Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
O HPV, vírus do papiloma humano, continua a gerar dúvidas e preocupação, apesar de ser extremamente comum. Existem mais de 200 tipos diferentes deste vírus e, embora muitos sejam considerados de baixo risco, alguns subtipos, como o HPV 16 e o HPV 18, podem estar associados ao desenvolvimento de lesões e, em certos casos, ao cancro do colo do útero.
Ainda assim, médicos e especialistas sublinham que um diagnóstico positivo não significa automaticamente doença grave. “HPV positivo não quer dizer cancro”, reforçam.
A ginecologista Irina Ramilo explica que a maioria das infeções é assintomática e que muitas pessoas podem ter contacto com o vírus sem nunca o saberem. “Provavelmente todos nós teremos HPV em algum momento da vida”, afirma, destacando que o vírus não afeta apenas mulheres.
A transmissão ocorre sobretudo através do contacto íntimo e não exclusivamente pela penetração sexual. “Basta haver contacto”, refere a especialista, lembrando que o preservativo reduz o risco, mas não garante proteção total.
“O HPV é tão comum que quase pode ser visto como uma pandemia silenciosa”, acrescenta.
Apesar disso, continua a existir um forte estigma associado ao diagnóstico. Muitas pessoas associam imediatamente o HPV a traição, promiscuidade ou a uma sentença de cancro. “Há um peso social muito grande. Muitas mulheres pensam logo: ‘fui traída’ ou ‘vou ter cancro’”, explica Irina Ramilo. “Mas isso está longe da realidade. É uma infeção extremamente comum, só que com um marketing pior.”
Na maioria dos casos, o organismo elimina naturalmente o vírus sem necessidade de tratamento. O problema surge quando a infeção persiste durante vários anos, podendo provocar alterações celulares. Ainda assim, as lesões provocadas pelo HPV são geralmente detetáveis e tratáveis antes de evoluírem para cancro.
É por isso que o rastreio continua a ser considerado essencial. Em Portugal, o rastreio organizado do cancro do colo do útero é recomendado entre os 30 e os 69 anos e inclui pesquisa do HPV através de colheita em meio líquido, semelhante ao teste de Papanicolau. O exame pode ser realizado tanto no ginecologista como no médico de família.
As especialistas alertam, no entanto, que testar demasiado cedo pode criar ansiedade desnecessária. Antes dos 30 anos, altura em que muitas pessoas iniciam a vida sexual, a probabilidade de contacto com o vírus é elevada, mas a maioria das infeções desaparece espontaneamente. “Podemos acabar por fazer mais mal do que bem ao intervir demasiado cedo”, explica Irina.
Quando o resultado do rastreio é positivo, o passo seguinte pode incluir uma colposcopia, um exame que permite observar o colo do útero com maior detalhe para perceber se existem lesões. Em casos específicos, pode ser necessária uma biópsia.
A vacinação continua a ser uma das principais ferramentas de prevenção. Em Portugal, a vacina integra o Plano Nacional de Vacinação para os mais jovens, mas especialistas defendem que também pode beneficiar adultos não vacinados anteriormente. Atualmente, discute-se inclusivamente a vacinação de parceiros, numa lógica de proteção mais abrangente.
“O ideal seria uma vacinação verdadeiramente universal”, refere Irina.
Outro ponto frequentemente esquecido é o impacto do HPV nos homens. Embora o cancro do colo do útero esteja mais associado às mulheres, os homens podem ser portadores e veículos de transmissão do vírus. Ainda assim, o tema continua pouco discutido no universo masculino.
Além da vacinação e do rastreio, os especialistas defendem que é necessário combater a desinformação e reduzir o estigma social associado ao HPV. “Estas conversas são importantes”, sublinham, lembrando que muitos mitos persistem durante anos e dificultam uma abordagem mais racional ao vírus.
Também a literacia em saúde é vista como fundamental para ajudar os doentes a lidar com o impacto emocional do diagnóstico. “Muitas vezes, depois do choque inicial, as pessoas nem conseguem ouvir tudo o que lhes é explicado”, admite Irina, acrescentando que procura simplificar a informação para tornar o processo menos assustador.
Em alguns pontos do país já existem projetos de autocolheita para rastreio do HPV, como acontece em Coimbra, numa tentativa de aumentar a adesão aos programas de prevenção. Ainda assim, especialistas consideram que o sistema de resposta continua desigual, sobretudo na região de Lisboa.
No caso de mulheres com HPV que pretendam engravidar, o acompanhamento dependerá do tipo de vírus detetado e da eventual existência de lesões. A transmissão ao bebé é considerada rara e, na maioria dos casos, não implica alterações no tipo de parto.
No final, a mensagem é clara ter HPV não significa ter cancro, nem deve ser motivo de culpa. O mais importante é manter o acompanhamento médico, cumprir os rastreios recomendados e reduzir o medo associado a uma infeção que é, acima de tudo, muito comum.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários