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Mais de metade das famílias que procuram uma residência sénior com um orçamento mensal até 1500 euros acaba por pagar mais do que tinha previsto. De acordo com o primeiro Barómetro da Procura de Residências Sénior em Portugal, realizado pela Via Senior e BA&N Research Unit, 52% das colocações neste escalão ultrapassaram o limite financeiro definido no início do processo.
A pressão diminui à medida que aumenta a capacidade financeira. Entre as famílias com orçamentos entre 1501 e 2000 euros, 32% acabaram por pagar acima do previsto. A percentagem desce para 22% no escalão entre 2001 e 2500 euros e para 12% entre 2501 e 3000 euros. A partir dos 3001 euros mensais, 98% das colocações são concretizadas dentro do orçamento inicialmente definido.
O problema afeta sobretudo os agregados com menor margem financeira, precisamente aqueles que representam a maior parte da procura. Nove em cada dez pedidos analisados têm um orçamento máximo de 2000 euros mensais e apenas 4% admitem pagar mais de 2500 euros.
“Os dados mostram um claro desfasamento entre a capacidade financeira de muitas famílias e o custo das respostas de que necessitam”, afirma ao 24notícias Nuno Saraiva de Ponte, CEO da Via Senior. “A dificuldade não é tanto encontrar uma vaga, mas encontrar uma solução que a família consiga efetivamente pagar”, acrescenta.
Poupanças e património cobrem a diferença
Quando a reforma do idoso não chega para suportar a mensalidade, a diferença é normalmente paga com poupanças do próprio ou da família, com a contribuição dos filhos ou através da rentabilização do património, nomeadamente pela venda ou arrendamento de imóveis.
“Há várias formas de responder à diferença entre o valor da reforma do idoso e o custo da mensalidade”, explica Saraiva de Ponte, referindo a ajuda dos descendentes, a utilização das poupanças e a venda ou arrendamento de património.
"Os dados mostram um claro desfasamento entre a capacidade financeira de muitas famílias e o custo das respostas de que necessitam"Nuno Saraiva de Ponte
O barómetro não permite, contudo, saber quantas famílias abandonaram a procura por não terem capacidade para pagar uma residência. A análise incide apenas sobre os pedidos e as colocações registados, deixando de fora os casos em que as famílias desistiram, adiaram a decisão ou não chegaram a avançar por razões financeiras.
“A realidade é bem mais exigente, mas quanto mais cedo uma família conhecer as opções reais disponíveis, mais capacidade tem para decidir e menor é o risco de chegar a uma situação de urgência sem uma solução compatível com as suas necessidades e com o seu orçamento”, reconhece o responsável.
Metade das colocações acontece em menos de 15 dias
A urgência é outra das características desta procura. Metade das colocações é concretizada em menos de 15 dias e 87% no prazo de um mês. Em muitos casos, o processo só começa depois de um agravamento do estado de saúde, de uma queda, de um acidente ou quando a família deixa de conseguir assegurar os cuidados no domicílio.
Quando a procura se inicia, 78% dos idosos já apresentam alguma limitação da autonomia: 61% são semidependentes e 17% totalmente dependentes. Os restantes 22% são autónomos e podem procurar uma residência por razões como o isolamento, a necessidade de maior segurança ou a ausência de uma rede familiar próxima.
Nuno Saraiva de Ponte explica que as famílias procuram, geralmente, “manter o idoso em casa durante o maior tempo possível, por vontade do próprio e também dos familiares”. A decisão acaba muitas vezes por ser precipitada por um episódio que torna inviável a manutenção dos cuidados anteriores.
São os filhos que assumem a procura
Os filhos são responsáveis por 60% dos contactos para encontrar uma residência sénior, aos quais se somam 10% de pedidos de genros ou noras. Apenas 4% dos processos são iniciados pelos próprios idosos.
Na grande maioria dos casos, a solução procurada é definitiva: 88% dos pedidos destinam-se a uma estadia permanente, enquanto as soluções temporárias representam 12%.
O perfil mais comum é o de uma mulher com mais de 75 anos. As mulheres representam 63% dos utentes associados aos pedidos e 86% têm, pelo menos, 75 anos. O grupo entre os 85 e os 94 anos é o mais representado, concentrando 44% da procura.
Lisboa concentra 49% dos pedidos analisados, seguindo-se o Porto, com 14%, e Setúbal, com 12%. Em conjunto, os três distritos representam três quartos da procura registada.
Perante o desfasamento entre os orçamentos disponíveis e o preço das residências, a Via Senior defende a criação de um apoio público direto às famílias, inspirado na prestação económica prevista na Lei da Dependência espanhola.
O chamado ‘Cheque Sénior’ não teria um valor igual para todos. A comparticipação seria calculada em função dos rendimentos do agregado familiar, do grau de dependência física ou cognitiva do idoso e do custo dos cuidados necessários. As famílias com rendimentos mais baixos ou com idosos mais dependentes receberiam um apoio superior.
A empresa não apresenta, para já, uma estimativa do custo da medida para o Estado. Segundo a Via Senior, seria necessário definir primeiro o universo de beneficiários, os escalões de rendimento e os limites da comparticipação.
“O Cheque Sénior não deve pagar o mesmo a todos, deve garantir mais apoio a quem mais precisa”, defende Saraiva de Ponte. O responsável rejeita também que a medida corresponda apenas a uma transferência de dinheiro público para operadores privados. O apoio, argumenta, “seria atribuído às famílias, dando-lhes liberdade para escolher uma instituição sem ficarem exclusivamente dependentes de uma vaga no sector social”.
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