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Sempre que vamos viajar e deixamos de fora o carro, a ansiedade aumenta. Procuramos pelos transportes públicos de uma determinada vila ou cidade e começamos a perceber que teremos de usar várias plataformas ou mesmo comprar vários bilhetes a bordo para que a nossa deslocação não seja muito problemática. Isto é o que acontece em Portugal.

Na Noruega, o cenário muda: a plataforma Entur é como uma loja que vende um só bilhete para várias viagens e também mostra múltiplas combinações de transportes coletivos. Neste agregador, também temos acesso aos horários dos autocarros, comboios, elétricos e ferries que existem em todo o país e até nos vizinhos, Suécia e Dinamarca. Perto de 97% dos bilhetes para viagens na Noruega estão disponíveis nesta solução.

Vamos primeiro a Portugal e a um exemplo rápido. Nas últimas semanas, tornaram-se incompatíveis as duas aplicações móveis para carregar bilhetes de transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa (Navegante) e Porto (Anda). Mesmo que tenham sido desenvolvidas pela mesma empresa (Card4B). Ou seja, quem tiver instaladas no telemóvel as duas aplicações não consegue carregar ou validar bilhetes com a plataforma Anda, conforme o 24notícias testemunhou em visitas recentes ao Porto.

Tentámos obter esclarecimentos junto da empresa responsável pelo desenvolvimento das aplicações e das autoridades de transportes de Lisboa (TML) e Porto (TMP). Nenhuma respondeu às perguntas enviadas pelo 24notícias em 28 de maio.

Mobi.E nos transportes públicos?

Há mais de três anos que se fala na iniciativa 1Bilhete.pt, para “criar uma plataforma nacional de bilhética intermodal”. A apresentação foi em fevereiro de 2023: “o projeto visa permitir que os cidadãos utilizem um único cartão ou aplicação móvel para adquirir e validar títulos de transporte em diferentes sistemas, eliminando a necessidade de múltiplos cartões ou aplicações”, lê-se em nota publicada na altura. Para já, os resultados não são palpáveis para os passageiros.

O cenário, no entanto, poderá mudar nos próximos anos. Na semana passada, a Mobi.E colocou um anúncio para contratar um gestor de produto na área da bilhética digital e interoperabilidade. Mudanças estão a caminho na empresa pública que, no final do ano, deixará de ser a empresa gestora da mobilidade elétrica em Portugal, depois de mais de década e meia com essa tarefa.

"A integração de sistemas de bilhética foi identificada como oportunidade de desenvolvimento de novas soluções ao serviço do ecossistema de mobilidade", respondeu por escrito ao 24notícias o presidente da Mobi.E, António Veiga Ferrão. A empresa admite que há uma oportunidade para "modernizar e harmonizar os sistemas de bilhética a nível nacional, atualmente fragmentados".

Fundada em 2011, a empresa habituou-se, nos últimos cinco anos, a lidar com os dados dos postos de carregamento de vários operadores e garante que as "competências desenvolvidas no contexto da mobilidade elétrica, são transferíveis para o domínio da bilhética integrada, nomeadamente na construção e gestão de plataformas interoperáveis e escaláveis.

A entidade "dispõe de experiência consolidada na gestão de sistemas interoperáveis, tanto ao nível tecnológico como nos processos de compensação (clearing) e articulação entre múltiplos intervenientes", detalha.

Não se sabe quando esse trabalho será concluído. Por enquanto, a empresa está a identificar "falhas de mercado e oportunidades", em diálogo com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) e as autoridades de transportes.

Plataforma única na Noruega

Seguimos 4000 quilómetros acima e recuamos a 2016. “A Entur nasceu para facilitar o uso dos transportes públicos e para proporcionar uma experiência sem problemas entre operadores”, recorda ao 24notícias a presidente executiva da plataforma, Christel Borge. A plataforma é totalmente detida pelo Estado norueguês e também funciona como centralizador das receitas de bilhetes, que depois são distribuídas entre as empresas de transportes.

Para que o sistema funcione sem obstáculos para os passageiros e apresente todas as informações em tempo real, há três ingredientes essenciais: a recolha de dados, o uso de um sistema único de bilhética e os canais de vendas.

Pesquisa de viagem entre a estação central de comboios de Oslo e a cidade de Kristiansand, no sul da Noruega
Pesquisa de viagem entre a estação central de comboios de Oslo e a cidade de Kristiansand, no sul da Noruega

“A qualidade do nosso serviço depende da qualidade dos dados fornecidos pelos operadores”, destaca Christel Borge. A Entur reúne dados de mais de 100 empresas, como todos os operadores de transportes públicos, barcos e autocarros de longa distância do Estado e mesmo da FlixBus. Os modos suaves também estão na base de dados, como os carros, trotinetas e bicicletas partilhados. A informação em tempo real das viagens e dos horários programados seguem os protocolos europeus (NeTEx e SIRI), “facilitando a integração de novas empresas de transportes, serviços e parceiros”.

A Entur também assume a tarefa de cobrador único de bilhetes na Noruega e é o destino das compras de bilhetes e reservas de lugar, que podem ser feitas no telemóvel, no computador, em máquinas de venda (em algumas estações ferroviárias) e mesmo por entidades terceiras. No final, a plataforma distribui as receitas pelos operadores. “Temos uma bilhética comum: em toda a Noruega, os passageiros podem usar bilhetes eletrónicos, independentemente da empresa e do canal de compra”, nota a líder da Entur. A situação também facilita a vida aos motoristas e fiscais, permitindo uma “verificação constante dos bilhetes ao longo da rede”.

Detalhes da pesquisa de viagem entre a estação central de comboios de Oslo e a cidade de Kristiansand, no sul da Noruega, incluindo a apresentação de um mapa
Detalhes da pesquisa de viagem entre a estação central de comboios de Oslo e a cidade de Kristiansand, no sul da Noruega, incluindo a apresentação de um mapa

Dados abertos

Quem gosta de programação pode encontrar nesta plataforma vários tesouros. A Entur privilegia os dados abertos e disponibiliza informações como a pontualidade e regularidade de todas as viagens no país, as emissões de dióxido de carbono e consumo energético dos veículos e a localização de todas as paragens, estações e terminais de transporte público.

A informação é tão valiosa que até o Google Maps a utiliza nas pesquisas por transportes públicos dentro da Noruega, através dos protocolos API, totalmente abertos.

Outra solução muito útil permite transformar qualquer ecrã num mostrador de horários, muito útil, por exemplo, para quem está a sair de uma loja ou de um consultório médico. A ferramenta Tavla pode ser instalada por qualquer pessoa e apresentar todas as partidas de uma determinada estação ou paragem.

Dá mesmo para escrever uma mensagem personalizada na parte inferior do ecrã.

Simulador de mostrador de horários
Simulador de mostrador de horários

Para que a “magia” aconteça, a Entur conta com cerca de 500 trabalhadores, boa parte deles focada na área digital e que pertencem aos quadros. “Ao longo do tempo, deixámos de assentar o nosso desenvolvimento em empresas externas e apostámos em construir maior capacidade interna”, sinaliza Christel Borge. “Este passo foi importante para termos custos mais eficientes e ainda desenvolver uma política de longo prazo na nossa infraestrutura crítica nacional”, acrescenta.

Ambição além-fronteiras e mais personalização

Apesar de já ter 10 anos, a plataforma norueguesa tem muito desenvolvimento pela frente, além-fronteiras e na ligação com os seus utilizadores.

“O Governo norueguês tem ambições claras em simplificar as viagens transfronteiriças, ao permitir compras de bilhetes sem obstáculos nas nossas máquinas ou através do nosso portal e aplicação móvel. Isto permitirá que viagens entre Oslo e Copenhaga sejam compradas num só sítio e de uma só vez”, destaca a responsável.

Mais adiante, poderá nascer um serviço de viagens mais personalizado: “Estamos a experimentar a ferramenta do ‘companheiro de viagem’, em que o nosso sistema entende a nossa deslocação em tempo real e depois envia notificações caso existam atrasos ou cancelamentos”, antecipa a norueguesa. A solução “poderá perguntar ao passageiro se conseguimos fazer o transbordo e propor-nos mesmo alternativas de rota caso seja necessário”.

E assim se faz uma integração sem barreiras nos transportes públicos, facilitando a vida aos passageiros. Um exemplo em que Portugal se pode inspirar.

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