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No início de maio, antes da instabilidade meteorológica se abater sobre a região, o sentimento dominante entre os produtores de cereja do concelho do Fundão era de confiança. O inverno frio e relativamente seco tinha favorecido a floração, o vingar do fruto decorria dentro da normalidade e tudo indicava que 2026 poderia ser um dos melhores anos da última década, dito por vários produtores ao longo da época.
Em Vale de Prazeres, na zona sul do concelho, a colheita arrancou mesmo cerca de duas semanas mais cedo do que o habitual. Alexandre Pedro, produtor local, recorda que as primeiras cerejas colhidas apresentavam "bom calibre, cor uniforme e qualidade acima da média", o que reforçava a expectativa de uma campanha forte, tanto em quantidade como em valor.
"O ano estava muito bem encaminhado. As árvores carregaram bem e o fruto que começou a sair tinha ótima apresentação. Estávamos confiantes de que ia ser um ano em grande", diz ao 24notícias.
Os preços praticados nas primeiras semanas confirmavam esse otimismo. As caixas de dois quilos mantinham-se nos 15 euros, o mesmo valor do arranque da campanha em 2025, sinal de estabilidade no mercado e de procura consistente.
Num ano sem contratempos, Alexandre costuma colher cerca de dez toneladas de cereja. Em 2026, acreditava ser possível repetir, ou até superar, esse volume. "Nas árvores, à data, havia ainda muita cereja por amadurecer, com potencial para ganhar dimensão nas semanas seguintes",conta.
"O ano estava muito bem encaminhado. As árvores carregaram bem e o fruto que começou a sair tinha ótima apresentação. Estávamos confiantes de que ia ser um ano em grande"Alexandre Pedro, produtor
Essa leitura era partilhada por outros produtores do concelho. João Martins, agricultor na freguesia do Alcaide, explica que o cenário era particularmente animador depois de campanhas irregulares nos últimos anos.
"Tivemos uma floração muito homogénea e pouco frio tardio. Tudo apontava para uma colheita equilibrada e com bom rendimento. Havia a sensação de que finalmente íamos recuperar algum do que se perdeu noutros anos", afirma ao 24notícias.
Para muitos agricultores, 2026 surgia como uma oportunidade para compensar investimentos feitos em pomares, redes de proteção e mão de obra especializada, num contexto de custos de produção cada vez mais elevados.
A viragem imposta pelo mau tempo
Esse cenário mudou de forma abrupta com a chuva intensa e episódios de granizo registados a meio de maio. Em poucos dias, pomares inteiros sofreram danos significativos, sobretudo nas variedades mais precoces e nos frutos já próximos da maturação.
Segundo dados avançados pela autarquia, cerca de 35% da produção média do concelho foi destruída, com prejuízos estimados em sete milhões de euros. Em algumas explorações, as perdas atingem 70% a 80%.
Alexandre admite que, no seu caso, o impacto foi imediato. "A chuva rachou muito fruto e o granizo marcou cerejas que já estavam praticamente prontas. Aquilo que antes era cereja de primeira passou, em muitos casos, a não ter qualquer valor comercial", afirma.
João Martins acrescenta que, além da perda direta, há um efeito prolongado: "Não é só o que cai ou racha. Muitas cerejas ficam fragilizadas e acabam por não aguentar até à colheita. O prejuízo continua a aumentar dia após dia. O ano prometia ser excelente, agora estamos a tentar salvar o que resta", salienta.
Para além das perdas imediatas, os produtores alertam para um problema estrutural que se tem vindo a agravar nos últimos anos, a instabilidade climática. A sucessão de períodos de calor e frio em alturas que já não correspondem ao ciclo normal da cerejeira está a aumentar a incerteza e a fragilidade das campanhas.
Alexandre diz que o maior desafio deixou de ser apenas produzir, passando a ser "adivinhar o tempo". "Temos frio quando já não devia haver e calor quando ainda é cedo demais. A cerejeira reage mal a estas oscilações. Num ano floresce cedo demais, noutro apanha frio tardio ou chuva forte. Nunca sabemos como vai acabar", explica.
Segundo o agricultor, mesmo quando o fruto se desenvolve bem, basta "uma semana fora do normal" para comprometer meses de trabalho.
João Martins partilha da mesma preocupação e sublinha que o problema deixou de ser pontual. "Isto já não é azar de um ano. É um padrão. Há calor intenso em março, depois frio em abril, e em maio aparecem chuvas e granizo. São fenómenos que não eram normais nestas alturas", afirma.
Para este produtor, a consequência direta é a dificuldade em planear investimentos e garantir rendimentos mínimos. "Fazemos contas, investimos, contratamos pessoas, e depois o clima muda tudo. A incerteza é total. Hoje em dia, produzir cereja é correr riscos constantes", resume.
Os agricultores defendem que as alterações climáticas colocam pressão adicional sobre um setor já fragilizado pelos custos de produção, pela falta de mão de obra e pela dependência de fatores externos.
"Apesar de algumas explorações terem apostado em redes antigranizo ou seguros agrícolas, essas soluções continuam a ser insuficientes ou financeiramente inacessíveis para explorações de menor dimensão", afirma Alexandre.
Entre a resiliência e a incerteza
Apesar do golpe severo, os produtores revelam, contudo, que a campanha não está perdida. Há zonas menos afetadas e variedades tardias que ainda podem salvar parte da época, mas o entusiasmo inicial deu lugar à prudência.
"O sentimento agora é de contenção. Passámos de um ano que podia ser excelente para um ano de resistência", resume Alexandre.
"Muitas cerejas ficam fragilizadas e acabam por não aguentar até à colheita. O prejuízo continua a aumentar dia após dia. O ano prometia ser excelente, agora estamos a tentar salvar o que resta"João Martins, produtor
João Martins reforça a mesma ideia: "Continuamos a trabalhar, porque a cereja não espera. Mas a verdade é que o que esperávamos ganhar já não vai acontecer".
Com a campanha a decorrer até meados de julho, os produtores aguardam estabilidade meteorológica e respostas do Governo quanto a eventuais apoios. Entre a expectativa de um grande ano e a realidade imposta pelo clima, a cereja do Fundão volta a mostrar a vulnerabilidade de uma fileira fortemente dependente do tempo e da capacidade de resistir a um dos seus piores inimigos.
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