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Cada vez mais particulares e empresas procuram proteção com receio de cenários de guerra, ataques nucleares, pandemias ou desastres ambientais. Empresas como a Portugal Bunkers & Shelters, que é desde janeiro marca registada da Ecoreflexus, ou a Solid Bunkers, de Rui Ribeiro, têm registado um aumento significativo da procura nos últimos anos.

Segundo Miguel Cristóvão, responsável pela Portugal Bunkers & Shelters, só a venda de máscaras CBRN (e filtros), concebidas para proteger contra ameaças químicas, biológicas e radiológicas, já ronda as 100 unidades por semana (o conjunto custa em média 80€), e a construção de bunkers chave na mão é cada vez mais requisitada, com preços médios na ordem dos 75 mil euros. "Posso adiantar que temos muita procura por portas blindadas e purificadores de ar CBRN para conversão de espaços", acrescenta.

A motivação dos compradores é clara: "A maioria sente uma grande apreensão com o panorama político atual e manifesta receio de acidentes nucleares, guerra convencional ou novas pandemias", justifica. "O kit de emergência está na ordem do dia".

Rui Ribeiro, da Solid Bunkers, explica que muitos estrangeiros que constroem casas em Portugal exigem abrigos de raiz, preparados para ameaças nucleares, biológicas ou químicas, seguindo normas internacionais, parcialmente inspiradas em modelos suíços.

Apesar do interesse privado, Portugal continua sem uma rede pública de bunkers civis certificados. O Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA) garante que possui subterrâneos em Lisboa e no resto do país, mas recusa-se a revelar locais e características: "Por motivos de segurança, não serão prestadas declarações sobre a matéria em causa", respondeu ao 24notícias. Trata-se de "informação sensível", diz o EMGFA. "Mesmo alguns bunkers desativados podem vir a ser reativados em caso de necessidade", explica.

O conceito de proteção subterrânea não é novo em Portugal: durante a Segunda Guerra Mundial, fortes e baterias costeiras, como a Bateria da Ponta da Espalamaca (Açores) ou a Bateria da Parede (Cascais), foram equipadas com bunkers e casamatas.

Sabemos que existem algumas infraestruturas militares subterrâneas com características de abrigo, como o Centro de Comando e Controlo subterrâneo em Monsanto — estrutura ligada à Força Aérea, que tem sido referida como tendo capacidade em caso de ataque nuclear, biológico ou químico —, o antigo comando da NATO em Oeiras — construído no século XIX e desativado em 2012, onde passou a funcionar o Naval Striking and Support Forces —, o Forte de São Julião da Barra — no passado considerado o "escudo do reino" —, ou o Forte do Alto do Duque, no Parque Florestal de Monsanto — construído para defender a barra do Tejo e que entrou em combate na altura da Guerra Civil Espanhola e mais tarde foi quartel-general do COPCON - Comando  Operacional do Continente.

O que dizem os especialistas

Apesar dos exemplos mencionados, não existem instruções para a população civil em caso de ataque. O major-general Isidro de Morais Pereira admite: "Se Lisboa for atacada por um míssil balístico, não tem como se defender. É rezar". A solução, na prática, passa por locais improvisados, como estações de metro ou garagens subterrâneas, sem sistemas de filtragem ou proteção química.

"Nem sequer há um sistema para abrir e fechar as portas do metro. E há reservas de alimentos? Há uma reserva nacional de medicamentos? Onde estão? Há todo um trabalho para ser feito, Portugal tem de colmatar lacunas relativas a determinado tipo de equipamento, a um sistema de defesa antiaéreo baseados em terra, que é uma das principais lacunas, senão a principal — olhamos para Israel e dizemos que tem o céu mais bem defendido do mundo porque tem uma defesa antiaérea em três camadas (e mesmo assim de vez em quando entra um míssil)", lembra o major-general. "O que Portugal tem de fazer, para já, é não enterrar a cabeça na areia e andar a arrastar os pés ou a protelar determinado tipo de decisões. O dinheiro já sabemos que é sempre curto".

Miguel Cristóvão acrescenta: "Portugal está atrasadíssimo em questões de defesa pessoal/civil. Nem chega a estar atrasado: a proteção é inexistente — aliás, como se constata sempre que se dá uma tragédia, o recurso estrutural de abrigo é por norma um quartel de bombeiros", exemplifica. Para o responsável, soluções como converter estações de metro em abrigos comunitários ou obrigar a que novas construções incluam bunkers seriam passos fundamentais.

"O governo poderia aprender com a Suíça, onde parte da construção subterrânea dos edifícios é obrigatoriamente preparada como abrigo civil", considera Miguel Cristóvão. E sugere incentivos fiscais para a aquisição de equipamentos certificados e modernos.

Se existe uma estratégia séria de proteção civil em caso de emergência, ela não é conhecida pelos principais interessados: a população nacional. Apenas as vulnerabilidades são do conhecimento público: Portugal não tem, por exemplo, um sistema de defesa antiaéreo e a sociedade civil não está organizada. "Se soar um alarme, deve ser a corneta dos bombeiros", avisa Isidro de Morais Pereira.

A falta de estratégia estruturada é visível também em termos de reservas nacionais. Não há garantias de stocks de alimentos, de medicamentos ou mesmo de água em caso de crise prolongada. Nem protocolos claros para proteção química, biológica ou nuclear da população.

O ressurgimento do interesse em bunkers acontece num contexto de tensão global. A guerra na Ucrânia, a corrida ao armamento nuclear, a guerra híbrida e os ataques cibernéticos obrigam os países a repensarem a segurança civil. Portugal, como membro da NATO e da União Europeia, enfrenta o desafio de se posicionar estrategicamente, garantindo a proteção da população e a resiliência económica. O investimento na defesa e na preparação civil torna-se uma questão de sobrevivência, não apenas militar, mas económica e social.

Os planos que ninguém conhece

Em resposta às perguntas do 24notícias, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil diz que a matéria é "bastante abrangente, quer no que respeita às ações a adotar, quer no âmbito das competências da ANEPC, até porque a coordenação da resposta a alguns dos cenários mencionados  –  como uma guerra convencional ou eventuais novas pandemias  –  passará por outras entidades", diz.

Ainda assim, garante que "o Sistema de Proteção Civil dispõe de diversos instrumentos destinados a responder a acidentes graves ou catástrofes, aplicáveis também aos cenários apresentados. Entre esses instrumentos incluem-se os planos de emergência para os diferentes níveis territoriais –  Plano Nacional de Emergência de Proteção Civil (PNEPC)Planos Distritais (PDEPC) e Planos Municipais (PMEPC) – que definem as regras, normas e procedimentos a adotar em situação de acidente grave ou catástrofe (disponíveis em http://planos.prociv.pt)".

"Complementarmente, o Sistema Nacional de Proteção Civil dispõe de diretivas operacionais que aprofundam os mecanismos de coordenação institucional e operacional entre as organizações intervenientes. Estes instrumentos estabelecem orientações para áreas essenciais da resposta, como a avaliação e reconhecimento da situaçãogestão da informação, monitorização e alerta, apoio logístico, definição de perímetros de segurança ou a emergência médica, entre outras. Contribuem, assim, para agilizar os procedimentos e normas de atuação previstos na Lei e decorrentes da Lei de Bases da Proteção Civil, do Sistema Integrado de Operações de Proteção e Socorro e do Sistema de Gestão de Operações", acrescenta.

"Uma das componentes dos Planos de Emergência é a de “Confinamento e Evacuação”, onde são estabelecidos os procedimentos e instruções de coordenação associados às operações de confinamento e/ou evacuação e movimentação das populações, designadamente identificação de Pontos de Encontros, itinerários de evacuação, abertura de corredores de circulação de emergência, controlo de acesso às áreas afetadas e controlo de tráfego", adianta a ANEPC.

"Esta informação é complementada pela constante na Área de Intervenção de Apoio Logístico às Populações, na qual é tipificada a localização das Zonas de Concentração e Apoio à População, espaços destinados a garantir o alojamento temporário das populações evacuadas ou desalojadas e onde são executados os procedimentos básicos de assistência a essas populações", avança.

A Autoridade Nacional explica ainda que "no que respeita aos mecanismos de aviso à população, os Planos de Emergência incluem informação quanto à forma como a população será avisada e mantida informada durante a ocorrência, de modo a que possa seguir as instruções das autoridades e adotar as medidas de autoproteção mais convenientes. Os procedimentos a estabelecer incluem a identificação da(s) entidade(s) responsável(eis) pela emissão do aviso, a indicação do meio/canal a usar e a tipificação dos conteúdos a transmitir à população".

"Por fim, e de acordo com o princípio da subsidiariedade que norteia o sistema de proteção civil, a definição mais fina da localização dos pontos de encontro, rotas de evacuação e zonas de concentração e apoio à população, bem como dos mecanismos de aviso à população, é efetuada à escala local, sendo plasmada, à medida que tal definição vai acontecendo, nos Planos Municipais de Emergência de Proteção Civil".

Preparar o futuro

A procura crescente de bunkers privados em Portugal revela o medo de um cenário em que o Estado não garante proteção. A população, consciente dos riscos, procura auto-proteção, enquanto especialistas e militares alertam para a necessidade de políticas públicas claras e investimentos estratégicos.

Não basta ter uma dúzia de estações de metro, onde se inclui a da Baixa-Chiado, a 38,75 metros de profundidade, alguns parques de estacionamento subterrâneos ou garagens, grutas e até as caves de diversas empresas vinícolas como a Esporão, no Alentejo —, para dizer que o país está preparado para o pior.

Miguel Cristóvão disse ao 24notícias que a Portugal Bunkers & Shelters já apresentou as suas soluções à Proteção Civil e ao Ministério da Defesa e confirmou que está em "negociações" com algumas entidades públicas, mas os pormenores são "informação confidencial".

O responsável acredita que o governo português e as autoridades responsáveis deviam fazer mais nesta matéria. Para começar, "converter estações de metro e similares em abrigos comunitários, obrigar, como na Suíça, a que uma parte da construção subterrânea dos edifícios — como caves em betão —, sejam abrigo/bunker".

Na Ucrânia, também as estações de metro foram convertidas em abrigos de proteção contra os bombardeamentos russos, tal como os parque de estacionamento subterrâneo de hospitais foram convertidos em maternidades. O mesmo fez Londres, por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial.

Em caso de bombardeamento, os locais de abrigo têm de ser escolhidos criteriosamente, e a segurança depende não apenas da profundidade, mas também dos materiais de que é feita a estrutura. Além disso, pesa na equação a arma utilizada, em capacidade e precisão.

O responsável lembra o que para si é uma contradição: "Obriga-se a fazer construção anti-sísmica, a ter seguros de vida, seguros para estruturas, para gás, mas depois aquilo que é a proteção real de vida, nada". Por isso, por último, acredita que se devia considerar a aquisição de material certificado para edificação, modernização ou transformação de estruturas civis ou militares em abrigos/bunkers como despesa em defesa.

Rui Ribeiro, da Solid Bunkers, também está convencido de que "não há visão política em Portugal, basta olhar para os casos do TGV e do aeroporto. Existem ameaças invisíveis e o que a empresa faz é ser ativa em relação a elas".

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