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A mudança foi revelada pela revista Wilder a 11 de maio, indicando que a coordenação do centro passará a ser assumida por Alexandra Pereira, antiga diretora do Departamento do Bem-Estar dos Animais de Companhia do ICNF. À publicação, o instituto justificou a decisão com a intenção de imprimir um “novo rumo” ao programa de conservação do lince-ibérico.
Desde 2009, a operação diária do centro, sob coordenação do ICNF, está entregue a uma empresa externa composta por uma equipa de 14 profissionais especializados, entre veterinários, tratadores e técnicos.
Rodrigo Cunha Serra, coordenador do Programa Ibérico de Conservação Ex Situ do lince-ibérico e responsável técnico pelo centro desde a sua criação, afirma que a preocupação da equipa não está relacionada com a alteração do modelo de gestão, mas sim com a ausência de garantias sobre a continuidade operacional do projeto.
“O problema não é a mudança de gestão. O problema é a ausência de uma transição técnica, legal e operacionalmente segura”, afirmou ao 24notícias, sublinhando que o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos 16 anos assentou numa cooperação científica e institucional contínua entre Portugal e Espanha.
Os técnicos alertam ainda para o impacto direto da decisão nos 14 profissionais atualmente envolvidos no programa, muitos deles com mais de uma década de experiência no acompanhamento, reprodução e recuperação do lince-ibérico. Segundo Rodrigo Cunha Serra, alguns trabalhadores acumulam 15 anos de serviço dedicados exclusivamente ao programa. “Estas pessoas têm direitos e dedicaram a vida a salvar o lince-ibérico”, afirmou.
De acordo com o responsável, os trabalhadores terão sido informalmente informados de que poderiam transitar para contratos a prazo sob gestão direta do ICNF, solução que a equipa contesta. “Nunca foi apresentada formalmente qualquer proposta aos trabalhadores”, disse.
Outra das preocupações prende-se com a capacidade operacional do centro após a mudança de gestão. A equipa refere desconhecer a existência de uma nova estrutura técnica plenamente preparada para assumir, já em junho, uma operação que funciona permanentemente, 24 horas por dia, ao longo de todo o ano.
Rodrigo Cunha Serra alerta que o trabalho desenvolvido no centro exige conhecimento altamente especializado e acompanhamento contínuo dos animais ao longo de todo o ciclo anual de reprodução e reintrodução.
“Em dezembro começamos a formar os casais reprodutores. Em fevereiro colocamos coleiras nos animais destinados à reintrodução e, entre março e abril, temos as fêmeas a parir. Depois há períodos críticos de crescimento das crias e situações clínicas complexas que podem surgir a qualquer momento”, explicou.
“Isto não é um trabalho que se aprende numa semana. No mínimo, é necessário um ano para perceber o funcionamento da operação e mais tempo para estar preparado para liderar uma estrutura desta complexidade”, acrescentou.
O responsável destaca ainda que o programa funciona em estreita articulação com Espanha, país que fornece parte dos animais reprodutores e participa diretamente na coordenação científica do projeto.
“Nós dependemos de Espanha e Espanha depende de nós”, afirmou, acrescentando que vários parceiros internacionais já manifestaram preocupação com o processo.
Segundo Rodrigo Cunha Serra, parceiros espanhóis têm defendido uma transição gradual e articulada. “É importante que Espanha seja ouvida neste processo”, disse.
Após as declarações públicas da ministra do Ambiente, a equipa recebeu um primeiro contacto do ICNF para discutir uma possível solução de transição, numa reunião que se realizava ontem, 22 de maio.
“Estamos totalmente disponíveis para ajudar o Estado português a encontrar uma solução estável que respeite os trabalhadores, o bem-estar dos animais e os parceiros internacionais”, afirmou o responsável.
Apesar da incerteza quanto ao futuro da gestão, Rodrigo Cunha Serra garante que a equipa continuará a assegurar os cuidados aos animais.
“Dia 1 de junho estaremos cá para alimentar os animais. Não vamos deixar os linces serem prejudicados por este processo”, afirmou.
O 24notícias tentou contactar o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas para esclarecer as questões relacionadas com a mudança de gestão do centro e as preocupações levantadas pela equipa técnica, mas não recebeu qualquer resposta até à publicação deste artigo.
Reações das associações ambientais
A Quercus reagiu à situação, mostrando “surpresa e reserva” relativamente à decisão do ICNF. A associação afirma que vários parceiros ibéricos terão ficado “chocados” com a alteração anunciada.
A organização ambientalista considera preocupante o eventual afastamento da atual coordenação e da equipa técnica, destacando o contributo destes profissionais para a recuperação da espécie em Portugal. A Quercus recorda que o lince-ibérico chegou a estar à beira da extinção e que existem atualmente cerca de 2400 exemplares na Península Ibérica.
A associação refere ainda que o Grupo de Especialistas de Felinos da União Internacional para a Conservação da Natureza alertou para os riscos associados à transição e para a necessidade de assegurar continuidade técnica no projeto.
No mesmo comunicado, a Quercus pede ao ex-ministro do Ambiente Jorge Moreira da Silva que se pronuncie publicamente sobre o processo, recordando o papel que desempenhou no arranque da reintrodução do lince-ibérico em Portugal, em 2014.
A associação apela ainda a maior transparência por parte do ICNF, defendendo a apresentação de um plano de transição claro e sustentado tecnicamente, idealmente com integração dos atuais profissionais na futura estrutura de gestão.
Entre os esclarecimentos pedidos estão os critérios técnicos e orçamentais que sustentam a decisão, a composição da futura equipa e as medidas previstas para garantir uma passagem de funções segura.
O comunicado sublinha também os resultados alcançados pelo centro de Silves desde a sua criação. Quando o programa arrancou, existiam menos de 150 linces-ibéricos em todo o mundo. Desde então, nasceram mais de 180 animais no CNRLI e mais de uma centena foram preparados para reintrodução em meio natural.
Ao longo dos últimos anos, o lince-ibérico passou da categoria de “Criticamente em Perigo” para “Vulnerável”, resultado do esforço conjunto desenvolvido entre Portugal e Espanha.
Apesar das críticas ao processo, a equipa técnica garante manter disponibilidade para colaborar numa solução que assegure a continuidade do programa e o bem-estar dos animais.
“A fase atual da recuperação do lince-ibérico exige estabilidade, continuidade e máxima responsabilidade institucional”, concluem os responsáveis.
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