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A poucos dias de mais uma edição do Startup Capital Summit, a Universidade de Coimbra reforça a ambição de posicionar Coimbra como uma referência nacional e europeia em inovação, empreendedorismo e transferência de tecnologia. Para Gabriela Fernandes, pró-reitora para o Empreendedorismo da instituição, a força da cidade enquanto polo inovador assenta, acima de tudo, na capacidade de transformar conhecimento científico em impacto económico e social.
“Somos uma referência de investigação a nível mundial em muitas áreas”, afirma a responsável, destacando o papel central da universidade no ecossistema regional de inovação. “A grande oportunidade é levarmos o conhecimento que é desenvolvido nos nossos centros de investigação para o mercado”.
No entanto, o caminho que une a ciência e o mercado continua a ser um dos grandes desafios do setor. Gabriela Fernandes acredita que acelerar a transferência de tecnologia exige, em primeiro lugar, uma mudança de mentalidade dentro da academia.
“É fundamental que investigadores e docentes pensem, desde cedo, no impacto que a sua investigação pode ter no mercado”, explica. Mesmo quando se trata de investigação fundamental, defende, deve existir desde o início uma preocupação com a sua aplicação futura.
A segunda dimensão passa pela criação de estruturas de apoio dentro da própria universidade. Nesse âmbito, a pró-reitora destaca o papel da UC Business, divisão dedicada à transferência de conhecimento e tecnologia, que acompanha projetos científicos desde a identificação de potencial de mercado até à sua valorização económica.
“Podemos olhar para uma investigação e perceber o que pode ser patenteável, para depois licenciar ou vender essas patentes. Ou então perceber que a melhor forma de levar essa tecnologia ao mercado é através da criação de uma spin-off”, explica, apontando a criação de novas empresas de base científica como uma das estratégias mais eficazes para transformar investigação em negócio.
Como incentivar o empreendorismo académico?
A estratégia da Universidade de Coimbra para reforçar o empreendedorismo académico assenta em três grandes pilares: capacitação, valorização do conhecimento e dinamização do ecossistema.
“Somos uma das universidades mais antigas da Europa, mas também uma universidade verdadeiramente empreendedora”, afirma Gabriela Fernandes. Na prática, isso traduz-se em programas que procuram envolver não apenas estudantes, mas também investigadores, docentes e toda a comunidade académica.
Entre as iniciativas mais emblemáticas está o Académica Start UC, programa que este ano celebra a sua décima edição. O modelo distingue-se por atribuir o título de embaixadores do empreendedorismo a 31 estudantes de diferentes áreas científicas, desafiando-os a criar iniciativas para os próprios colegas.
“É um programa inovador porque não é a universidade a desenvolver todas as iniciativas. São os próprios alunos a identificar necessidades e a responder-lhes”, explica.
A lógica é também competitiva, uma vez que os projetos com maior impacto são premiados, incluindo oportunidades internacionais como a participação em programas de verão da Babson College, em Massachusetts, uma das instituições de referência mundial em empreendedorismo.
Além disso, a universidade mantém um programa de apoio à criação de spin-offs, destinado a transformar conhecimento científico em novos negócios, e aposta em programas de mentoria, considerados essenciais para ajudar ideias nascidas em laboratório a chegar ao mercado. “Acreditamos muito que a mentoria é decisiva para transformar ideias em empresas”, resume a pró-reitora.
A importância da colaboração entre a academia e as empresas
A colaboração entre academia e setor privado é outro dos pilares que Gabriela Fernandes considera decisivos para consolidar Coimbra como destino de investimento e talento internacional. Apesar de reconhecer que persiste a ideia de uma universidade ainda fechada sobre si própria, a pró-reitora rejeita essa visão.
“Há muitas vezes a perceção de que a Universidade de Coimbra, por ser antiga, não colabora assim tanto com as empresas, mas isso é errado”, afirma.
Pelo contrário, sublinha que a Universidade de Coimbra tem vindo a reforçar a sua presença em projetos colaborativos de investigação, desenvolvimento e inovação com o setor empresarial, incluindo no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência.
“As empresas precisam de mostrar capacidade de inovação para atrair investimento, e a universidade é um parceiro fundamental nesse processo”, defende, acrescentando que esta relação permite às empresas tornarem-se mais inovadoras e, simultaneamente, reforça a relevância económica do conhecimento produzido na academia.
O sucesso das start-ups
Os casos de sucesso que têm surgido em Coimbra confirmam, segundo Gabriela Fernandes, a eficácia deste modelo assente na ligação entre universidade, investigação e mercado.
A Universidade de Coimbra tem vindo a gerar um número crescente de spin-offs académicas e startups tecnológicas, muitas delas apoiadas pelo Instituto Pedro Nunes, que a pró-reitora descreve como o “braço armado” da universidade para a promoção do empreendedorismo e uma referência internacional entre incubadoras académicas.
Para a pró-reitora, um dos maiores ensinamentos destes casos de sucesso é a importância de manter uma ligação duradoura entre as novas empresas e a academia. “Estas startups nascem da universidade e mantêm uma ligação muito forte à universidade, sobretudo através da captação de talento”, explica.
Essa relação, acrescenta, permite à academia contribuir diretamente para a criação de emprego qualificado na região.
“Uma startup hoje significa uma empresa com elevada capacidade de inovação e potencial de escala. Para isso, é fundamental manter-se ligada às instituições de conhecimento”, defende.
O que falta em Coimbra para se tornar um hub tecnológico de referência?
Apesar do crescimento do ecossistema, Gabriela Fernandes considera que o próximo grande desafio de Coimbra passa por criar condições para que as startups consigam escalar sem sair da região.
“Talento e conhecimento já temos”, afirma. Além da força da Universidade de Coimbra, a pró-reitora destaca também o contributo do Instituto Politécnico de Coimbra na formação de recursos altamente qualificados.
O que falta, na sua perspetiva, são sobretudo infraestruturas capazes de acompanhar o crescimento das empresas tecnológicas. Embora reconheça o papel estruturante do Instituto Pedro Nunes no apoio à incubação e aceleração, considera necessário investir numa nova geração de espaços e condições físicas que permitam às startups expandirem-se localmente.
“Quando as startups querem crescer e acelerar, precisam de infraestruturas para continuar a desenvolver-se aqui”, afirma. “Esse é talvez o principal investimento que Coimbra deve fazer nos próximos anos”.
A necessidade de fixar jovens na cidade
A retenção de talento continua a ser um dos maiores desafios para Coimbra. Apesar de reconhecer que a cidade oferece qualidade de vida e condições atrativas para estudantes e jovens qualificados, Gabriela Fernandes admite que a falta de massa empresarial continua a empurrar muitos deles para outros destinos.
“O problema não é a cidade, mas sim a falta de emprego suficiente”, afirma. Sem um número mais significativo de empresas instaladas na região, muitos jovens acabam por procurar oportunidades em Lisboa, Porto ou no estrangeiro, alimentando um ciclo de saída de talento que Coimbra procura travar.
Para inverter essa tendência, defende, é necessário atuar em duas frentes: atrair mais empresas para a cidade e continuar a estimular a criação de novos negócios nascidos dentro da academia.
“Se não há emprego, criem-no”, diz, resumindo a mensagem que costuma deixar aos estudantes da Universidade de Coimbra. “Façam o autoemprego. Criem as vossas próprias empresas”.
Na sua perspetiva, este desafio ultrapassa Coimbra e deve ser pensado à escala nacional. “Portugal precisa de criar mais empresas altamente tecnológicas, de alto valor acrescentado, capazes de remunerar melhor os nossos recursos e fixar talento”, defende.
O impacto do Startup Capital Summit
É precisamente o objetivo de melhorar os recursos que, para Gabriela Fernandes, justifica a relevância crescente do Startup Capital Summit 2026 no calendário nacional da inovação. A pró-reitora descreve o evento como uma das principais formas de promover empreendedorismo e transferência de conhecimento, sublinhando, porém, que esse trabalho só é possível através de uma forte lógica de parceria. Além da universidade, destaca o papel da Câmara Municipal de Coimbra, da Região de Coimbra e do Instituto Pedro Nunes como atores essenciais para consolidar o ecossistema local.
“O Startup Capital Summit é um espaço privilegiado para criar ligações”, resume. Através de encontros entre startups, investidores, investigadores, estudantes, empresas e entidades públicas, o evento procura gerar networking, oportunidades de negócio e novas parcerias capazes de transformar conhecimento científico em impacto económico.
Para a responsável, esse é também o reflexo da chamada “terceira missão” da universidade. “Ser uma universidade empreendedora é ser capaz de levar a ciência e o conhecimento para o mercado”, conclui.
Mais do que uma conferência, o Startup Capital Summit 2026 afirma-se como um instrumento estratégico para projetar Coimbra como um ecossistema de inovação cada vez mais competitivo. A cidade dos estudantes pretende ser reconhecida como lugar onde o conhecimento é produzido, transformado em negócio e colocado ao serviço do desenvolvimento económico e social.
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