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Agora que começou o Mundial 2026, o debate sobre rendimento desportivo volta a estar na ordem do dia. Entre viagens intercontinentais, jogos em fusos horários distintos e recuperação acelerada entre partidas, o chamado jet lag pode tornar-se um fator decisivo dentro e fora de campo.

Segundo revelam ao 24notícias as psicólogas Margarida Fonseca Marques e Teresa Rebelo Pinto, o jet lag é “um fenómeno relacionado com o ritmo circadiano, o nosso ‘relógio interno’ que regula o sono, a vigília e diversas funções fisiológicas ao longo de 24 horas”. O problema surge quando há deslocações rápidas entre fusos horários, “o horário local deixa de coincidir com os ritmos biológicos do organismo”, originando um desalinhamento que pode provocar “dificuldade em adormecer, despertares noturnos, sonolência diurna, fadiga e alterações do humor”.

Nos atletas, o impacto vai muito além do desconforto. As especialistas sublinham que a "desregulação do ritmo circadiano" está associada a “tempos de reação mais lentos, diminuição da atenção, pior capacidade de tomada de decisão e menor precisão motora”. Num contexto competitivo como o Mundial, alertam, estas alterações podem ser determinantes. “Em modalidades que exigem respostas rápidas e decisões em frações de segundo, estas mudanças podem fazer a diferença entre ganhar e perder”, dizem.

A privação de alinhamento biológico afeta também a recuperação física. “A qualidade do descanso tende a diminuir durante os períodos de adaptação”, explicam, o que compromete “processos essenciais como a recuperação muscular, a reposição energética e a regulação hormonal”. Por esse motivo, refere, as equipas procuram chegar aos locais de competição com antecedência. “Cria-se uma janela de adaptação antes de a competição começar”, revelam.

"Em modalidades que exigem respostas rápidas e decisões em frações de segundo, estas mudanças podem fazer a diferença entre ganhar e perder"

A adaptação, no entanto, não é imediata. “A ressincronização do relógio biológico é um processo gradual”, referem as especialistas, estimando-se “em média um dia por cada fuso horário atravessado” para o organismo se ajustar. A estratégia mais eficaz para acelerar esse processo passa pela luz. “A exposição à luz natural em horários estratégicos é o principal sincronizador externo do ritmo circadiano”, dizem. Ainda assim, sublinham, “a adaptação varia entre indivíduos”, exigindo uma abordagem personalizada no planeamento dos atletas.

Mas o impacto do Mundial não se limita aos jogadores. Também os adeptos podem sentir dificuldades em desligar após jogos intensos. As especialistas explicam que eventos desportivos emocionantes “provocam um estado de ativação fisiológica e emocional bastante intenso, o que dificulta a transição para o sono”.

Esse estado de alerta tem duas componentes. Por um lado, “a libertação de adrenalina, noradrenalina e cortisol aumenta a frequência cardíaca, a pressão arterial e o estado geral de alerta”. Por outro, há uma ativação cognitiva prolongada: “O cérebro continua a processar ativamente o que aconteceu durante o evento, revivendo jogadas, discutindo desempenhos ou consultando redes sociais”.

Quando os jogos decorrem durante a noite, o efeito é amplificado. “A exposição à luz dos ecrãs reduz a produção de melatonina, a hormona que sinaliza ao organismo que é hora de adormecer”, explicam. Soma-se ainda o aumento da temperatura corporal associado à excitação emocional, “o que é o inverso do que deveria ocorrer para o sono surgir”.

O resultado, resumem, é claro: “Assistir a jogos intensos do Mundial durante a noite pode aumentar o tempo necessário para adormecer e reduzir a qualidade do sono”. Ainda assim, acrescenta, trata-se de um efeito gerível: “É uma situação que pode ser controlada com estratégias adequadas, bom senso e equilíbrio”.

Entre a emoção do futebol e a fisiologia do sono, o Mundial promete testar não apenas a resistência física dos atletas, mas também a capacidade de adaptação do relógio biológico, dentro e fora das quatro linhas.

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