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Segundo uma reportagem publicada pelo The Guardian, a chamada "terapia dos espaços azuis" (blue-space therapy) está a ganhar reconhecimento em várias partes do mundo como uma abordagem complementar no tratamento de problemas de saúde mental.

A ideia de que a proximidade de oceanos, rios e lagos pode beneficiar o cérebro e o bem-estar psicológico está a conquistar cada vez mais adeptos, apoiada por estudos científicos e pela experiência de organizações que trabalham com pessoas afetadas por trauma, ansiedade ou dependências.

Embora os chamados "tratamentos pelo mar" existam há séculos — desde as prescrições médicas da época vitoriana até à atual popularidade dos banhos de água fria —, foi o trabalho do biólogo marinho Wallace J Nichols que deu um novo impulso científico ao conceito. No livro Blue Mind, publicado em 2014, Nichols reuniu evidências sobre os benefícios neurológicos e psicológicos de estar dentro, sobre ou junto da água, popularizando a teoria conhecida como "blue mind" ou "espaço azul".

Desde então, o número de programas inspirados neste conceito aumentou significativamente. Sophie Pyne, cofundadora da organização norte-americana Waves of Recovery, recorda que, em 2022, participou numa conferência onde identificou cerca de 50 iniciativas semelhantes. Hoje, diz, já existem mais de uma centena espalhadas pelo mundo.

A organização utiliza o surf como ferramenta terapêutica para apoiar pessoas com problemas de saúde mental e dependências, trabalhando em articulação com centros de tratamento. A própria Pyne explica que, antes de criar o projeto, enfrentou um esgotamento profissional e lutou contra uma dependência. Foi ao subir pela primeira vez para uma prancha de surf que voltou a sentir uma sensação de liberdade que julgava perdida.

Na sua opinião, o contacto com o oceano ajuda também a reduzir o estigma associado à procura de apoio psicológico. O ambiente descontraído das sessões faz com que terapeutas e participantes partilhem uma experiência mais próxima e menos formal, favorecendo a confiança.

Os benefícios apontados pela teoria dos espaços azuis incluem a redução dos níveis de cortisol, a hormona associada ao stress, bem como uma melhoria da sensação de felicidade.

A geógrafa Catherine Kelly, que há vários anos investiga esta área e aconselha iniciativas governamentais relacionadas com espaços azuis, considera que o crescimento desta abordagem também reflete o estilo de vida contemporâneo. Segundo explica ao jornal britânico, a constante exposição a ecrãs e a necessidade de manter elevados níveis de atenção deixam o cérebro fatigado.

Em contraste, quando as pessoas se aproximam da água, observa-se frequentemente uma resposta física espontânea: os ombros relaxam, a expressão do rosto suaviza-se, a respiração torna-se mais lenta e instala-se um estado de calma difícil de reproduzir noutros ambientes naturais.

A utilização terapêutica da água vai além da superfície. Também o mergulho autónomo e o mergulho em apneia estão a ser explorados como formas de ajudar pessoas a regular o sistema nervoso.

Apesar da crescente popularidade destas práticas, Catherine Kelly reconhece que a investigação científica sobre os espaços azuis ainda se encontra numa fase inicial. Durante muitos anos, explica, a maioria dos estudos centrou-se nos benefícios dos espaços verdes, como florestas, jardins e parques, considerados intervenções mais fáceis e seguras de implementar em programas públicos de saúde.

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