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As autoridades de saúde do Michigan confirmaram as duas primeiras mortes associadas ao atual surto de cicloporíase nos Estados Unidos, uma infeção transmitida através de alimentos ou água contaminados que pode provocar diarreia grave. As vítimas tinham doenças pré-existentes significativas, que poderão ter sido agravadas pela infeção e pela desidratação, segundo as autoridades estaduais citadas pela BBC.

O parasita, que prolifera em climas quentes, infeta o intestino e é transmitido através de contaminação fecal. Em surtos anteriores, a infeção esteve associada ao consumo de fruta e legumes irrigados com água contaminada.

Em declarações ao 24notícias, o médico António Hipólito de Aguiar explica que a contaminação pode ocorrer quando existe contacto entre águas residuais e a água usada para regar as culturas, mas também devido a falhas nos cuidados de higiene durante a manipulação dos alimentos.

"Basta muitas vezes as alfaces, nessas grandes explorações, não terem os cuidados de higiene necessários para que este tipo de parasita contamine rapidamente os alimentos", afirma.

Uma vez no organismo, pode provocar uma infeção gastrointestinal marcada por diarreia intensa, cólicas abdominais, náuseas, fadiga e um elevado risco de desidratação devido à perda significativa de líquidos. "Ao longo de dois, três ou quatro dias, a pessoa acaba por desidratar", refere o médico.

Os responsáveis de saúde associaram o surto deste ano a alfaces importadas do México pela empresa Taylor Farms, um dos principais fornecedores de produtos frescos para cadeias de restauração nos Estados Unidos. Na sequência da investigação, a cadeia de fast food Taco Bell retirou estas alfaces dos seus restaurantes e a Taylor Farms anunciou uma recolha voluntária dos produtos provenientes da região central do México.

Poderá um surto semelhante acontecer em Portugal?

Para António Hipólito de Aguiar, um cenário com a mesma dimensão é pouco provável. O médico explica que a produção agrícola nacional está sujeita a um sistema de rastreabilidade que permite acompanhar os alimentos desde a produção até à chegada ao mercado. Esse controlo abrange a utilização da água de rega, dos produtos fitossanitários, as condições de transporte e a identificação dos lotes colocados à venda, facilitando a retirada de produtos caso exista suspeita de contaminação.

"Muito mais facilmente nós apanhamos um alimento que está potencialmente contaminado do que, se calhar, neste sistema americano", afirma, apontando para a escala da produção agrícola nos Estados Unidos e para a importação de alfaces provenientes do México.

Segundo o especialista, em Portugal predominam explorações agrícolas de menor dimensão e grande parte das alfaces consumidas é produzida no país, sobretudo em regiões como o Oeste e o Algarve.

Ainda assim, sublinha que as intoxicações alimentares podem acontecer e que o risco nunca é inexistente. "Dificilmente uma situação destas, com esta dimensão, acontece", considera.

Como reduzir o risco de contaminação alimentar?

Independentemente da origem dos vegetais, António Hipólito de Aguiar deixa algumas recomendações para reduzir o risco de contaminação alimentar. A principal é simples: lavar sempre os vegetais em água corrente, mesmo quando são vendidos em sacos identificados como prontos a consumir.

"Os vegetais são manuseados por pessoas que os tiram da terra e, muitas vezes, não usam luvas. Há todo um conjunto de circunstâncias relacionadas com a higiene que podem interferir diretamente na colheita", explica.

O médico aconselha ainda a evitar a contaminação cruzada na cozinha. Preparar saladas ao mesmo tempo que carne ou peixe pode facilitar a transferência de microrganismos entre alimentos, pelo que recomenda que estes sejam manipulados separadamente e com os devidos cuidados de higiene.

Outra das recomendações passa por guardar os vegetais no frigorífico assim que chegam a casa, sobretudo durante os meses mais quentes. Antes do consumo, acrescenta, é importante observar o estado dos alimentos e rejeitar aqueles que apresentem sinais de deterioração, como folhas acastanhadas, perda de frescura, mau cheiro ou outros indícios de degradação.

António Hipólito de Aguiar lembra ainda que as saladas e outros vegetais consumidos crus exigem cuidados redobrados, uma vez que não são sujeitos a temperaturas elevadas capazes de eliminar potenciais agentes contaminantes. "Devem ser passados muitas vezes por água corrente", reforça.

Quem corre mais riscos?

Embora a maioria das pessoas recupere sem complicações graves, a infeção pode ser mais perigosa para alguns grupos. Segundo António Hipólito de Aguiar, pessoas com o sistema imunitário debilitado têm maior probabilidade de desenvolver quadros mais graves.

"Qualquer pessoa que tenha uma doença que comprometa o sistema imunitário está sempre mais em risco", afirma o médico, dando como exemplos doentes com infeções crónicas, como o VIH, ou outras patologias que reduzam a capacidade de resposta do organismo.

Também pessoas fisicamente debilitadas, como idosos com fragilidade acentuada ou em recuperação de doença, podem ter maior dificuldade em combater a infeção.

Além destes casos, o especialista lembra que existem grupos que, de forma geral, exigem maior atenção perante qualquer doença infecciosa: grávidas, crianças pequenas e idosos.

Qual deve ser o tratamento?

António Hipólito de Aguiar alerta ainda que os sintomas da cicloporíase podem prolongar-se durante várias semanas e nem sempre desaparecem de forma definitiva. "Numa fase inicial podem melhorar e depois voltar", explica, acrescentando que, sem tratamento, a doença pode prolongar-se por mais de um mês.

O médico recomenda que quem apresente diarreia persistente, náuseas, vómitos, perda de apetite ou um estado de grande cansaço durante vários dias procure novamente assistência médica, sobretudo se os sintomas não desaparecerem ou regressarem após uma melhoria inicial.

O tratamento passa, habitualmente, pela administração de um antibiótico à base de cotrimoxazol, utilizado para combater este tipo de parasita. Ainda assim, o especialista sublinha que a prevenção continua a ser a melhor forma de evitar a infeção.

O surto já se alastrou a 45 estados norte-americanos. De acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), foram registados quase 7.000 casos confirmados em laboratório em todo o país. Apesar da dimensão do surto, a agência sublinha que a cicloporíase raramente é fatal e que, regra geral, não representa uma ameaça à vida.

O Michigan é o estado mais afetado. As autoridades locais contabilizam mais de 11 mil casos e 193 internamentos, embora nem todas as infeções tenham sido confirmadas por testes laboratoriais.

O surto levou também as autoridades de saúde do Reino Unido a emitir um alerta, depois de terem sido identificados casos da doença em viajantes que regressaram dos Estados Unidos.

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