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“Se não dói, está tudo bem”. A ideia continua enraizada em muitas pessoas, mas pode representar um risco sério para a saúde. O médico de clínica geral António Hipólito Aguiar alerta que muitas doenças potencialmente graves evoluem durante meses ou anos sem provocar dor, sobretudo nas fases iniciais.
“A dor é um sinal importante, mas não é, seguramente, o único indicador de doença”, explica o médico ao 24notícias, sublinhando que vários órgãos têm pouca sensibilidade dolorosa ou permitem uma adaptação gradual do organismo às alterações.
Segundo o médico, patologias como "hipertensão arterial, diabetes tipo 2, colesterol elevado, doenças renais, fígado gordo, osteoporose e vários tipos de cancro" são frequentemente detetadas sem sintomas evidentes.
“Por exemplo, o cancro do cólon pode desenvolver-se silenciosamente durante anos antes de causar dor, o mesmo acontece com muitos cancros da mama, próstata ou pulmão em fases precoces”, afirma. Também as doenças cardiovasculares podem progredir de forma silenciosa até ocorrerem episódios graves, como enfartes ou acidentes vasculares cerebrais.
Para António Hipólito Aguiar, o problema agrava-se porque muitas pessoas só procuram ajuda médica quando sentem sofrimento físico evidente.
“Quando não existe dor, tende a haver uma sensação de falsa segurança”, explica. Esse adiamento de consultas, exames ou rastreios pode fazer com que o diagnóstico aconteça apenas numa fase mais avançada da doença, dificultando tratamentos e reduzindo hipóteses de recuperação.
“Em oncologia, por exemplo, a diferença entre um diagnóstico precoce e tardio pode alterar significativamente o prognóstico e as opções terapêuticas disponíveis”, alerta.
O médico destaca ainda que existem vários sinais “silenciosos” frequentemente ignorados pelos doentes, como cansaço persistente, perda de peso inexplicada, alterações do apetite, pequenas perdas de sangue, mudanças nos hábitos intestinais ou urinários, sede excessiva, falta de ar ligeira, tosse prolongada ou visão turva.
“Muitas vezes estes sinais são desvalorizados porque aparecem gradualmente e podem ser confundidos com stress, envelhecimento ou cansaço do dia a dia”, refere.
Perante esta realidade, António Hipólito Aguiar defende uma maior aposta na prevenção e no acompanhamento regular.
“Costumo afirmar que, na saúde, a prevenção é mesmo o maior trunfo”, realça.
O médico compara as consultas de rotina à manutenção preventiva de um automóvel. “Tal como se faz manutenção preventiva num carro antes de surgir uma avaria grave, também o corpo beneficia de vigilância regular”, explica.
Na prática clínica, o especialista admite que muitas pessoas continuam a recorrer ao médico apenas quando já existem sintomas ou limitações físicas evidentes. Este comportamento é mais frequente em adultos jovens e em pessoas sem acompanhamento médico regular.
“As consultas de rotina têm um papel crucial porque permitem prevenir, rastrear e diagnosticar doenças numa fase precoce”, sublinha.
Além da monitorização de parâmetros como tensão arterial, glicemia ou colesterol, estas consultas permitem avaliar fatores de risco e promover hábitos saudáveis relacionados com alimentação, exercício físico, sono ou consumo de álcool e tabaco.
António Hipólito Aguiar considera que os check-ups médicos deveriam começar a ser encarados “mais a sério” sobretudo a partir dos 35 ou 40 anos, ou mais cedo em pessoas com antecedentes familiares, obesidade, tabagismo ou sedentarismo.
“O acompanhamento regular não serve apenas para tratar doença, mas principalmente para preservar a saúde antes que apareçam sintomas”, conclui.
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