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São muitas as pessoas que se têm queixado deste cenário. Acham estranho, não compreendem e muitas procuram informações junto das operadoras sobre o que se passa. "Tenho uma chamada sua", é o que dizem quando retornam uma chamada supostamente não atendida. Do outro lado dizem: "Desculpe, não fui eu que liguei, nem tenho registo do seu número como chamada efetuada". Tudo isto tem gerado perplexidade.

As autoridades confirmam que não se tratam de enganos humanos nem de avarias nas redes móveis, mas sim de um mecanismo tecnológico conhecido como spoofing de identificação de chamadas. De acordo com fonte da Polícia Judiciária, este método permite que a chamada seja realizada a partir de um sistema externo, muitas vezes fora do país, exibindo no visor do destinatário um número que nada tem a ver com a origem real da comunicação. O titular do número utilizado como "máscara" não recebe qualquer alerta, não tem o telefone comprometido e não chega sequer a saber que o seu contacto foi temporariamente usado.

"Na prática, o spoofing funciona como uma falsificação da identidade da chamada. Plataformas de chamadas baseadas em tecnologia de voz sobre IP permitem alterar parâmetros técnicos, incluindo o número apresentado, o que faz com que chamadas automáticas ou manuais apareçam associadas a contactos reais e ativos", diz a fonte policial, salientando que este tipo de prática "pode servir para testar listas de números válidos, gerar tráfego artificial ou preparar esquemas posteriores, ainda que nem todas as chamadas tenham, numa fase inicial, uma intenção criminosa direta".

REPORTAGEM: Fim do 'roaming' é uma
REPORTAGEM: Fim do 'roaming' é uma créditos: © 2017 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

Por sua vez fonte da PSP sublinha que este fenómeno é distinto das burlas mais conhecidas, em que alguém se faz passar por bancos, entidades públicas ou forças de segurança. Nestes casos, não há pedidos de dados pessoais, códigos ou transferências de dinheiro. Ainda assim, a polícia alerta que o mesmo método técnico é frequentemente usado em esquemas mais graves, razão pela qual deve ser encarado com atenção. "Hoje pode ser apenas uma chamada sem explicação, amanhã o mesmo mecanismo pode ser usado para tentar enganar", admite fonte da PSP.

Na prática, o spoofing funciona como uma falsificação da identidade da chamada. "Plataformas de chamadas baseadas em tecnologia de voz sobre IP permitem alterar parâmetros técnicos, incluindo o número apresentado, o que faz com que chamadas automáticas ou manuais apareçam associadas a contactos reais e ativos"

Do ponto de vista técnico, o combate ao spoofing enfrenta limitações. As chamadas entram nas redes nacionais já com a identificação adulterada, o que dificulta a filtragem imediata. A ANACOM reconhece que "estão em curso esforços para reforçar sistemas de validação de chamadas, mas explica que a solução passa por padrões e acordos internacionais que ainda estão em fase de implementação". Enquanto não existir uma autenticação global obrigatória da identidade das chamadas, situações deste género continuarão a ocorrer.

As autoridades deixam recomendações claras aos cidadãos afetados. Sempre que receberem uma chamada estranha, não devem assumir que o número apresentado corresponde efetivamente a quem ligou. Ao devolver chamadas, aconselha-se prudência e civismo, evitando acusações ou confrontos. Não devem ser partilhados dados pessoais em contactos inesperados e, em caso de repetição insistente, o número pode ser bloqueado e a situação comunicada à operadora. Se houver suspeita de tentativa de burla ou um volume elevado de chamadas, deve ser feito contacto com as autoridades.

A mensagem deixada pelas forças de segurança diz mesmo que "nestes episódios há duas vítimas, não uma". Quem recebe a chamada e quem aparenta tê-la feito estão ambos a ser afetados por um uso abusivo e temporário de números reais. Até que existam soluções técnicas definitivas, o apelo é "à informação, à calma e à compreensão, para que um problema tecnológico não se transforme em conflito entre cidadãos".

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