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As bolsas de nicotina, também conhecidas como “nicotine pouches”, “snus branco” ou “pérolas de nicotina”, são pequenos sacos colocados entre a gengiva e o lábio que libertam nicotina através da mucosa oral. Ao contrário do snus tradicional sueco, muitas destas bolsas não contêm tabaco, sendo algumas produzidas com nicotina sintética. Segundo a OMS, a indústria apresenta-as como alternativas “mais limpas”, “mais discretas” e “socialmente aceitáveis” do que os cigarros, além de promover a ideia de que são menos prejudiciais para a saúde. Contudo, a OMS rejeita essa narrativa e insiste que “nicotina é nicotina”, independentemente da forma de consumo.

No primeiro grande relatório dedicado especificamente a este mercado, a OMS conclui que as empresas estão a recorrer a campanhas de marketing sofisticadas para tornar estes produtos atractivos para os mais novos. O documento denuncia o uso de sabores doces e apelativos, como pastilha elástica, gomas, mojito, gin tónico ou outros aromas inspirados em doces e bebidas, embalagens coloridas e minimalistas, campanhas com influenciadores digitais, publicidade nas redes sociais e patrocínios de festivais, concertos e eventos desportivos. Em muitos casos, os produtos são apresentados como acessórios de estilo de vida moderno, associados à liberdade, discrição e integração social, e não como produtos altamente viciantes.

A OMS considera particularmente preocupante o facto de muitas campanhas promoverem o uso discreto das bolsas em locais onde fumar é proibido, incluindo escolas, transportes públicos ou restaurantes. Segundo a organização, esta estratégia reduz a percepção de risco entre os jovens e normaliza o consumo de nicotina em ambientes quotidianos. Vinayak Prasad, responsável da iniciativa Tobacco Free Initiative da OMS, questionou mesmo: se estes produtos servem alegadamente para ajudar fumadores adultos a deixar o tabaco, por que motivo são vendidos com sabores doces e promovidos através de campanhas claramente orientadas para adolescentes?

Os especialistas da OMS alertam ainda para os efeitos da nicotina na saúde, sobretudo durante a adolescência. A exposição precoce pode afectar o desenvolvimento cerebral, a capacidade de aprendizagem, a atenção e o controlo de impulsos, além de aumentar significativamente o risco de dependência prolongada. A nicotina também está associada a problemas cardiovasculares, uma vez que estimula o sistema nervoso simpático, aumenta a libertação de adrenalina, acelera o ritmo cardíaco e provoca constrição dos vasos sanguíneos.

Outro dos pontos mais alarmantes do relatório prende-se com a concentração de nicotina encontrada em alguns produtos. Embora muitas bolsas tenham níveis médios próximos dos 9 ou 10 miligramas, testes toxicológicos identificaram marcas com concentrações até 150 miligramas por bolsa, doses potencialmente perigosas, sobretudo para crianças pequenas em caso de ingestão acidental.

A OMS alerta também para a rapidez do crescimento deste mercado. As vendas globais ultrapassaram 23 mil milhões de unidades em 2024, mais 50% do que no ano anterior, e o valor do mercado aproxima-se já dos sete mil milhões de dólares. A maior fatia das receitas vem da América do Norte, mas a Europa é um dos mercados em expansão mais rápida, com destaque para a Suécia, Alemanha, Polónia e países nórdicos.

O Politico usa o caso da Suécia, frequentemente apresentada pela indústria tabaqueira e por grupos financiados pelo sector como um exemplo de sucesso, já que o país reduziu drasticamente o número de fumadores nas últimas décadas. Contudo, a OMS rejeita a ideia de que esse sucesso se deva às bolsas de nicotina ou ao snus. Segundo os especialistas, a queda do tabagismo sueco resulta sobretudo de políticas clássicas de controlo do tabaco: impostos elevados, restrições publicitárias, campanhas de saúde pública e serviços de apoio à cessação tabágica. Para a OMS, usar o exemplo sueco para promover bolsas de nicotina é uma forma de “promover a dependência da nicotina”.

O debate está agora a intensificar-se na União Europeia. A Comissão Europeia prepara uma revisão da directiva europeia sobre produtos do tabaco até ao final de 2026, incluindo possíveis restrições mais duras à publicidade, venda e composição das bolsas de nicotina. Ao mesmo tempo, os países europeus discutem novos impostos mínimos sobre estes produtos. Bruxelas propôs uma tributação correspondente a 50% do preço de venda, mas vários governos defendem taxas mais baixas.

França avançou recentemente com uma proibição total das bolsas de nicotina, prevendo multas pesadas e até penas de prisão para quem transporte determinados produtos. A decisão provocou protestos da Suécia, que acusou Paris de violar as regras do mercado único europeu. Uma investigação da rádio pública sueca revelou inclusivamente que autoridades comerciais suecas utilizaram argumentos originalmente produzidos pela indústria tabaqueira para contestar a proibição francesa.

Em Portugal, o Governo aprovou recentemente um projecto-lei para regulamentar este mercado, numa linha próxima das recomendações da OMS. A proposta prevê a proibição da venda a menores de 18 anos, regras de verificação obrigatória da idade, restrições severas aos sabores, permitindo apenas mentol e menta em condições muito limitadas, e regras apertadas sobre rotulagem e embalagem. O diploma também pretende impedir qualquer elemento visual ou mensagem que sugira benefícios para a saúde, menor risco ou propriedades “naturais”, “energizantes” ou “rejuvenescedoras”.

A OMS insiste que os governos devem agir rapidamente para evitar que estes produtos se transformem numa nova porta de entrada para o vício da nicotina entre os jovens. A organização defende uma abordagem semelhante à usada para o tabaco tradicional: aumento de impostos, limitação dos teores de nicotina, proibição de publicidade e marketing, controlo da venda online, embalagens neutras e forte fiscalização. Para a organização, o risco é claro: décadas de progresso no combate ao tabagismo podem ser parcialmente revertidas se as bolsas de nicotina forem tratadas como produtos inofensivos ou modernos em vez de substâncias altamente viciantes.

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