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A Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou recentemente que mais de 40% das mulheres grávidas na Faixa de Gaza estão em situação de malnutrição, um cenário que compromete tanto a saúde materna como o desenvolvimento dos bebés.
O The Guardian publicou hoje um testemunho na primeira pessoa que revela as condições em que milhares de mulheres vivem atualmente. Trata-se do relato de Nour Ziad al-Batsh, uma palestiniana deslocada, que descreve o medo constante de não conseguir levar a gravidez até ao fim ou garantir a sobrevivência do filho que está para nascer.
Nour, que aguarda o nascimento do seu terceiro filho em março, confessa que esta gravidez não se parece em nada com as anteriores. Se antes havia espaço para a alegria, para sonhar com o futuro da criança e planear o seu quarto, hoje as suas preocupações resumem-se ao essencial: conseguir comida suficiente para se manter saudável e garantir um local minimamente seguro onde dar à luz.
A jovem mãe descreve um quotidiano marcado pela exaustão física e pelo desespero emocional. Sofre hemorragias causadas por fadiga extrema, foi classificada como paciente malnutrida pelos Médicos Sem Fronteiras e encaminhada para uma clínica especializada. O diagnóstico é grave: gravidez de alto risco, com elevada probabilidade de perder o bebé. Mesmo assim, não tem garantido um lugar para internamento hospitalar, pois os serviços de saúde estão sobrelotados e sem capacidade de resposta.
“Preciso de ficar no hospital. Mas o hospital não tem capacidade para me receber. Tenho dúvidas constantes sobre onde darei à luz e se o bebé nascerá saudável. Terei assistência médica quando precisar e haverá comida para o bebé? Se eu não conseguir encontrar uma casa para morar, o bebé conseguirá sobreviver numa tenda”?, questiona.
“Sinto tonturas o tempo todo devido à falta de comida e à fraqueza. Durmo a maior parte do tempo e sofro de tremores devido à fome”, aponta ainda.
A história de Nour ilustra uma realidade mais vasta: a guerra destruiu não só casas e infraestruturas, mas também as redes de apoio familiar e comunitário. O marido, outrora oftalmologista num hospital de referência, ficou sem emprego; a família, com dois filhos de seis e quatro anos, vive agora deslocada em condições precárias, sujeita a bombardeamentos, sem alimentos suficientes e com preços que dispararam até dez vezes em relação ao período anterior ao conflito. Para trocar dinheiro, são obrigados a pagar comissões exorbitantes a intermediários, já que os bancos estão encerrados.
A degradação das condições de vida é visível nas crianças, que apresentam sinais de malnutrição e adoecem com facilidade. Nour recorda com nostalgia a “vida bonita” que tinham antes da guerra, onde o futuro dos filhos era pensado em termos de educação e oportunidades. Hoje, diz, cada dia é vivido na incerteza do que irão comer, numa luta de sobrevivência imediata.
Apesar do cenário sombrio, Nour procura agarrar-se ao presente para manter alguma estabilidade emocional. “Sei que posso morrer durante a gravidez ou por malnutrição e que o bebé pode não sobreviver. Mas não penso em tudo isso agora, concentro-me apenas em cada momento”, escreve.
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