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A Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, está em construção há 144 anos e continua longe de estar totalmente concluída. Segundo o El País, apesar da inauguração da Torre de Jesus pelo Papa Leão XIV, considerada a parte mais recente do templo e que, com 172,5 metros de altura, transformou a igreja na mais alta do mundo, subsistem ainda elementos fundamentais por construir.

Quando Antoni Gaudí morreu, em 1926, apenas cerca de 15% do projecto estava concluído. O arquiteto viu terminadas apenas a cripta, quatro torres e a fachada do Nascimento. Um século depois, falta construir a fachada da Glória, localizada no lado sudeste do templo, bem como o seu conjunto escultórico.

O elemento mais controverso continua, contudo, a ser a escadaria de acesso prevista para esta fachada e a praça que a acompanharia. O plano prevê cobrir o troço da rua Mallorca situado em frente à basílica, permitindo a circulação automóvel por um túnel e criando, à superfície, uma ligação entre a entrada do templo e o nível da rua.

O problema é que o espaço destinado a esta intervenção está atualmente ocupado por dois quarteirões com mais de mil habitações. Estas construções existem desde o século XIX, quando foi desenhado o bairro do Eixample, e a sua eventual demolição é contestada pelos moradores há várias décadas.

A Junta Construtora da Sagrada Família, entidade privada responsável pela conclusão do templo, defende a criação de uma ampla avenida que se prolongaria por mais de 200 metros até à Avenida Diagonal. Os responsáveis sustentam que esta solução corresponde à visão original de Gaudí e que deverá ser concretizada.

Os moradores afetados rejeitam essa interpretação. Em 2018, divulgaram um documento do Ministério da Cultura, datado de 1975, que conclui que Gaudí não desenhou nem a escadaria nem a praça de acesso pela rua Mallorca. Além disso, recordam que já existiam edifícios em frente à futura fachada da Glória desde os primeiros anos da construção da basílica.

A discussão tem também uma dimensão urbanística. O Plano Geral Metropolitano de Barcelona, aprovado em 1976 e ainda em vigor, prevê a abertura de um grande espaço nestes dois quarteirões e a criação de uma avenida com 60 metros de largura. Apesar disso, o projeto nunca foi executado nem o planeamento alterado.

A controvérsia em torno da autoria da escadaria continua a alimentar o debate. Os moradores argumentam que os primeiros esboços assinados por Gaudí, datados de 1885, colocavam a fachada e as escadas dentro dos limites do terreno do templo. Em desenhos posteriores, de 1906 e 1916, a escadaria já surge projetada para além desses limites, avançando em direção à rua Mallorca.

No entanto, em 1925, quando foi aprovado o Plano de Expansão de Sant Martí, não foi reservada qualquer área para a ampliação da basílica através daquela rua. O mesmo aconteceu com o Plano Comarcal de Barcelona de 1953. Segundo o documento de 1975, a concretização das escadarias estava impedida pelo planeamento urbano desde 1925, numa época em que Gaudí ainda era vivo e conhecia essa realidade.

Outro parecer, elaborado nesse mesmo ano pelo Arquivo do Colégio de Arquitetos de Barcelona, concluiu igualmente que os desenhos da escadaria não foram realizados por Gaudí, mas por colaboradores seus.

Perante a aproximação do final das obras, o debate voltou a ganhar atualidade. Os últimos três presidentes da câmara municipal procuraram soluções para o problema. O atual executivo, liderado por Jaume Collboni, anunciou que a decisão final caberá à cidade e não apenas à Junta Construtora. Defendeu ainda que qualquer solução deverá minimizar o número de realojamentos e que os custos associados deverão ser suportados pelo templo.

Em 2022, um grupo de trabalho composto por representantes municipais e moradores apresentou três alternativas à demolição parcial dos quarteirões afetados. Paralelamente, a Sagrada Família adquiriu, em 2019, um grande terreno pertencente à empresa de abastecimento de água da cidade, localizado a menos de cem metros do templo, uma operação que foi interpretada como uma possível preparação para futuros realojamentos.

As negociações entre a autarquia, a Junta Construtora e os representantes dos moradores prosseguem. As associações locais defendem que ninguém deve perder a sua casa, embora alguns admitam a possibilidade de transferência para novas habitações caso essa venha a revelar-se a única solução.

Segundo o jornal espanhol, tanto fontes municipais como representantes dos moradores admitem que poderão surgir novidades nos próximos meses. A intenção da autarquia é encerrar esta questão antes das eleições municipais previstas para 2027, resolvendo um dos conflitos urbanísticos mais antigos associados à conclusão da Sagrada Família.

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