respostas. À volta da sua cama de hospital reúne-se toda a família, e é nesse momento que um segredo antigo emerge, capaz de abalar todas as certezas que sustentavam aquelas identidades aparentemente opostas.

A leveza no meio do caos

Apesar da profundidade dos temas abordados, a peça recusa o peso constante da tragédia. Pelo contrário, alterna momentos de grande intensidade com passagens surpreendentemente leves e até cómicas. A dinâmica entre Eitan e os pais, por exemplo, traz momentos de humor que quebram a tensão emocional da narrativa. Também a relação entre Wahida e a avó de Eitan gera algumas das cenas mais divertidas da peça.

Segundo o encenador, esse equilíbrio entre drama e humor é essencial e, faz parte da própria tradição cultural que a peça evoca.

“Os judeus têm um humor muito próprio. Têm uma grande capacidade de brincar com eles próprios, estranhamente”, explica Álvaro Correia ao 24notícias. “Esse humor acaba por ajudar a continuar a viver”.

Uma peça sobre identidade

No centro da narrativa está uma pergunta aparentemente simples: quem somos nós? A peça explora a identidade como algo complexo e cheio de camadas: familiar, cultural, histórica e política. As personagens vivem num espaço onde essas camadas entram constantemente em choque.

Ainda assim, o espetáculo evita tomar posições ideológicas explícitas. Em vez disso, foca-se nas pessoas. Numa era tão polarizada, é difícil encontrar arte mais humana que política. Em vez de discutir lados, a peça centra-se nas vidas individuais e na forma como estas são atravessadas pela História.

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A força da palavra

O texto de Mouawad mantém-se no centro de toda a encenação. As falas são longas, por vezes poéticas, e exigem grande intensidade dos intérpretes. Para Álvaro Correia, a emoção nasce precisamente daí.

“Eu disse aos atores para não puxarem emoção”, explica. “Aquilo que aparece vem da situação e do efeito da palavra”.

A peça evita, assim, o melodrama fácil. Em vez disso, constrói a tensão através do discurso, das revelações e da forma como o passado vai sendo lentamente desvendado.

O elenco sólido

O espetáculo conta com um elenco experiente, que inclui Cucha Carvalheiro, Fernando Luís, Manuela Couto, Virgílio Castelo, Madalena Almeida e David Esteves.

Entre as surpresas do elenco está Laura Garnel, aluna finalista da Escola Superior de Teatro e Cinema, que se destaca pela intensidade da sua interpretação. Também o aluno Duarte Romão impressiona, nomeadamente pela dimensão musical da sua presença em palco, cantando e tocando teclado durante o espetáculo.

Quando tudo encaixa

À medida que a narrativa avança, as peças do puzzle começam lentamente a ligar-se. O segredo familiar revelado no final reconfigura tudo aquilo que o público pensava saber sobre as personagens e sobre as divisões que pareciam separá-las. É nesse momento que se percebe que a peça não é apenas sobre conflitos políticos ou históricos, mas sobre algo muito mais simples e muito mais difícil: as pessoas.

Num tempo em que as identidades parecem cada vez mais rígidas e irreconciliáveis, esta encenação lembra que a vida raramente cabe em fronteiras tão claras. E que, por trás de qualquer conflito, existem sempre histórias humanas que desafiam as certezas mais sólidas.

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