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Em Paris, um grupo de pessoas percorre a cidade de bicicleta à procura de canteiros vazios, terrenos abandonados e outros espaços sem utilização. Quando encontram um local adequado, lançam pequenas bolas de terra, farinha e sementes de plantas polinizadoras, numa prática conhecida como "jardinagem de guerrilha".
A iniciativa foi organizada pela designer urbana Lily Tagiuri no final de abril, de acordo com o Service95. Cerca de uma dúzia de pessoas reuniu-se no 4.º arrondissement e percorreu a cidade, passando pela árvore mais antiga e pela mais alta, enquanto discutia o potencial dos espaços verdes para melhorar a qualidade do ar, reduzir as temperaturas e aumentar a biodiversidade.
Para muitos dos participantes, era a primeira experiência de jardinagem de guerrilha, uma prática que consiste em plantar em espaços públicos sem autorização. A intenção passa por transformar zonas abandonadas, mas também por melhorar o ambiente envolvente e aumentar a diversidade ecológica.
Lily começou a ensinar outras pessoas a recolher e propagar sementes silvestres durante a pandemia, quando percebeu que muitos habitantes das cidades estavam cada vez mais desligados da ecologia dos locais onde vivem. Depois de se mudar de Nova Iorque para Paris, começou a espalhar sementes pelo novo bairro como um "pequeno ato de generosidade".
De Paris a Sófia
A prática também está a ganhar espaço noutras cidades. Em Sófia, na Bulgária, a artista Ana Avramova-Pesheva começou por transformar um pequeno terreno junto ao seu estúdio, sem sequer saber que existia um nome para aquilo que estava a fazer.
Ana vive num bairro de edifícios pré-fabricados construído durante a época soviética, marcado por filas de edifícios cinzentos. As flores que plantou trouxeram cor ao espaço.
Foi mais tarde, através da internet, que descobriu o movimento da jardinagem de guerrilha. "Parecia o tipo certo de resistência para mim", conta.
No ano passado, começou a produzir e distribuir os seus próprios pacotes de sementes, cada um com uma ilustração da sua autoria, sob o nome "Growing Resistance". Desde então, o espaço que começou por cuidar ganhou nova vida. "Quando comecei a cuidar do meu espaço verde, o solo era frio e duro. Agora está cheio de minhocas, escaravelhos e outros pequenos animais", relata.
Atualmente, Ana trabalha num espaço comum em frente ao seu prédio, utilizando sementes obtidas através de trocas, intercâmbios de plantas e restos não vendidos de uma florista local. O projeto acabou também por aproximar os moradores: pessoas mais velhas do prédio passam pelo local, dão conselhos, ferramentas e ajudam no trabalho.
Uma forma de recuperar algum controlo
A jardinagem de guerrilha tem também uma dimensão de intervenção cívica. Pequenas ações em espaços públicos podem ser uma forma de recuperar alguma capacidade de ação num contexto que muitas pessoas consideram cada vez mais absurdo, tanto do ponto de vista político como ambiental.
Em Londres, a escritora e ativista Ellen Miles começou durante a pandemia a juntar jardineiros amadores através de grupos no WhatsApp, Nextdoor e Facebook. O grupo começou a plantar em Hackney, bairro onde nasceu e cresceu.
Em 2023, Ellen publicou o livro "Get Guerrilla Gardening", um manual destinado a incentivar outras pessoas a experimentar esta prática.
Para a ativista, a jardinagem de guerrilha tem uma dimensão anárquica, mas não é destrutiva. Trata-se, sobretudo, de permitir que as comunidades decidam o que querem fazer com os seus próprios espaços.
Ellen acabou por afastar-se da parte mais pública do movimento por considerar que a prática funciona melhor quando nasce das próprias comunidades e quando os moradores discutem entre si o que gostariam de ver nos seus bairros.
Um movimento com raízes nos anos 70
A jardinagem de guerrilha é habitualmente associada ao movimento Green Guerrillas, criado pela ativista Liz Christy em Nova Iorque, na década de 1970.
No entanto, Ellen Miles considera que muitas das pessoas que praticam este tipo de jardinagem nem sequer conhecem o termo. É o caso de pessoas que plantam em campos de refugiados, prisões ou terrenos locais e que podem descobrir posteriormente que aquilo que fazem também é considerado jardinagem de guerrilha.
A prática está hoje presente em cidades como Londres, Tessalónica, Sydney e Toronto. Uma das suas características é a facilidade de participação: basta encontrar um espaço negligenciado e próximo e ter sementes, ferramentas e água.
Para Ellen, plantar permite recuperar uma sensação de controlo através de uma ação concreta. "Quando a crise climática parece estar para lá do nosso controlo e o mundo parece sombrio, é reconfortante lembrar que podemos sempre cultivar alguma coisa", afirma.
Como começar?
Segundo Ellen Miles, o primeiro passo é escolher um local "negligenciado e próximo". Ter o espaço perto de casa facilita o transporte de equipamentos, ferramentas e água.
A jardinagem de guerrilha também pode ser feita individualmente ou em grupo e não precisa de seguir um calendário rígido. O grupo de Lily Tagiuri em Paris, por exemplo, aproveita dias de bom tempo para percorrer a cidade e espalhar sementes.
Encontrar outras pessoas com os mesmos interesses pode ser outra forma de manter o projeto. Foi através da troca de ideias e sonhos com outras duas mulheres búlgaras que Ana Avramova-Pesheva desenvolveu o projeto "Growing Resistance".
A prática tem ainda comunidades organizadas em diferentes partes do mundo. Em Paris, a Systems of Matter promove workshops, visitas de campo e eventos sobre os ecossistemas urbanos. Em Londres, a Grow To Know nasceu na sequência do incêndio da Torre Grenfell, em 2017, e continua a trabalhar como coletivo comunitário.
Em Los Angeles, o Ron Finley Project começou quando Ron Finley plantou legumes em terrenos abandonados de South Central LA. Depois de ter recebido uma notificação por cultivar sem autorização, lutou para alterar as regras. Atualmente, é permitido cultivar jardins e alimentos nos espaços públicos junto às estradas em Los Angeles.
Em Tessalónica, a cooperativa social Cob: Building With Earth, que trabalha com agricultura sustentável, construção natural e turismo responsável, organiza também workshops de "seed bombing" destinados a famílias e jovens.
A própria Lily Tagiuri levou a ideia para uma dimensão pessoal. No funeral do pai, há um ano, distribuiu pacotes de sementes de flores silvestres perenes para que familiares e amigos as plantassem em sua memória. Desde então, tem recebido fotografias das flores a crescer em vários pontos dos Estados Unidos, desde terrenos vazios a telhados e jardins.
"De certa forma, todas as pessoas que aceitaram plantar sementes em homenagem ao meu pai tornaram-se jardineiros de guerrilha", diz.
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