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"O pior aconteceu antes de começarmos a colher em força", explica João Ferreira, produtor com mais de 20 anos de atividade na zona Oeste. "O morango começa a ser apanhado no final do inverno, mas é na primavera que se faz o grosso da produção. As tempestades vieram precisamente nessa fase de preparação e floração. O estrago ficou feito antes de termos retorno", diz ao 24notícias.
A sucessão dos três episódios meteorológicos extremos no início do ano, refira-se, deixou os solos saturados durante semanas. "A Kristin abriu o ciclo de chuvas intensas, a Leonardo agravou tudo e a Marta deixou muitos terrenos completamente submersos", relata o agricultor, salientando que "não houve tempo para o solo drenar nem para as plantas recuperarem".
O morango, diz quem sabe, é uma cultura particularmente sensível ao excesso de água, sobretudo nas fases iniciais de desenvolvimento do fruto. "Quando o terreno fica encharcado, as raízes sufocam e surgem doenças fúngicas", explica Ana Martins, produtora numa exploração familiar no Ameal. "Muitas plantas morreram ainda antes de produzir. Outras vão dar menos fruta e de pior qualidade".
Normalmente, a campanha do morango prolonga-se entre março e junho, com picos de colheita na primavera. Este ano, porém, a expectativa é bem diferente. "Entrámos na campanha já com perdas acumuladas", sublinha Carlos Silva, produtor que abastece mercados locais e restauração na zona de Torres Vedras. "Estamos a colher menos logo no início, e isso vai sentir-se ao longo de toda a época", refere.
Além da quebra produtiva, os custos dispararam. "Gastámos mais em tratamentos, substituição de plantas, drenagem e limpeza dos campos", enumera Carlos Silva, salientando que "é um aumento de despesas sem correspondência na produção", referindo que "a conta não fecha".
Os produtores admitem que a menor oferta poderá refletir-se nos preços ao consumidor. "Pode haver morango mais caro, sim", reconhece João Ferreira. "Mas isso não significa que o produtor esteja a ganhar mais. Estamos a tentar recuperar uma parte mínima do prejuízo", salienta.
Ana Martins reforça o alerta de João Ferreira. "O consumidor vê o preço na banca do supermercado, mas não vê o campo alagado semanas antes", diz a produtora, que teme o abandono da atividade. "Há pequenas explorações que não vão aguentar. Sem apoios, vão fechar portas", diz.
O setor pede uma resposta rápida do Estado, sublinhando que os danos resultam de fenómenos excecionais ocorridos fora do período normal de colheita. "Precisamos de compensações pelos prejuízos causados pelas cheias, linhas de crédito com juros bonificados e adiamento de obrigações fiscais", defende Carlos Silva. "Não estamos a pedir favores, estamos a pedir condições para continuar a produzir", afirma.
Já João Ferreira alerta que o tempo é determinante. "Se os apoios chegarem no fim do ano, já não salvam esta campanha. Cada produtor que desiste hoje é menos produção nacional amanhã", conclui.
De acordo com os produtores, as tempestades Kristin, Leonardo e Marta vieram expor, uma vez mais, a vulnerabilidade da agricultura às alterações climáticas. "Isto já não é exceção, é um padrão", afirma Ana Martins. "Se não houver políticas eficazes de apoio e prevenção, vamos continuar a perder produção e autonomia alimentar", salientou.
Enquanto aguardam respostas, os agricultores mantêm a apanha possível, conscientes de que o impacto das chuvas de inverno se fará sentir durante toda a primavera. "O estrago não acabou com as tempestades. Só agora está a começar a aparecer nos campos e no mercado", conclui Carlos Silva.
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