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O Vaticano tem conhecimento de casos de abuso sexual de menores há décadas, muito mais do que admite publicamente, e mantém grande parte dos registos inacessíveis. Uma investigação internacional conduzida pelo diário alemão Correctiv, em colaboração com o El País (Espanha), The Boston Globe (EUA), Observador (Portugal) e Casa Macondo (Colômbia), revelou documentos internos e inéditos do antigo Santo Ofício e do atual Dicastério para a Doutrina da Fé, que permanecem fechados a investigadores e acessíveis apenas a um grupo restrito de pessoas. Fontes apontam a existência de arquivos ainda mais secretos, com os casos mais graves.
Os documentos mais antigos datam da década de 1930, na Alemanha, e revelam ordens para destruir registos de padres pedófilos, por receio de que os nazis, inimigos da Igreja, tivessem acesso a estes arquivos. A instrução era clara: “Queimem tudo”. Entre os casos mais relevantes destaca-se o de Joseph Ratzinger, mais tarde Papa Bento XVI. Uma carta de 1986, quando era Prefeito da Doutrina da Fé, demonstra que Ratzinger já tinha conhecimento de abusos cometidos por Peter Hullermann, um padre da sua anterior diocese em Munique, mas a tramitação do caso foi reservada e à margem dos protocolos. Hullermann continuou a exercer funções e abusou de 23 menores até a situação vir a público em 2010.
A investigação evidencia que, mesmo antes de 2001, alguns casos chegavam a Roma, mas muitas vezes eram camuflados sob pedidos de dispensas ou outras solicitações administrativas. Este facto contrasta com a narrativa oficial da Santa Sé, que indicava ter recebido poucos casos antes da implementação de novas normas que obrigavam todas as dioceses a remeter informações sobre abusos.
Um caso português também emerge nos documentos: um frade denunciado em 1956 em Torres Novas só chegou ao conhecimento da Ordem em 1972, através do Patriarcado de Lisboa. As cartas revelam que o processo foi tratado com extrema confidencialidade, e que só em 1991 foi comunicada uma situação relacionada à proibição de confessar do religioso, uma década e meia depois dos primeiros abusos. Este episódio ilustra como casos chegavam a Roma de forma indireta e oculta, mantendo-se longos períodos sem intervenção central.
Neste caso, o Observador conta ainda que o frade, ao invés de ser afastado de crianças, viveu o resto da sua vida num convento com um colégio onde havia dezenas de alunos menores. A pena simbólica foi levantada, numa decisão assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger.
O período histórico analisado revela que, durante décadas, a Igreja centralizou a informação mas permitiu que as dioceses a ocultassem. Desde o século XVI, o Santo Ofício supervisionava os processos, sendo a instrução Crimen Sollicitationis de 1922, atualizada em 1962, a referência normativa para lidar com abusos na confissão. No entanto, a prática mostrava-se diferente: em situações de risco político ou bélico, documentos comprometedores eram destruídos, como aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial na Alemanha e na Áustria, e posteriormente no Leste europeu face à chegada de tropas soviéticas.
O novo Papa, Leão XIV, tem diante de si o desafio de abrir os arquivos ou revelar o seu conteúdo, mostrando uma vontade real de transparência. Desde a sua eleição, tem demonstrado sensibilidade pelas vítimas e apoio à investigação jornalística.
Os documentos e casos analisados na investigação sublinham um padrão histórico de ocultação, lentidão e negligência. Mesmo após a reforma da Doutrina da Fé e a modernização da Igreja a partir do Concílio Vaticano II, a gestão descentralizada e confidencial manteve muitos abusos longe da supervisão romana. A investigação internacional revela, assim, a dimensão de um arquivo que o Vaticano nunca revelou integralmente, sendo hoje considerado o maior conjunto de registos de abusos de menores do mundo.
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