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A genética tem pouco peso em 99% das doenças que afetam os habitantes dos países ocidentais. No entanto, grande parte da população prefere focar‐se no determinismo genético, culpando os genes e a sua herança genética pelas suas doenças, o que desresponsabiliza as autoridades dos seus deveres reguladores e também os próprios indivíduos com estilos de vida prejudiciais, que têm assim a desculpa «perfeita» para manterem os hábitos que os põem doentes.

Há uma linha ténue e disputada entre doenças genéticas propriamente ditas e poligénicas. Esta linha divisória depende da definição que criamos para doenças genéticas e, se não estivermos atentos, os interesses comerciais podem tentar exercer pressão sobre as entidades reguladoras para mover essa linha. No caso da obesidade, que atinge uma percentagem cada vez maior da popu‐ lação, e uma vez que existe um grupo de genes que podem de facto contribuir para a doença, por vezes surgem vozes a afirmar que a culpa do excesso de peso é dos genes. Coloca‐se então a questão: até que tamanho de roupa poderemos culpar os genes?

Fatores epigenéticos: o que podemos fazer para inverter o jogo a nosso favor

Os fatores epigenéticos mais importantes são a alimentação, o estilo de vida, no qual se inclui a atividade física e o sono, a exposição a toxinas e os pensamentos e emoções.

Na nutrição, o tipo de alimentos e bebidas que ingerimos, bem como a quantidade e frequência com que o fazemos, influenciam o risco de doença e a longevidade. Hoje já não restam dúvidas de que a prática do jejum ou a restrição calórica ajudam a prevenir doenças e aumentar a longevidade. Mas, atenção, não confunda jejum com desnutrição; são coisas diferentes. O estilo de vida refere‐se ao nível de atividade física (se somos ativos ou sedentários, se trabalhamos por turnos, etc.), à qualidade do sono, ao ritmo de vida e a hábitos prejudiciais como o tabaco, o álcool e as drogas. A exposição a toxinas e a químicos omnipresentes (no ar, na água, nos diversos produtos que usamos), bem como os campos eletromagnéticos das linhas de alta tensão, a poluição sonora e os plásticos exercem também uma enorme influência no nosso organismo, estando o bisfenol e os ftalatos dos plásticos associados a risco de cancro e infertilidade. E porque somos criaturas emocionais, uma boa autoestima e o otimismo estão associados a melhor imunidade.

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia. Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar a leitura e a discussão à volta dos livros.

Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Ao longo da história do nosso clube, já tivemos o privilégio de contar nomes como Teolinda Gersão, Afonso Cruz, Tânia Ganho, Filipe Melo e Juan Cavia, Kalaf Epalanga, Maria do Rosário Pedreira, Inês Maria Meneses, José Luís Peixoto, João Tordo e Álvaro Laborinho Lúcio, que falaram sobre as suas ou outras obras.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 2500 membros, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

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Os fatores epigenéticos começam a agir sobre nós desde o útero, desde a fusão do óvulo com o espermatozoide, mas podemos recuar um pouco mais se contabilizarmos a importância de nascer num corpo saudável, pouco intoxicado, com bactérias intestinais de qualidade e uma mente que respira amor e segurança. É nesse momento que se inicia a programação epigenética dos nossos genes, em que vamos ativar uns e silenciar outros, naquele que é um dos mais importantes milagres da vida.

Programação epigenética e efeitos transgeracionais

A programação epigenética serve para moldar os genes à época em que vamos nascer. Na realidade, moldamos a forma como lemos os nossos genes e não os genes em si. Os genes mudam ao ritmo do relógio evolutivo que, para o padrão de vida humano, é demasiado lento. A programação epigenética confere flexibilidade à rigidez genética, proporcionando uma janela temporal em que podemos moldar a informação genética para nos adaptarmos aos tempos em que vamos viver.

Quando um oleiro cria uma peça, pode ir moldando o barro antes de o secar e cozer, mas, depois de sair do forno, este ficará na forma final para sempre. O período de programação epigenética corresponde à fase em que o barro está moldável. Este período tem início na fecundação e estende‐se desde a vida uterina até ao segundo aniversário do bebé, sendo um momento crucial em que as experiências vividas deixam marcas para toda a vida.

Os primeiros 1000 dias de vida, que vão desde o momento da fecundação até aos dois anos após o nascimento, são o período mais sensível e importante na vida do novo ser. Um início de vida muito difícil, com carências nutricionais, privação afetiva, stresse da mãe ou exposição a toxinas poderão causar danos profundos e duradouros. Fatores ambientais adversos podem deixar marcas para toda a vida, aumentando o risco de, quando for adolescente ou adulto, ser mais propenso a ansiedade, depressão, abuso de drogas, obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares ou oncológicas, entre outras. Tudo é programado ou afinado, pelo que certos transtornos de saúde ou a forma como envelhecemos podem estar relacionados com um início de vida complicado.

Obesidade

A programação epigenética coordena o desenvolvimento, mas também a programação metabólica, ou seja, como o corpo funciona. A obesidade é um problema de saúde que acelera o envelhecimento e reduz a longevidade. Em alguns casos, pode ser causada por desnutrição intrauterina. Isto foi observado em filhos de mulheres holandesas que engravidaram durante os anos 1940, na altura da Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, a obesidade materna e os excessos na alimentação durante a gravidez também estão altamente correlacionados com a obesidade dos filhos. Mesmo que a mulher não fosse obesa, se engordar demasiado durante a gravidez, a criança tem mais risco de ser obesa. Comer adequadamente, nem a mais nem a menos, é importante para regular as células que armazenam gordura na criança. Além disso, são afetados os genes que regulam o stresse, o funcionamento das mitocôndrias (importantes estruturas celulares para queimar gordura) e a leptina (hormona reguladora do apetite), a que estas pessoas ficam naturalmente mais insensíveis.

Livro: "Prevenir, Curar, Viver"

Autor: André Dourado

Editora: Contraponto

Data de lançamento: 26 de março de 2026

Preço: € 17,70

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Diabetes

A insulina é a hormona que o nosso corpo produz para regular os níveis de glicose no sangue, facilitando a entrada desta nas células. Manter uma boa sensibilidade a esta hormona é crucial para uma vida longa e saudável, pois a desregulação dos sensores nutricionais está entre os fatores que contribuem para o envelhecimento.

Filhos de grávidas com diabetes gestacional, obesas ou que ganharam muito peso na gravidez terão um risco acrescido de virem a ter peso excessivo, desenvolverem diabetes e/ou ser obesos mais tarde na vida.

Estes efeitos podem ser transgeracionais, ou seja, podem afetar as gerações seguintes. Por exemplo, uma grávida com obesidade e resistência à insulina não só prejudicará o seu filho, como irá aumentar o risco de o seu neto desenvolver obesidade e diabetes.

Evidências dos últimos anos mostram como a dieta e o exercício afetam o epigenoma ao longo de várias gerações. Uma vez mais, não são os genes que as pessoas carregam os responsáveis pela obesidade na família, mas sim os hábitos alimentares e o estilo de vida dos antepassados recentes que afetam o epigenoma, agravado pelo comportamento normal de os filhos imitarem os pais. Por outras palavras, se os pais têm maus hábitos alimentares e um estilo de vida sedentário, não podem esperar que os filhos sejam diferentes. Como tal, adotar uma dieta e um estilo de vida mais saudáveis, pelo menos a partir do momento em que a mulher engravida, já ajuda a «mudar o chip», a mudar o nosso epigenoma. O ideal é começar antes.

O ambiente à nossa volta: toxinas, poluição e químicos prejudiciais para a saúde

Cada vez mais fica claro que a nossa própria exposição ambiental, para o bem ou para o mal, também afeta a saúde metabólica dos nossos filhos e netos. O que acontece nos primeiros 1000 dias de vida, desde o útero até ao segundo aniversário, tem um profundo impacto em nós durante o resto da vida.

As toxinas influenciam o epigenoma e a exposição permanente a poluentes e químicos nocivos potencia o risco de mutações genéticas. Em animais, sabemos que a exposição à poluição dos combustíveis e inseticidas cria anormalidades nos ovários e na próstata. Estudos em animais sugerem que a exposição no útero e nos primeiros anos de vida às moléculas libertadas pelos plásticos, como os bisfenóis, pode produzir uma ampla gama de efeitos adversos – incluindo prejudicar o desenvolvimento cerebral, a diferenciação sexual, o comportamento e a função imunológica – que podem estender‐se às gerações futuras.

Além dos campos eletromagnéticos criados pelos cabos de energia de alta tensão, hoje vivemos rodeados de outras fontes de radiação, como os eletrodomésticos, os routers ou os telemóveis, cujos efeitos estão pouco estudados. Até ao momento, não há forte evidência de que os campos magnéticos de baixa frequência dos telemóveis prejudiquem a nossa saúde, mas recordo que foram precisas várias décadas para se provar que a exposição prolongada ao tabaco aumenta o risco de cancro de pulmão.

Stresse

O stresse influencia a programação genética e, em si, constitui uma resposta mental e física com o objetivo de nos ajudar a sobreviver a uma ameaça. É uma das respostas primárias mais importantes de todos os seres vivos, sem a qual já teríamos provavelmente sido extintos. Isso significa que, na verdade, não é o stresse que é mau; o que é prejudicial é a sua intensidade, a duração e a forma como lidamos com ele.

Ainda na vida uterina, o stresse já molda a perceção que temos do mundo e de nós próprios, interagindo com a nossa personalidade. O amor‐próprio, a autoestima, a confiança e o otimismo, bem como os seus opostos são, pelo menos em parte, programados nesta fase.

Receber muito cuidado maternal, muita atenção e carinho durante este período de programação é como informar os genes de que vamos nascer num mundo seguro onde há momentos menos bons, mas tudo passa. Em contrapartida, receber pouco cuidado maternal informa que vamos nascer num mundo assustador onde há sempre um perigo à espreita.

O stresse na vida uterina ou até ao fim do período de programação epigenética tem um impacto transgeracional. Viver num ambiente conflituoso onde os pais discutem muito ou estão permanentemente em stresse, ser vítima de violência física ou ver violência exercida sobre os seus cuidadores também são fatores com efeitos perversos no desenvolvimento da criança.

Em resumo, a alimentação, o estilo de vida, as toxinas, o stresse e as emoções influenciam a programação epigenética, inibindo ou exacerbando a informação genética e favorecendo a expressão das suscetibilidades genéticas, as nossas fraquezas. Como tal, considerar a genética como a causa dos nossos problemas é o mesmo que passar a culpa para o vizinho, é falta de responsabilidade sobre as nossas próprias decisões. No máximo, os genes são responsáveis por 30% do que nos sucede. E estes 30% podem dar‐nos algumas suscetibilidades que são diferentes em cada pessoa, ou seja, fragilidades individuais – e há que acrescentar aqui os efeitos da programação epigenética do início de vida. Atualmente é possível, mediante testes genéticos, conhecer estas fragilidades e tomar medidas, nomeadamente, evitar determinados alimentos ou toxinas e ingerir micronutrientes específicos que possam anu‐ lar essas fragilidades. Mais adiante falarei de forma mais aprofundada sobre este tema.

Pelo menos 70% do que nos sucede são responsabilidade da epigenética, ou seja, da ação dos fatores epigenéticos sobre nós. Não só afetam a programação epigenética nos primeiros 1000 dias de vida como continuarão a influenciar a nossa saúde e longevidade até morrermos. Mesmo quando temos um mau início de vida, podemos tornar‐nos pessoas empáticas, amorosas, inteligentes, criativas e fisicamente muito saudáveis e viver para além dos 100 anos. Nem tudo depende da programação epigenética, mas é importante conhecermos o seu poder para mudarmos a forma como criamos as crianças para termos uma sociedade saudável, longeva e pacífica. A personalidade com que nascemos e a forma como lidamos com tudo o que nos acontece têm um peso gigantesco na nossa saúde, e a alimentação e o estilo de vida também. Por isso, é importante conhecer e dominar cada um dos fatores epigenéticos, se queremos manter o equilíbrio e ter uma longa vida.

LIÇÕES PARA O SEU DIA A DIA

  • A influência da genética na nossa saúde e longevidade é muitíssimo menor do que se pensa. Os nossos genes só são responsáveis, no máximo, por 30% do que nos acontece. Os restantes 70% derivam de um conjunto de fatores designados fatores epigenéticos, dos quais se destacam a alimentação, o estilo de vida, a exposição a químicos nocivos e o stresse.
  • Dominar os fatores epigenéticos e saber como o corpo e a mente funcionam permite abrandar o processo de envelheci‐ mento e melhorar a nossa saúde.
  • A programação epigenética que ocorre nos primeiros 1000 dias de vida de um ser humano deixa marcas permanentes e influencia toda a sua vida.

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