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À porta da Livraria Lello, no Porto, cruzam-se todos os dias línguas, sotaques e expectativas. Há quem procure a famosa escadaria vermelha, quem ainda associe o espaço ao imaginário de Harry Potter e quem, agora, queira conhecer a biblioteca de Dua Lipa. Mas, por detrás das fotografias e da fama internacional, existe uma outra história, a de uma livraria que, aos 120 anos, procura reafirmar o papel dos livros numa época em que a liberdade de expressão volta a ser questionada.

A história da Livraria Lello começa antes de 1906, data da inauguração do edifício da Rua das Carmelitas. As suas raízes encontram-se na Livraria Chardron, fundada pelo livreiro francês Ernesto Chardron, uma figura essencial da edição portuguesa do século XIX. Foi através da sua atividade editorial que chegaram ao público obras de autores como Eça de Queiroz e Camilo Castelo Branco.

Quando, em 1894, os irmãos Lello assumiram a livraria, herdaram não apenas um negócio, mas também uma tradição editorial. A inauguração do atual edifício, a 13 de janeiro de 1906, reuniu nomes como Guerra Junqueiro e Aurélio Paz dos Reis, pioneiro do cinema português. 

Durante as décadas seguintes, a Livraria Lello tornou-se uma referência da edição portuguesa, publicou autores nacionais e internacionais e participou em projetos editoriais ambiciosos, como a primeira tradução integral das obras de Shakespeare para português. Entre os seus catálogos encontravam-se nomes como Alexandre Dumas, Gustave Flaubert, Miguel de Cervantes, Victor Hugo e Charles Darwin.

Ao longo do século XX, a arquitetura começou a ganhar protagonismo. A escadaria central nem sempre foi vermelha. A cor surgiu durante uma intervenção realizada em 1993 e acabou por ficar depois de conquistar o mestre escultor José Rodrigues  que quando a viu ficou logo "fascinado". 

O reconhecimento internacional cresceu nas últimas décadas. Primeiro através de referências literárias e culturais, depois com distinções atribuídas por publicações como The Guardian e Lonely Planet. A fama trouxe milhares de visitantes, mas também um problema: "Era apenas um ponto de referência para tirar fotografias e as pessoas não compravam livros", explica Tiago Alves, coordenador de comunicação da Livraria Lello ao 24notícias

Foi nesse momento que a instituição decidiu repensar a relação entre turismo e missão cultural.

Em 2015, implementou um sistema de bilhete cujo valor pode ser descontado na compra de livros. A medida permitiu recuperar a livraria que já se encontrava num estado de degradação. Atualmente, segundo Tiago Alves, mais de 70% dos visitantes acabam por comprar um livro. "O objetivo é simples: fazer com que quem entra saia também como leitor", refere.

O projeto de restauro e conservação do edifício terminou em 2018 e, mais recentemente, a livraria expandiu-se para um novo espaço desenhado por Álvaro Siza Vieira. A área disponível passou de cerca de 200 para mil metros quadrados. E, atualmente, a entrada e saída já não é feita pelo mesmo sítio.

"Não é necessariamente para receber mais pessoas", esclarece Tiago Alves. "Foi para as receber melhor."

Na programação cultural de 2026 o tema escolhido pela livraria foi a liberdade de expressão. A exposição de Ai Weiwei insere-se nessa reflexão e lança uma questão ao público: "O que acontece quando a liberdade deixa de ser garantida e passa a depender da coragem de imaginar, pensar e expressar novas possibilidades?"

"A4": a folha em branco como símbolo de resistência

A primeira paragem do novo espaço é uma galeria dedicada à arte contemporânea. No centro encontra-se "A4", uma instalação do artista chinês Ai Weiwei composta por centenas de folhas brancas.

A obra inspira-se nos protestos ocorridos na China durante a pandemia de covid-19, quando manifestantes levaram folhas brancas para as ruas como símbolo de oposição silenciosa ao governo. 

"O artista trabalha muito neste lugar do protesto silencioso. As folhas A4 sem texto não podem ser censuradas", relata a livreira encarregue desta secção.

Ao lado da instalação encontra-se uma grande caixa de madeira com milhares de folhas impressas. "Aqui estão todos os tweets que Ai Weiwei publicou", demonstra. "Quando a conta foi bloqueada pelo governo chinês, decidiu imprimi-los todos. Assim, a passagem do digital para o físico tornou-se "um testemunho do que aconteceu".

A exposição recupera também outro gesto simbólico do artista: uma bicicleta com um cesto cheio de flores. Depois de ter sido detido durante 81 dias pelas autoridades chinesas e de lhe ter sido retirado o passaporte, Ai Weiwei começou a colocar diariamente uma flor numa bicicleta estacionada junto à sua casa.

"Sabia que estava a ser vigiado", elucida a livreiros. "Mas continuava a fazê-lo."

A mostra inclui ainda livros e artbooks relacionados com censura. Um dos exemplos apresenta duas edições da mesma obra: numa aparece o nome do autor; noutra, publicada na China, esse nome desaparece.

"É uma forma de apagamento", acrescenta.

“Manifesto Library”: uma biblioteca contra o esquecimento

Quando se entra no piso de baixo a luz torna-se mais suave e ouvimos de fundo a voz de Dua Lipa. Na parede está projetado um vídeo, narrado pela mesma, com trechos do podcast "Service95 Book Club with Dua Lipa", onde entrevista vários autores como Margaret Atwood ou Ocean Vuong. 

A "Manifesto Library" é a primeira biblioteca física criada pelo Service95, plataforma editorial fundada pela artista britânica, em parceria com a Livraria Lello.

Dua Lipa inaugura curadoria dedicada a livros censurados na Livraria Lello
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Questionado pelo 24notícias se, desde que estreou no dia 2 de julho, há mais gente interessada, Tiago Alves responde que se notou "sobretudo mais atenção da imprensa internacional". "Na afluência das pessoas não há uma grande diferença", acrescenta.

Nas estantes estão cem livros escolhidos pela equipa do Service95 e pela Livraria Lello. O critério comum é que "são livros que questionam ou foram questionados ao longo do tempo", explica Tiago Alves. "Muitos foram censurados ou proibidos precisamente porque colocavam questões incómodas para quem detinha o poder."

A coleção organiza-se em quatro temas:

"Controlo — Como funciona?"

Livros sobre os mecanismos através dos quais as sociedades condicionam os indivíduos, incluindo "Quinta dos Animais", de George Orwell, e "A História de Uma Serva", de Margaret Atwood.

"Voz — Quem é ouvido?"

Obras que recuperam vozes silenciadas ou marginalizadas, como "Por Favor, Não Matem a Cotovia", de Harper Lee.

"Memória — O que permanece?"

Livros que preservam histórias ameaçadas pelo tempo, pelo poder ou pela violência, como "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera e "A Máquina de Fazer Espanhóis", de Valter Hugo Mãe.

"Poder — Quem decide?"

Obras que questionam autoridade, verdade e legitimidade, como "1984" de George Orwell e  "O Segundo Sexo", de Simone de Beauvoir.

Enquanto alguns visitantes percorrem as estantes em silêncio, outros sentam-se simplesmente a ler. "Queríamos que este fosse um espaço de introspeção", diz Tiago Alves. "Um espaço para pegar num livro e sentar-se aqui."

Entre os cem títulos encontram-se também autores portugueses como o já mencionado Valter Hugo Mãe, mas também Lídia Jorge, Dulce Maria Cardoso e Gonçalo M. Tavares.

"Foi um exercício exigente chegar aos cem livros", admite. "Mas não é um processo fechado. Há espaço para crescer e ouvir o feedback dos leitores."

A escolha do tema surge num momento em que a discussão sobre censura literária regressou ao espaço público. "Quando pensamos num livro, pensamos numa ferramenta de reflexão. Faz-nos todo o sentido falar de liberdade de pensamento e de expressão. Infelizmente, em 2026 esta temática é mais atual do que nunca. No ano passado foi batido o recorde de livros censurados em bibliotecas e escolas nos Estados Unidos. Não é um problema de há cem anos. É um problema de hoje. E, para nós, é uma prioridade."

Os “tesouros” da Sala Gema: os livros de Amy Winehouse e cartas de amor de Bob Dylan 

Depois da arte contemporânea e da "Manifesto Library", regressou-se à entrada principal e entrou-se na Sala Gema, "Este é o tesouro da Livraria Lello", diz a galerista . As visitas são limitadas a pequenos grupos e acontecem apenas duas vezes por dia.

Durante décadas, o espaço funcionou como armazém. Hoje guarda primeiras edições, manuscritos, espólios pessoais e livros raros..

"Temos aqui quatro legados diferentes que estamos a tentar preservar", refere.

Entre eles está o espólio da Coimbra Editora e parte da coleção da Brazenhead Books, uma livraria de Nova Iorque que continuou a existir clandestinamente na casa do proprietário depois de perder o espaço comercial.

Contudo, a coleção que mais surpreende visitantes é a biblioteca pessoal de Amy Winehouse, adquirida pela Livraria Lello em 2025.

A coleção revela uma artista diferente daquela que o público conheceu através da música.

"Muita gente não associa a Amy Winehouse à literatura", diz a livreira. "Mas ela tinha uma relação muito forte com os livros."

As estantes acompanham diferentes fases da vida da cantora: da adolescência aos anos de maior exposição pública, passando pelas leituras que procurou em momentos difíceis.

Entre os livros encontram-se anotações manuscritas da própria, listas de palavras, marcas pessoais e até beijos de batom.

A coleção mostra que uma biblioteca pessoal pode ser também uma autobiografia. "Quando mergulhamos nesta biblioteca, acabamos por nos apaixonar por outra Amy."

Noutro lado do corredor, a ocupar grande parte da parede está a primeira fotografia tirada na Livraria Lello onde estão presentes Guerra Junqueiro e Aurélio Paz dos Reis, ao lado estantes com as primeiras edições de várias obras entre elas: Harry Potter.

A galerista conta que "muita gente entra aqui convencida de que J. K. Rowling escreveu os livros na Livraria Lello ou que houve uma parceria connosco." Mas faz questão de separar mito e realidade: "Como livreira, tenho de dizer quais são os factos. E os factos são que não. A própria J. K. Rowling já disse publicamente que nunca esteve aqui."

No mesmo espaço estão as 42 cartas de amor escritas por Bob Dylan entre 1957 e 1959, muito antes do Prémio Nobel da Literatura, mostram um Bob Dylan desconhecido.

"Quando pensamos em Bob Dylan, pensamos sempre nele já como uma lenda", diz. "Mas aqui encontramos um rapaz inseguro, cheio de dúvidas, que ainda sonhava vender um milhão de discos."

"É essa ingenuidade que torna estas cartas tão bonitas", acrescenta. "Hoje já quase ninguém escreve cartas."

No site, a Livraria Lello apresenta-se como "mais do que uma livraria, uma embaixadora global do poder da palavra escrita". É essa a sensação que fica no final da visita. Entre o passado e a expansão contemporânea, entre os livros, a arte e as histórias que ali se cruzam, a livraria afirma-se como um espaço onde as palavras continuam a ser um lugar de pensamento e liberdade. A ligação entre os dois edifícios simboliza essa continuidade: no vitral histórico surge Hefesto, o deus ferreiro que se tornou imagem de marca da Livraria Lello e no novo espaço, Álvaro Siza Vieira recupera a mesma figura, agora acompanhada por Afrodite. Sob a inscrição latina Decus in Labore, "Dignidade no Trabalho", permanece a ideia de que os livros, tal como o ferro nas mãos do ferreiro, são moldados para resistir ao tempo.

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