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Três semanas após o acidente fatal no Elevador da Glória, que matou 16 pessoas e feriu mais de 20, a Câmara Municipal de Lisboa anunciou uma reunião extraordinária para 13 de outubro, um dia depois das eleições autárquicas, suscitando críticas da oposição que acusa o presidente Carlos Moedas de fugir ao escrutínio.

O tema do Elevador da Glória ganhou nova dimensão após a divulgação de dois acidentes anteriores, em 2024 e maio de 2025, que até agora não tinham sido confirmados publicamente.

Nenhum desses incidentes causou feridos, mas revelou falhas técnicas graves, nomeadamente na ativação do travão de emergência, como relatou Manuel Leal, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes Rodoviários e Urbanos (STRUP).

“Quando o guarda-freio acionou o travão no final do percurso, o travão não respondeu em termos imediatos. Acionou então o travão de emergência, mas mesmo assim acabou por deslizar e foi embater no primeiro degrau no cimo da calçada da Glória”, disse ao 24notícias.

“Este é um acidente concreto que pode ser testemunhado pela própria administração, se de facto a administração estiver interessada em contribuir para o esclarecimento total destas questões”.

Estes acidentes foram discutidos internamente na Carris, em reuniões da Comissão de Apreciação e Risco para a Descaracterização de Acidentes, como confirmou o próprio sindicalista. Apesar disso, a Carris chegou a negar, à CNN, qualquer incidente até ser confrontada com os factos. 

A manutenção dos elevadores está dividida entre a Carris e a empresa MAIN, que apenas em 2022 alterou o seu objeto social para incluir a manutenção de elevadores, embora já tivesse contratos anteriores desde 2019. 

Concorrentes de concursos públicos de 2022 contestaram os preços anormalmente baixos apresentados pela empresa, alertando para risco de degradação do serviço.

Este ano, o concurso público para manutenção foi novamente lançado com preço base de 1,1 milhões de euros, inferior aos 1,7 milhões de 2022, mas acabou anulado por não haver propostas dentro do valor estipulado, levando a um ajuste direto à MAIN por seis meses.

Manuel Leal considera que a questão central não está na qualidade da manutenção, mas no modelo adotado.

"Não é verdadeiramente a questão da qualidade da manutenção, mas sim a questão do modelo adotado que nós vivamente contestamos", afirmou, referindo que processos iniciados entre 2005 e 2007 destruíram a capacidade interna de fabrico e reparação de peças, bem como a transmissão de conhecimento entre gerações de trabalhadores.

"Optou-se por uma externalização destes serviços em que as próprias regras da contratação pública impedem que esta transmissão de conhecimento se faça", acrescentou.

Sobre os problemas recentes, o sindicalista destacou que mesmo que as possíveis causas diretas, como cabos ou periodicidade da manutenção, "não fossem as mais indicadas, isso confirma ainda mais a nossa preocupação com o modelo adotado". 

“A manutenção nunca deveria ter saído da responsabilidade dos próprios trabalhadores da Carris", afirma.

Questionado sobre se as falhas técnicas detetadas antes do acidente poderiam ter sido evitadas, Manuel Leal não tem dúvidas em apontar responsabilidades ao modelo seguido.

“Se este modelo não tivesse sido adotado e tivesse sido continuada a prática de manutenção interna, acreditamos que as condições poderiam ter sido criadas para evitar esta tragédia”, afirmou, recordando que “durante mais de 100 anos, com os trabalhadores da Carris a assegurarem o serviço, nunca se registaram catástrofes desta natureza”.

A decisão de Carlos Moedas de adiar a reunião extraordinária gerou uma forte reação da oposição.

De acordo com o Expresso, o PS-Lisboa, a atitude do presidente constitui um “simulacro de escrutínio assente numa falta de transparência total”, enquanto Rui Tavares, vereador do Livre, classificou a decisão de “deplorável” e acusou Moedas de ter “medo” do que poderá ser discutido. O PCP exige informações urgentes sobre as contradições entre os relatórios oficiais e os acidentes verificados.

No debate organizado pela CNN, Alexandra Leitão reforçou esta crítica, afirmando que “se há factos novos, eles não devem ser discutidos na praça pública, devem ser discutidos na Câmara Municipal de Lisboa. E isso tem de acontecer antes das eleições. Não se pode fugir às responsabilidades”. 

João Ferreira, candidato da CDU, foi no mesmo sentido, acusando Moedas de ser contraditório: “Ou Carlos Moedas entende que não há explicações nenhumas a dar e não marca uma reunião de Câmara ou se marca uma reunião de Câmara é porque entende que há explicações a dar e não o faz para daqui a três semanas”. 

Já Bruno Mascarenhas, candidato do Chega, defendeu que “o engenheiro Moedas já devia ter demitido o conselho de administração da Carris e o vereador dos transportes. Não se pode desconhecer uma realidade destas, quando morreram 16 pessoas”.

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