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Quando Callie Wentling vivia em Denver, nos Estados Unidos, havia sempre qualquer coisa a acontecer, mas a informação chegava tarde demais. Festas, inaugurações, iniciativas comunitárias, manifestações e, só depois de terminadas, é que se tornavam visíveis. Esta frustração repetida foi o ponto de partida para um projeto que hoje quer transformar a forma como acedemos à vida local.
Lembro-me de ter conhecido alguém ligado à cena artística de Denver e só assim é que entrei em contacto com este lado da cidade. Brincávamos e imaginávamos muito uma solução para este problema. Há muitas coisas a acontecer, iniciativas que nos permitem um envolvimento real com a cidade e a comunidade, o que promove participação e cidadania ativa mas é difícil aceder a essa informação, conta-nos Callie Wentling, fundadora e criadora da RUA.
Desta sensação nasceu o RUA Map: um mapa vivo, digital e geolocalizado, que agrega informação hiperlocal (notícias, eventos, alertas e iniciativas comunitárias) num único lugar. O objetivo é simples: permitir que qualquer pessoa descubra o que acontece à sua volta, em tempo útil, sem ter de navegar por dezenas de sites e redes sociais.
O projeto foi oficialmente lançado a 10 de fevereiro, mas começou a ser desenhado três anos antes, quando Callie decidiu testar a viabilidade da ideia em Portugal, no âmbito do mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis e Sistemas de Informação Geográfica, na NOVA.
Durante três meses, suspendeu o desenvolvimento técnico e saiu para a rua. Fez centenas de entrevistas formais e informais. Falou com profissionais de várias áreas, com a pessoa do café, com motoristas de Uber. A pergunta era sempre a mesma: existe, em Portugal, uma falha no acesso à informação local?
A resposta confirmou a intuição inicial. “Aqui também existe uma quebra entre a informação relevante e as pessoas interessadas. É um problema sistémico.”
Nem falha dos media, nem culpa das redes
O RUA Map nasce da dificuldade em aceder à informação hiperlocal. Mas será que os media tradicionais e as redes sociais falharam?
Para Callie, a resposta é mais complexa. “Não é que tenham falhado. O problema prende-se, essencialmente, com o overload de informação em que vivemos.”
Os media tendem a concentrar-se em grandes narrativas urbanas ou nacionais. O detalhe do bairro, da freguesia ou do coletivo local acaba muitas vezes por ficar de fora. Já as redes sociais funcionam com base em algoritmos opacos, orientados para o engagement e não para a relevância territorial ou temporal.
O resultado, explica, é que “informação local genuína (um evento comunitário, uma manifestação de bairro, um projeto de uma associação) fica dispersa, invisível ou perdida no ruído digital”.
O RUA Map propõe uma inversão de lógica: proximidade geográfica e temporal como critérios centrais.
Um algoritmo “simples e transparente”. Grátis (para alguns)
Ao contrário das plataformas tradicionais, o algoritmo do RUA Map não utiliza métricas de engagement, histórico de navegação ou preferências comportamentais para ordenar conteúdos.
“O nosso algoritmo é simples e transparente: privilegia conteúdos pela proximidade geográfica do utilizador e pela proximidade temporal do evento ou notícia”, explica a fundadora.
O utilizador pode ainda desenhar áreas de interesse no mapa, aplicar filtros por categoria, parceiro ou data. Cada “pin” representa uma história, um evento ou uma ação comunitária. A lógica é a de um radar cultural e cívico que quebra bolhas digitais e devolve a centralidade ao território.
O RUA Map será sempre gratuito para utilizadores. O modelo de negócio assenta no desenvolvimento do RUA Studio, uma versão personalizada da tecnologia para organizações, juntas de freguesia e municípios que pretendam mapear o seu impacto e comunicar iniciativas de forma geolocalizada.
A longo prazo, a ambição passa também por gerar dados territoriais agregados (nunca dados pessoais) que possam apoiar decisões públicas.
“O RUA Map funciona como um termómetro da vida comunitária”, explica. Ao mapear eventos, iniciativas e movimentos sociais por bairro e freguesia, a plataforma permite identificar níveis de atividade cívica, temas mobilizadores e zonas subrepresentadas.
Para autarquias e decisores, esta informação pode “ajudar a ajustar políticas públicas com base em dados reais de participação”.
Quem faz a curadoria?
Sendo uma plataforma aberta a parceiros e cidadãos, a questão da curadoria é central.A equipa trabalha em dois níveis. Por um lado, com parceiros institucionais (meios de comunicação e organizações com valores alinhados) têm contas verificadas e não necessitam de aprovação prévia para cada publicação. E por outro, com conteúdos submetidos por cidadãos individuais que passam por um processo de moderação antes de serem publicados.
Não fazemos scraping indiscriminado, todas as fontes são conhecidas e validadas, sublinha.
Entre os parceiros estão projetos como a Mensagem de Lisboa e o Lisboa para Pessoas, que utilizam o plugin RUA News para mapear automaticamente as suas notícias. A ferramenta, instalada no backoffice dos sites, acrescenta uma camada geográfica às peças jornalísticas, reforçando a ligação entre conteúdo e território. Segundo Callie, para as redações trata-se de “uma forma de reforçar o papel de serviço público e da proximidade, sem custos operacionais”.
Um mapa para encontrar o que estava escondido
Incubado na Startup Lisboa e na Boutique Impact, o projeto encontra-se numa fase de consolidação na Área Metropolitana de Lisboa, onde decorrem projetos piloto e testes com parceiros locais.
O apoio estratégico e o acesso à rede foram determinantes. “Deu-nos acesso a mentores, investidores e parceiros que partilham a nossa visão de impacto social através da tecnologia”, afirma.
Os principais desafios atuais passam por otimizar a experiência do utilizador, melhorar filtros de pesquisa e refinar a geolocalização. Nos próximos meses, estão previstas melhorias na interface e o lançamento completo do RUA Studio.
Apesar do foco nacional, a ambição é global.
“Os problemas de acesso a informação hiperlocal e fragmentação comunitária são globais. Quando tivermos um modelo robusto e replicável, a expansão para outras cidades e países será o passo natural.”
O RUA Map não pretende substituir os media nem redes sociais. Quer funcionar como uma camada adicional, territorial, transparente e orientada para a comunidade. No fundo, como resume a própria fundadora, trata-se de tornar visíveis as portas que antes só se abriam por acaso. Um mapa que não serve apenas para encontrar ruas, mas para descobrir a vida que acontece nelas.
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