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Nas ruas da Praça dos Restauradores, movimentadas como é habitual, é impossível não ouvir falar do acidente que marcou o dia de ontem. As conversas de quem por aqui passa são quase todas sobre a tragédia do Elevador da Glória. Ouvem-se críticas à autarquia, desabafos de tristeza, e acima de tudo, expressões de empatia.

Ao amanhecer, surgiu um novo dia, mas o episódio que se viveu ontem está longe de ter ficado para trás. Os destroços continuam no mesmo sítio, uma imagem que deixa boquiabertos grande parte dos turistas que param para tirar fotografias. A única diferença é a fita da Proteção Civil que agora limita o local, onde podem apenas entrar autoridades.

Entre a multidão estão Joe e Hannah, dois norte-americanos que vieram passar férias a Lisboa.

O casal contou ao 24notícias que passou pelo local ontem, cerca de 15 minutos depois do acidente.

"Foi horrível. Quando aqui chegámos, os bombeiros já estavam a retirar os corpos", diz Joe.

"Sendo americana, a primeira coisa que pensei quando vi o aparato foi que tinha acontecido um tiroteio. Fiquei chocada quando vi que foi o elevador", confessa Hannah.

Há dois dias, o casal ponderou andar no Elevador da Glória, uma vez que não está "habituado às subidas", mas nesse dia, optou por não ir. Hoje, os dois voltaram a passar por aqui, uma vez que estavam perto, para ver o estado da situação.

"É muito triste ver o que aconteceu. O Elevador da Glória é um marco tão icónico da cidade", diz Hannah.

Apesar do acidente, o casal admite que o episódio de ontem não mudou a ideia que têm sobre a capital portuguesa. "Continuamos a amar Lisboa. Hoje vamos continuar a explorar, só que um pouco mais tristes", diz Joe.

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À volta dos jornalistas estão também vários moradores dos arredores dos Restauradores que saíram das suas casas para ver, em primeira mão, o cenário do dia seguinte.

Uma delas é Maria Teresa, de 58 anos, que observa a investigação das autoridades na primeira fila, enquanto comenta com os vizinhos.

"O meu filho costuma apanhar este elevador. Por acaso ontem não, mas é quase todos os dias", conta ao 24notícias.

Maria Teresa diz que nunca viu nada parecido, mas num discurso mais pessimista acredita que cada vez mais vão ser frequentes situações como esta.

"Cada vez vai ser pior. Como foi este, vai ser o da Bica", diz, considerando que existe uma falta de preocupação com as infraestruturas da cidade.

"Eu sou lisboeta e cada vez estou a ficar mais triste de ver como o meu país está a ser degradado. Não há quem meta mão nisto".

Questionada sobre o acidente que vitimou tanto portugueses como estrangeiros, Maria Teresa aponta a crescente imigração como uma das razões para a degradação de Lisboa.

"Desde que veio muita gente de fora isto está como está. E nós, cidadãos portugueses, não temos o mínimo de proteção", diz.

Coincidentemente, do outro lado da estrada, o 24notícias cruzou-se com Farid Shovro, que veio do Bangladesh e atualmente, é proprietário de uma loja de souvenirs na Praça dos Restauradores.

Após ter ouvido o estrondo provocado pelo descarrilamento do elevador, Farid abandonou a loja e correu para o outro lado da praça. Foi um dos primeiros a chegar ao local.

"Devo ter demorado uns 30 ou 40 segundos a chegar ao outro lado mas já não restava nada. Houve muitas mortes imediatas", conta.

O proprietário descreve o cenário do acidente como "caótico" e "triste", mas acima de tudo, confessa que o que viveu ontem é algo que não se explica.

"É tão triste ver tantos corpos juntos. Não consigo explicar, é algo que se sente no coração", conta, com lágrimas nos olhos.

Entre os destroços, captados por Farid através do seu telemóvel, estava uma criança que o chamou à atenção. Com sangue na cara e sentado no chão, chorava sozinha.

"Eu e o meu amigo pegámos nele ao colo, porque pensámos logo que algo podia ter acontecido aos pais. Não é normal ver uma criança sozinha", admite, e adianta que pouco depois entregaram a criança às polícia que já estava no local.

Sabe-se hoje que a criança resgatada é alemã e tem três anos. A mãe e o pai estão ambos internados no Hospital de São José. A comunicação social avançou que o pai da criança teria morrido no acidente, mas mais tarde, veio-se a confirmar que afinal, era um dos feridos.

Farid conta que tanto a polícia como os bombeiros chegaram o mais depressa possível, mas que apesar do trabalho árduo, muita gente já não podia ser salva.

As imagens do dia de ontem não saem da mente de Farid desde então, e o que descreve como um episódio "traumático" dificilmente desaparecerá.

"Ontem à noite nem conseguia sentir o sabor da comida, e mesmo quando estava a dormir, parecia que conseguia ouvir o choro da criança ao meu colo".

Entre tudo aquilo que presenciou, a imagem que mais tem ocupado a cabeça de Farid são os olhos da criança. Afinal, é difícil não fazer um paralelismo com o mundo que lhe é mais próximo.

"A maneira como ele olhou para mim e esticou os braços é o que não me sai da cabeça. Tenho uma filha da mesma idade e sempre que chego a casa depois do trabalho, ela vem a correr e abre os braços da mesma forma", conta.

"Não sei quem é a criança, mas naquela situação, senti que era meu filho".

*Informação atualizada às 12h03 do 05/09/2025 para dar conta que o pai da criança alemã foi encontrado com vida*