Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Num solar irlandês com mais de dois séculos de história, um grupo de 15 mulheres reúne-se para comunicar com espíritos, antepassados e figuras do imaginário mágico. A cena, descrita numa reportagem do The Guardian, faz parte de um retiro de bruxaria chamado Green Veil, organizado pela italiana Isabella Ferrari, conhecida como “Penny the Witch”.
Durante dois dias e meio, as participantes aprendem práticas associadas à bruxaria contemporânea, incluindo sessões de adivinhação, criação de velas, rituais de ligação à natureza e exercícios destinados a enfrentar traumas pessoais e familiares. Mais do que uma busca pelo sobrenatural, o objetivo declarado passa por reforçar a confiança na própria intuição e criar laços entre mulheres vindas de diferentes partes do mundo.
Ferrari defende que muitas mulheres foram ensinadas a desconfiar dos seus próprios instintos e que atividades como os exercícios de adivinhação servem, acima de tudo, para recuperar essa confiança interior. Ao longo do retiro, as participantes partilham histórias profundamente pessoais relacionadas com luto, perda, violência, isolamento e frustração.
Os momentos de maior carga emocional surgem quando as mulheres relatam as figuras espirituais que acreditam ter contactado. Algumas falam de familiares falecidos, outras de companheiros ou amigos que perderam. Em comum, emerge um sentimento de solidão e uma necessidade de pertença que parece estar na base da crescente popularidade destes encontros.
Os retiros organizados por Ferrari esgotam regularmente. As sessões realizadas na Irlanda atraíram participantes de vários países, sobretudo dos Estados Unidos, com preços entre 1.900 e 3.000 euros. A organizadora conta ainda com mais de 180 mil seguidores nas redes sociais.
De acordo com especialistas citados pelo jornal britânico, o crescimento do interesse pela bruxaria e por formas alternativas de espiritualidade tem vindo a consolidar-se nas últimas décadas. A socióloga da religião Helen Berger considera que os períodos de contestação à autoridade tendem a coincidir com um aumento da procura por práticas espirituais não convencionais.
Uma parte significativa das mulheres presentes nos retiros tem origens em ambientes cristãos conservadores. Muitas afirmam ter abandonado ou reformulado a sua relação com a religião institucional, sem necessariamente rejeitarem a espiritualidade. Berger refere que mais de 30% dos norte-americanos se identificam atualmente como “espirituais, mas não religiosos”, uma distinção que reflete o afastamento das instituições tradicionais e não necessariamente da crença no divino.
Entre as participantes está Tara Monte, de 55 anos, natural de Filadélfia. Criada numa família católica praticante, relata ter vivido uma crise espiritual após sofrer uma violação aos 23 anos. Mais tarde, encontrou numa comunidade de bruxas um sentimento de aceitação que descreve como transformador. Depois de anos marcados por perdas familiares, um divórcio e a morte de um companheiro, considera que o reencontro com outras praticantes lhe devolveu uma sensação de apoio e proteção.
Outra participante, Alyse Benjamin, viajou da Florida para a Irlanda em busca do que descreve como uma “irmandade”. Após anos ligada ao cristianismo, acabou por se afastar da igreja, considerando excessivas as suas regras e julgamentos. Apesar disso, afirma continuar a acreditar em Deus, preferindo uma abordagem espiritual mais livre e próxima da natureza.
Segundo a reportagem, a bruxaria contemporânea tornou-se também um fenómeno comercial. Existem cursos de formação, lojas especializadas, serviços de leituras espirituais e retiros que podem custar vários milhares de dólares. Ainda assim, várias praticantes defendem que o verdadeiro atrativo destas experiências reside menos nos rituais e mais no sentimento de comunidade que proporcionam.
Ashley Clauré, médium e organizadora de retiros nos Estados Unidos, afirma que muitas mulheres se sentem atraídas por estes espaços depois de terem sido desacreditadas, ridicularizadas ou classificadas como “histéricas”. Para ela, a procura crescente está ligada à vontade de criar ambientes onde as mulheres possam expressar livremente as suas emoções e experiências.
Durante uma das atividades realizadas no retiro irlandês, as participantes percorrem a floresta, apresentam-se às árvores e recolhem elementos naturais do solo. O local situa-se a cerca de meia hora de distância de um dos episódios mais antigos de perseguição por alegada bruxaria na Irlanda: o caso de Petronilla de Meath, torturada e executada em 1324.
Para algumas das mulheres presentes, essa memória histórica simboliza aquilo a que chamam “ferida da bruxa” — uma marca coletiva associada à perseguição de mulheres consideradas diferentes ou incompreendidas pelas autoridades religiosas e pelos homens do seu tempo.
Na última noite do retiro, as participantes reúnem-se em torno de uma fogueira. Cada uma escreve num papel algo que deseja deixar para trás — vergonha, culpa, ansiedade ou depressão — antes de o lançar às chamas. Apesar da emoção do momento, várias reconhecem que os problemas que motivaram a viagem continuam presentes.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários